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segunda-feira, 17 de agosto de 2026
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Amor e empoderamento: a resistência LGBTQIA+ dos acreanos e acreanas

As nomenclaturas que envolvem a comunidade LGBTQIA+ ainda são desafiadores e “complexas” para muitas pessoas. Entretanto, a temática está em nosso cotidiano mais do que se imagina. São classificadas como pessoas cisgêneros quem se identificam com o sexo designado pelo nascimento, ou seja, uma pessoa que nasceu mulher e se identifica como uma mulher.

Já as pessoas transgêneros não se identificam com o gênero designado em seu nascimento. Ou seja, um homem trans é uma pessoa que nasceu em um corpo biologicamente feminino, mas se identifica no masculino. Nesse contexto, temos as relações homoafetivas, que são relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, e as heteroafetivas, sendo relacionamentos entre pessoas de sexos opostos. Ambos, constantemente, confundidas com o papais de identidade.

“O meu processo de aceitação, não se deu com as outras pessoas, mas comigo mesma. Comecei comigo, para então ir para outras pessoas. Foi muito complicado”, lembra Jennyfer Almada, de 23 anos. Alma, como prefere ser chamada, é lésbica e proprietária da primeira loja de artigos LGBTs do estado.

Alma é proprietária da primeira loja de produtos LGBTs do Acre (Foto: Arquivo Pessoal)

“Quando a minha família descobriu, nem eu sabia o que responder. Tinha apenas 17 anos, e apesar de recente, eu não tinha tanto acesso a esse tipo de informação. Nem eu sabia o que eu era”, observa a jovem empreendedora.

Desde que se “assumiu”, Alma desenvolveu uma proximidade maior e mais afetiva com seus pais, para dialogar inclusive sobre diversidade. O processo dela é parecido com o do microempresário Jhonatan Henrique Lima, de 23 anos, que é bissexual, e sempre enxergou as pessoas como pessoas, independente do sexo. “Nunca gostei de deixar as coisas me limitarem”.

Na primeira fase de sua adolescência, Jhonatan se relacionou apenas com mulheres, por medo da reação de outras pessoas. O jovem microempresário só começou se envolver com homens a partir dos 18 anos, quando se entendeu bissexual (pessoas que se relacionam com homens e mulheres) e viveu se primeiro relacionamento homoafetivo.

“Meu pai não conseguia compreender muito bem [a bissexualidade], para ele eu tinha que ser gay ou hétero. Já minha mãe se preocupava mais com a forma como as pessoas poderiam lidar comigo. A reação que mais me surpreendeu foi a do meu avô, que faleceu há pouco tempo. Ele foi uma pessoa muito importante para mim nesse processo, me disse ‘que eu era livre para amar quem eu quisesse e que ninguém tinha que me limitar ou me impedir disso’, e isso me ajudou muito”, relembra Jhonatan.

Jhonatan é bissexual (Foto: Arquivo Pessoal)

Rompendo preconceitos

A experiência do estudante Oliver Melo, de 17 anos, partiu de dois acontecimentos marcantes. Primeiro, ele entendeu sua orientação sexual e, depois, assumiu a identidade de gênero. O jovem se identifica como transgênero e teve que enfrentar algumas dificuldades no diálogo com os pais. Antes de se identificar como trans, Oliver viveu um relacionamento homoafetivo.

“Passei a minha vida toda sendo associado e lidando com coisas associadas ao feminino, e isso não mudou porque sempre gostei dessas coisas. Roupas, maquiagens, brinquedos, qualquer coisa. Até hoje são coisas que me atraem muito”, explica Oliver que sempre teve seus gostos pessoais atribuídos ao universo feminino. Indiretamente, ele se sentia inserido dentro desses estereótipos.

Outro embate enfrentado pelo estudante foi explicar a sua identidade de gênero à família, que já estava lidando com sua sexualidade e tiveram que compreender o universo trans.

“A pessoa que mais me colheu foi meu irmão mais velho. Ele foi a pessoa que mais me colheu e mais acolhe, que me respeita em absolutamente todos os momentos. Ele foi a primeira pessoa a de fato me tratar pelo meu nome. Ele sempre se corrige se fala algo de errado, diferentemente, dos meus pais”, desabafa.

Oliver estuda em uma escola militar e, por ser aluno-destaque, tem que estar presente na instituição. E uma das situações mais embaraçosas e constrangedoras é a utilização obrigatória da saia que faz parte da farda institucional. Um desejo é que não o chamam por seu ‘nome morto’ (nome de nascimento não utilizado mais por transexuais e travestis).

