Rio Branco
23°C
sexta-feira, 5 de junho de 2026
00:25

A VIAGEM

Nenhuma palavra será necessário dizer para saber que existiu uma fonte d’água para cada antepassado. A não ser a palavra universal que nutre as flores, os risos, as carícias e o habitar pedagógico do nosso coração. Muito embora, a canoa teime navegar, rasgando a obra de arte que o rio deixou, tatuado em nossa alma, como se fosse o mergulho do rio nas palavras.

Navegando assim, quem sabe a humanidade entenderá que a natureza é a medida de todas as coisas e a grande aliada da vida. Mas o que sei dos rios, se eu não sentir a chuva bater na pele e correr na terra fria indefesa, exposta a fúria de um tal progresso, que prega o uso racional, mas pratica a agressão irracional.

E as fontes d’água que vêm se esgotando por ganância, puder e ambição? Elas sim, sentem a dor da natureza. Os homens parecem não acreditar que aos poucos os rios secam sem deixar as flores que enchem nossos olhos e forram a nossas redes.  Ah!!! Triste rio, o que restará de você se suas margens forem ocupadas por seres individualistas e consumistas?

E os igarapés chorosos, vítimas da insensibilidade humana, vivem no meio da combinação lixo/cidade, respirando vírus e bactérias. Eles são os primeiros cursos d’água a desaguar no meio de rostos queimadas.  Fruto da falta de defesa da natureza. E, que posso eu fazer – eu tão sozinho, tão nada, tão ninguém, afogado nas lágrimas da revolta.  Afinal, como posso lhe ajudar, e ajudar outros que sofrem igualmente a você. Eu que no futuro serei tão somente uma pedrinha na imensidão do cosmo.

O certo é que precisamos sonhar para se banhar nas águas de carinho. Construir um futuro de sonhos, mesmo que o futuro chegue se misturando à chuva e o vento numa total desordem. Se um dia cada ser sonhar e sentir esse prazer, quero crer que aprenderão a cuidar da natureza, para não ver a tristeza brotar da terra e das pedras.

Que neste rio de água plena, o homem seja a luz do mundo escuro, e não uma atmosfera da noite a deriva.  Um dia quero molhar meus pés num igarapé natural e sentir o cheiro do capim molhado como se estivesse flutuando nas águas cheias de uma alagação. Cito a alagação do Rio Acre em 2007, por exemplo. Na ocasião, as águas subiram para dezessete metros e sessenta e seis centímetros de pura emoção.

Me senti envolvido na ciranda da sua misteriosa alagação. Por isso, posso dizer categoricamente, Rio Acre, a história lhe tornou imortal, apesar dos homens lhe culpar por tudo. Poucos lhe enxergam plantando a esperança para a humanidade ou como um tesouro conjugado para existir.

Durante a travessia montei a mesa como monto o nosso teatro de prosas, sempre mergulhando no remanso do futuro, que será ou não. Enquanto isso me espalho no grito de cada trovão turvando as cores do arco-íris para ver o boto no rebojo anunciando a pesca, longe do tédio e da estafa urbana.

Lá, onde nada há, além da doçura selvagem. O olho d’água me atrai, como se eu fosse dele há milênios.

E sobre tudo, ele acha que tira do meu coração todo dor e deixa para a humanidade um céu estrelado como herança. Sem preparar uma nova viagem, imerso na umidade, derrama toda idade, mostrando as fendas renovadas que restabeleceu na prece das águas de um doce igarapé.

Desculpem os rios que formam o encontro das águas. Vocês juntam multidões de admiradores, enquanto eu, Rio Acre, junto multidões semeadas de histórias, porém, despreparados pelo vício do ganho material, enquanto eu, sobre as pedras de amor, rezo sem saber rezar.

Claudemir Mesquita, é especialista em planejamento e uso de bacias hidrográfica, é professor, geógrafo, membro da A A L e Presidente da Associação Amigos do Rio Acre