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domingo, 9 de agosto de 2026
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A história de Dani, a mecânica que enfrenta o patriarcado acreano para mostrar seu sonho


ELIS CAETANO


O jornal Opinião tem a honra de contar a história de uma mulher forte e determinada, que tem feito história por sua resistência e excentricidade. Daniela Maria Lima dos Santos, 42 anos, uma nordestina de São Luiz do Maranhão, que mora no Acre há 25 anos.


Passar por obstáculos numa sociedade tão patriarcal é extremamente difícil quando se é mulher, imagina quando se é mecânica mulher. A história peculiar da Dani Pit Stop começou quando ela sentiu a necessidade de criar um espaço que atendesse e bem servisse as mulheres dentro das oficinas, após se sentir desconfortável e constrangida ao ter que consertar seu carro, que era algo recorrente.


“Ficavam com aquele olhar estranho, que é uma coisa que eu renego. Tenho funcionários homens, mas é uma coisa que eu bato muito em cima, jamais olhar de qualquer maneira para o cliente. Isso é uma coisa que eu abomino, porque era uma algo que me constrangia muito. Respeito em primeiro lugar!”, disse.


Dentro de todo esse sentimento de querer mudança e fazê-la, foi que em 2012 deu início ao seu primeiro curso de mecânica no SENAI. Dentro de uma sala com 35 homens ela era a única mulher e teve que enfrentar muita exclusão, por isso se dedicava em dobro para poder debater de igual para igual, o que consequentemente, lhe proporcionou confiança.


Outro detalhe nessa história é que Dani tinha acabado de ter um filho. “Aí eu já sintia a diferença, por você ser mulher cada vez mais dentro do campo profissional você tem que mostrar mais, você tem que estudar mais, você tem que ser ‘over’ o tempo inteiro pra poder provar para a sociedade, principalmente masculina, que você tem capacidade e foi o que aconteceu. Estudava horas e horas de madrugada, como eu estava de licença maternidade eu tinha tempo para estudar e cuidar do neném”, disse ela ao pontuar ainda que foram nessas noites de estudo que surgiu a ideia de ter uma oficina direcionada ao público feminino. “Escrevia tudo em um caderninho, tudo o que gostaria de ter em uma oficina”.


Após um ano de curso ela conseguiu um estágio com muito custo, – ninguém queria dar oportunidade a uma mulher. A força de uma mulher se constrói com a ajuda de outras e nessa história não podia faltar. Dani frisa que contou com a ajuda da mãe e irmãs, pois a princípio o marido não foi a favor, tiveram muitos problemas, não queria que ela seguisse essa área.


“Por que você não monta um salão de beleza ao invés de uma oficina mecânica? Tu só vai mexer com homem. Aquela coisa já do medo, de achar que eu no meio de homens não daria certo. E eu bati o pé, disse que eu queria era isso, esse projeto, essa ideia, esse sonho de montar algo diferente, focado para a mulher”, conta Dani.


Mesmo com muita objeção do marido ela não desistiu, e foi com o apoio das mulheres da família que ela se fortaleceu. O primeiro mês no seu primeiro ponto foi horrível, relatou que muitos homens chegavam e discriminavam de todas as formas quando viam que tinham uma mulher mecânica.


“Muitas vezes eu quis desistir, porque realmente tem que ser coisa de louco, você querer realmente, você ter um foco, ter uma determinaçãode dizer eu quero isso, eu vou passar por cima de tudo. E quantas vezes eu entrava para o banheiro da oficina e ia chorar. No início eu chorava demais, desesperada. E pensava: ninguém vai acreditar no meu serviço, o que eu faço?”.


E acrescentou: “e aí graças a Deus e minha mãe, que me deu muita força, as coisas foram entrando nos eixos. As palavras da minha mãe foram essenciais. Ela sempre me dizia: ‘calma, menina! Tu acabou de montar um ponto, como é que tu quer que esteja cheio de clientes, Daniela? Tu é mulher! Tu não escolheu ser mecânica? Tu escolheu ser uma coisa totalmente deferente do que é o padrão da sociedade.’ E isso me fortalecia”.


Dani também comentou sobre a dificuldade dos clientes em confiar nas próprias mulheres na execução do serviço. “Algumas mulheres ainda vão mais pelo lado do homem. Por conta da questão cultural. A gente ainda enfrenta muito preconceito, tanto de homem, como de mulheres.”


Para atrair clientes, Dani começou a fazer trocar de óleo gratuito, apenas para mostrar o quão boa era na execução do trabalho. Os primeiros meses foi sem receber salário algum, apenas para custear os materiais e gerar lucro interno.


Hoje o Pit Stop Dani Oficina Mecânica de Mulheres chega a ter em média 250 clientes mensais, sendo 70% desse público feminino. Ela também oferece cursos de mecânica para expandir o mercado e formar mulheres para trabalharem juntas. “Hoje todos os meus funcionários são homens, mas todos trabalham sobre a minha supervisão. Nenhum dá diagnóstico diretamente para o cliente, tem que passar por mim, justamente para ter esse cuidado, esse zelo de não condenar o que não tem necessidade”, finalizou.