Antes de se identificar como trans, Oliver viveu um relacionamento homoafetivo

“Isso era outra coisa que me doía muito porque, no terceiro ano do meu ensino médio, o que mais quero é chegar na minha formatura, quando vou receber minha patente de coronel e poder ser chamado pelo meu nome, com o uniforme que eu quero usar. Esse foi um dos maiores motivos para eu ter coragem de me assumir para meus pais”, explica.

Violência e intolerância

Nascido em um lar predominantemente cristão e conservador, Bernardo Silva [nome fictício] é gay e pediu sigilo quanto a sua identidade por medo das perseguições, que sofre da família. Mais novo, o jovem era obrigado a frequentar os cultos religiosos, o que segundo ele dificultou o seu processo de aceitação.

Na infância, Bernardo se sentia diferente por sentir atração por meninos e não por meninas, como lhe ensinavam. De tanto ouvir que era possível, o jovem buscava a “salvação” na igreja. Nos tempos de colégio, para não ter que sofrer bullying e discriminação de amigos e a colegas, forçou interesse por garotas.

Cansado, um dia Bernardo se “assumiu” para uma amiga e foi acolhido “Eu falei, ‘amiga, eu sou gay’. E me deu vontade de chorar. Só que o que ela me falou me reconfortou”, relembra o rapaz.

Ao se abrir com a amiga, Bernardo se sentiu mais confortável em partilhar momentos de sua vida. E foi em uma de suas conversas que a mãe, ao mexer em seu telefone, descobriu que ele era gay e não reagiu bem ao fato.

“Teve um momento que ela me levou a um psicanalista, e a proposta era que ele iria me atender para me ajudar a lidar com meus problemas pessoais. Porém, nas consultas minha mãe nos ouvia por trás da porta, e o médico começou a me humilhar falando que “aquilo” era errado, que eu só era assim porque eu não tinha um pai. Aquilo ali me marcou muito”, relata emocionado.

Segundo Bernardo, por um tempo, chegou a acreditar que a relação com a mãe havia melhorado. Entretanto, quando tentou apresentar o namorado, a reação discriminatória da família o feriu e ele saiu de casa.

“Desde então, não falo mais sobre isso, tenho até receio de me escutarem. Tenho traumas frequentes com isso”, relata o jovem.

Discriminação

O processo de descoberta da estudante Angel Souza, de 17 anos, não muito foi diferente de Bernardo. Mulher Transexual, Angel contou contou com o apoio de amigos durante seu processo de afirmação da identidade de gênero. Entretanto, antes de se entender uma mulher trans, a jovem se assumiu gay. Nessa fase, teve que lidar com a rejeição da família.

“Aminha família não me via como uma mulher, para eles eu era um garoto gay e pronto. É “ele”, nunca foi “ela”, é “dele”, nunca foi “dela”. Foi ele e dele. Então, nunca fui bem aceita pela minha família”, conta.

A jovem explica que sempre sofreu discriminação, principalmente, por ser uma mulher transexual, negra e da periferia. Cotidianamente, Angel é vítima de algum tipo de preconceito e mesmo que se sinta receosa, tenta se “acostumar” com isso.

Angel é mulher trans

O que significa resistência?

Para Jhonatan, resistência hoje possui um novo significado. “É saber que sou livre e tenho total direito de amar independente de qualquer situação ou pessoa, assim como a comunidade maior [pessoas heterossexuais] que nos consideram coisas de outro mundo ou anormais. Então, eu resisto por direito básico que todo ser humano tem que é ser quem eu sou”, pontua.

Por possui um ciclo grande de amigos LGBTs e negros, o significa de resistência para Oliver tem um sentido coletivo. “Quando a gente para pensar, nós nunca estamos sozinhos. Não apenas no meio LGBTQIA+, mas no meio racial e socioeconômico. Então, para mim, resistência é coletividade. Que é uma coisa que lutamos não só pela gente, mas pelos nossos, familiares, amigos e todos como nós”, diz.

Segundo Alma, resistência está associada a resiliência. “Também ligada a nossa capacidade de continuarmos resistindo”, observa.

Já Bernardo, entende que resistência é uma questão complexa, e concorda com o ponto de vista de Alma. “É a nossa capacidade de nos mantermos de pé, sabendo que muitas questões a nossa volta podem não estar favoráveis”.

Para Angel, resistência significa a capacidade de enfrentar seus medos e ter a oportunidade de sobreviver em sua condição de vulnerabilidade e perseguição.

“É botar a cabeça no travesseiro e pensar, sobrevivi a mais um dia e amanhã vai ser outro, pelo qual Deus vai me abençoar e vai me permitir viver. Então, resistência é lutar cada dia mais”.