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José Augusto Fontes: uma conversa com o juiz, memorialista e poeta que deu um drible na Covid

O juiz escritor José Augusto Fontes exibe exemplares do seu livro de poesias. Foto/Arquivo pessoal

Nascido em Rio Branco, no dia 28 de abril de 1961, o juiz de direito, memorialista e poeta José Augusto Cunha Fontes da Silva é um dos milhões de brasileiros que contraíram a forma grave da Covid-19. A doença evoluiu de forma muito rápida e ele precisou se deslocar de Rio Branco para São Paulo entubado. Na capital paulista foram 77 dias de internação, onde além de lutar contra o vírus ele teve que se submeter a outras cirurgias. Agora, já em plena recuperação, ele me recebeu para uma conversa sobre fatos da vida toda. Os principais trechos dessa conversa é que vão transcritos abaixo.

O juiz escritor José Augusto Fontes exibe exemplares do seu livro de poesias. Foto/Arquivo pessoal
O juiz escritor José Augusto Fontes exibe exemplares do seu livro de poesias. Foto/Arquivo pessoal

1. Fale da sua infância e adolescência.

José Augusto – Nasci em Rio Branco na maternidade Bárbara Heliodora e fui criado na casa de meu avô paterno, Lauro Fontes da Silva. Cresci no centro da cidade, perto do antigo cine Acre, nas proximidades da pracinha do Quartel e da antiga Escola Normal Lourenço Filho, que passou a ser o Ceseme, onde cursei o ensino médio e ali também, anos depois, fui professor de Literatura Brasileira, por curto tempo. Antes estive no jardim de infância no colégio São José e no ensino fundamental nos colégios Eurico Dutra (extinto) e Acreano. Costumava ir ao Stadium José de Melo, desde muito novo. Boatecas no clube Rio Branco. Missa na catedral Nossa Senhora de Nazaré. Passeios frequentes na pracinha. Algumas vezes acompanhava meu avô para suas lojas no bairro Estação Experimental e na rua Epaminondas Jácome. Joguei futebol algumas vezes na quadra do Ceseme e até no José de Melo (infantil), mas não era bom de bola. Gostava de gibis e nos tempos dos cines Acre e Rio Branco, os meninos colecionavam revistas e as trocavam na frente dos cines. Gostava de estudar e ainda adolescente consegui aprovação para ser menor aprendiz no banco da Amazônia.

José Augusto Fontes aos 5 anos. Foto/Arquivo pessoal
José Augusto Fontes aos 5 anos. Foto/Arquivo pessoal

2. Fale da sua trajetória profissional (professor, defensor público, juiz).

José Augusto – Fui professor de Literatura Brasileira durante três anos e meio, no Ceseme/Cerb, mas saí depois de ser aprovado em concurso para defensor público, tendo assumido este cargo em 1991, após longa espera para nomeação. Antes fui menor aprendiz no Banco da Amazônia, durante pouco mais de um ano. Em seguida fui servidor público do estado do Acre, na antiga secretaria de Interior e Justiça. Por fim, fui aprovado em concurso público para a magistratura, onde ingressei em 1996, tendo atuado inicialmente na comarca de Xapuri. Vim para a capital em 1998. Atuei em várias comarcas do interior, inclusive, em função eleitoral. Em Rio Branco atuei em muitas unidades, em diversas zonas eleitorais, no TRE/AC e nas duas Turmas Recursais dos Juizados Especiais, tendo presidido ambas. Sou juiz de direito titular do Primeiro Juizado Especial Criminal de Rio Branco desde seu nascimento, sendo até hoje seu único juiz titular.

3. Como se dá o processo de julgamento e qual o caso mais complicado que já passou pelas suas mãos?

José Augusto – Desde os primeiros meses na magistratura me interessei pelos Juizados Especiais Criminais, nos quais os julgamentos são mais simples, havendo direcionamento para composições civis e transações penais, que são institutos criados para se valorizar soluções pactuadas e se evitar penas prisionais, nos casos de menor potencial ofensivo. Em varas comuns, em Xapuri, na vara criminal, me deparei com um caso complicado, por fato ocorrido em seringal de difícil acesso. O fato era de estupro de pai contra filhas. Comento brevemente pois faz muitos anos, já houve trânsito em julgado e execução penal. O momento mais difícil foi quando a mãe/esposa afirmou em seu depoimento que precisava do marido e que não se importava muito com as filhas. As meninas eram adolescentes. Foi uma das maiores sanções criminais que apliquei.

