Helicóptero resgata homem com suspeita de Covid-19, que há mais de 20 anos mora sozinho dentro da selva

Um homem de 53 anos foi resgatado com suspeita de Covid-19, no meio da selva, na região do Juruá, na semana passada. Gildo da Silva Conceição foi retirado da floresta por um helicóptero do Governo do Estado do Acre desde a reserva florestal do Gregório, a mais de 60 quilômetros de Tarauacá (440 quilômetros de Rio Branco), onde ele vive só, numa casa feita da palmeira de Paxiúba em meio ao vasto verde.
Gildo Conceição está na região há mais de 20 anos, nunca teve filhos, nem esposa, e desde então a sua identidade não era conhecida pelos técnicos da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), responsáveis pelo controle e monitoramento da área, que é protegida contra latifundiários e contra a caça e a pesca predatória.
“Nós não tínhamos sobrevoado ainda aquele área, nas operações de monitoramento da reserva, mas sabíamos da existência dela desde 2004, por meio das imagens de satélite. Então como não o conhecíamos, não tínhamos o seu nome, resolvemos ir até lá”, explica o engenheiro florestal Victor Melo Lima, gestor da Reserva Florestal do Antimari, responsável também pelo monitoramento da Floresta do Gregório.
Por isso, no último dia 23, a pedido dos próprios técnicos da Sema, uma aeronave do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer), da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública, foi deslocada até a residência do eremita para cadastrá-lo.
“Foi então que descobrimos que ele reclamava de muitas dores pelo corpo e na cabeça, estava fraco demais e tinha febre, algo que poderia ser sintomas de Covid-19. Como não poderia ser levado a um hospital naquele mesmo dia, porque a aeronave estava com lotação máxima, no dia seguinte, 24, o helicóptero do Ciopaer retornou e ele foi resgatado até o Hospital Geral de Tarauacá, onde uma ambulância o esperava no aeroporto”, destaca Victor Lima.
As equipes da Sema e do Ciopaer acreditavam que ele pudesse estar com Covid-19, embora tenha afirmado que a última vez que viu gente tinha sido há um mês, quando esteve em Tarauacá. Foi nesta última ida à cidade que o extrativista teria se contaminado pelo novo coronavírus. No entanto, o produtor rural ficou em observação no hospital de Tarauacá até a última terça-feira, 27, quando recebeu alta e então retornaria para casa por terra.
Segundo a equipe da unidade de Tarauacá, ele recebeu soro para hidratação, foi medicado e em seguida, liberado já que ainda que tenha pego Covid-19, o ciclo da doença já foi concluído.

O resgate
A relva em verde-claro, em agitação por causa da ventania provocada pelas pás do helicóptero davam um contraste impressionante com o verde escuro da mata ao redor da casa do morador da floresta, como numa ilha que se destaca no meio de um oceano sem fim, nesse caso, as milhares de árvores seculares.
Da janela da sua casa, feita de paxiúba, Gildo observou atentamente a máquina se aproximando do céu, crescendo cada vez mais diante dos seus olhos até pousar no descampado ao lado, no que foi o primeiro dia de contato.
“Rapaz, me assustei. Nunca tinha visto uma dessas coisas, ainda mais no quintal de casa”, disse ele à equipe. Ao ser perguntado se estava bem, disparou: “Estou doente há um mês, sinto fraqueza, tenho dor de cabeça e estou com uma tosse lascada”. No dia, 24, depois de esperar pelo retorno, vestiu um jaleco especial e máscara doados pela equipe do Ciopaer e embarcou na aeronave.
Segundo narra o coronel Sergio da Silva Albuquerque, do Corpo de Bombeiros Militar do Acre – e na condição de comandante da aeronave no dia – a humildade do morador o impressionou.
“Quando o chamei para embarcar, ele perguntou quanto era e também como que ele iria pagar a corrida”, lembra o aeronauta. “Então, eu respondi-lhe: ‘Não se preocupe, o governador Gladson Cameli já pagou tudo (risos)’. Coisa de homem simples mesmo, muito humilde o senhor”.
Segundo o comandante, na decolagem, ele resolveu fechar os olhos e se agarrou no banco. “Eu perguntei se ele não queria ver a terra dele lá de cima, mas ele continuou de olhos fechados até mais tarde relaxar um pouco mais”.

Coragem para cortar a selva por três dias a pé
O igarapé que passa à frente da propriedade de Gildo Conceição não é navegável. Além de ser muito raso para navegação, é permeado de troncos de árvores no leito que impedem a chegada por água.
Desde que passou a morar na região, uma vez no ano o homem da floresta vai à cidade de Tarauacá para comprar insumos como querosene de lamparina, alimentos embutidos e utensílios domésticos, numa viagem que leva três dias por varadouros até a margem da BR-364.
Ao longo do trajeto, quando anoitece, Gildo dorme em choupanas já desabitadas há muito tempo, ou em ‘pontos de esperas’ muito usados por caçadores para aguardar a passagem de um animal a ser abatido.
Os varadouros são trilhas abertas ainda na década de 1940 pelos seringueiros na extração do látex, mas o detalhe é que hoje eles já são praticamente inexistentes porque foram fechados naturalmente pela mata, que é densa e quase impenetrável para quem não a conhece. Felizmente, esse não é o caso de Conceição.
De acordo com os fiscais da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, que descobriram o eremita, se ele fizesse em linha reta o percurso desde a sua a casa até o km 40 da BR-364, para Tarauacá, seriam exatamente 27 quilômetros de caminhada.
“Mas não é. Por questões geográficas e dos varadouros sinuosos, estimamos que uma missão para ir e voltar caminhando pela mata levaríamos uma semana, o que ele faz em três dias”, ressalta o engenheiro da Sema, Victor Lima.
A sede da Unidade de Gestão Ambiental Integrada do Rio Acuraua (Ugai), onde se concentram os técnicos da Sema responsáveis pelo controle da região, fica no km 40 no eixo da BR-364, para Tarauacá. O que faz Gildo Conceição, depois de caminhar por três dias na selva densa, é pegar um veículo freteiro às margens do km 40 e seguir para a cidade. Depois da compra uma vez no ano, ele faz o caminho inverso, embrenhando-se na mata.
Sua casa de madeira de Paxiúba – palmeira muito usada por seringueiros para construir suas moradias por ser de fácil manejo e ter em abundância na Amazônia -, foi construída no meio da vastidão verde do Gregório, uma das três reservas estaduais de proteção ambiental, no Vale do Juruá, localizada em linha reta a 27 quilômetros das margens do km 40 da BR-364 (no sentido de Tarauacá), onde está a Ugai Acuraua.

Quem é Gildo Conceição
Nascido no município de Tarauacá (AC), no dia de 30 de setembro de 1967, ele mora no antigo Seringal Bacuri, na colocação Boa Hora. Chegou por lá quando ainda tinha 33 anos. Nunca teve esposa, nem filhos e sempre morou sozinho.
Isolado em meio à selva amazônica, o eremita diz que se alimenta basicamente do que planta: arroz, feijão e macaxeira, e de peixes e da carne de animais silvestres. “Mas do que gosto mais mesmo é de peixes”, diz. Por morar sozinho, Gildo não sabe exatamente os dias da semana, mas consegue contar os meses. (Colaborou Dayana Soares)


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