4. O que é ser juiz (as angústias, as alegrias etc.)?

José Augusto – É uma atividade gratificante, ainda mais quando conseguimos solucionar satisfatoriamente as lides e pacificar as pessoas. Essa motivação me fez optar por Juizados Especiais, porque as composições e transações existentes em seus ritos processuais trazem respostas mais céleres e menos incisivas. Dar um resultado mais rápidos às expectativas é o ponto alto dos Juizados Especiais.

5. Fale da sua família (pai, mãe, filhos etc.).

José Augusto – Sou filho de pessoas simples. Meu pai era comerciante, incluindo ser regatão nos rios da região do Purus. Minha mãe é professora aposentada. Sou filho único, pois me pai faleceu muito novo, menos de dois anos após meu nascimento. Minha mãe foi guerreira, chegou a trabalhar em três turnos. Quando eu tinha de 10 para 11 anos de idade, passamos a morar só eu e minha mãe. Antes moramos na casa do meu avô paterno. Ele e minha mãe são as pessoas a quem devo tudo. Depois de adulto tive dois filhos da primeira união (Derek e Laura) e dois filhos mais novos (Gabriela e Russel) com minha esposa Jeane.

6. Fale da sua paixão pelo futebol e pelo dominó. O que significa ser Vasco e estar na segunda divisão?

José Augusto – O dominó é um jogo que mistura sorte e bom raciocínio. No jogo de duplas é necessário ter bom entrosamento. É um excelente hobby. Ultimamente não venho jogando, mas já estive em mesas com os melhores, como Delmiro Xavier, José Ribamar, Amilton Brito, Zezé Gouveia, Moizaniel, Bina e Eliésio Mansour, meu parceiro. Também a turma de Xapuri e tantos outros, dentre eles, meu compadre Cangula. Uma hora dessas eu volto às bancas. Minha paixão pelo futebol é antiga e vem desde os tempos do velho Stadium. Ali em vi jogadas sensacionais do Dadão, o maior de todos os tempos. Vi times excelentes, principalmente do Rio Branco e do Juventus, o meu preferido. Em âmbito nacional, torci muito pelo Vasco, inclusive, no Maracanã. Foi um time empolgante, em vários momentos. O time que disputou o mundial e os times do Vasco que venceram os quatro brasileiros eram muito bons. O time do primeiro campeonato Sul-Americano (invicto) era sensacional, pelo que eu soube. Também o da Libertadores. Mas houve um declínio grande. As quedas para a Segunda Divisão e a manutenção nela em 2021 demonstram que o Vasco foi descuidado.

7. Fale dos seus amigos mais diletos. Por que você os escolheu para privar do seu círculo mais íntimo?

José Augusto – Há muitos amigos queridos. Para citar apenas dois, cito meu primo/irmão Paulo Barquete e você, meu amigo/compadre Francisco Dandão. Esses são da batida do coração e estão presentes na minha vida há muitas décadas.

8. Fale da sua vocação literária (quando começou e o processo de amadurecimento). Existe algum escritor que você admira a ponto de tentar escrever de forma semelhante ou é tudo intuitivo?

José Augusto – Já fui um leitor voraz. Hoje leio pouco, acho que estou mais ligado nos filmes, mas isso muda com o tempo, qualquer hora volto aos livros. Das leituras surgiu a vontade de escrever. O processo é muito intuitivo. Quando menos se espera, surge uma ideia. Cursei Letras e nas aulas tive contato com várias obras interessantes. Um autor que destaco é Guimarães Rosa, por sua originalidade, pelos temas e personagens simples, abordados com maestria, e pela criatividade desse escritor.

9. Conte sobre o viés memorialístico e regionalista presentes em boa parte dos seus textos.

José Augusto – Realmente, eu me importo muito com a minha terra, com a minha aldeia, com o meu povo. E com a simplicidade das pessoas e dos locais. A regionalidade vem da vivência nesse contexto amazônico, rico, diverso e apaixonante. Gosto dos personagens das ruas, dos escondidos, da gente sem voz. Mas na poesia não há limites. Vem de sentimentos que não têm divisas e que saem pelas palavras mundo afora.

10. Fale da experiência de quase morte, por conta da Covid 19.

José Augusto – A morte é inevitável, mas enquanto for possível adiar, é bom persistir. O vírus é terrível e covarde. Em mim agiu rápido, dos primeiros sintomas para a situação grave. Tive que ser levado para São Paulo, já entubado. Lá me livrei do vírus em um mês, mas ficaram sequelas e mantive internação por 77 dias. No hospital tive que me submeter a uma cirurgia no intestino e lá também adquiri um fungo hospitalar na perna esquerda, o qual deu muito trabalho para ser eliminado. Foram várias cirurgias. Mas agora estou em recuperação. Agradeço à família e aos amigos pelas orações.

11. Por último, eu gostaria que você fizesse um balanço da sua vida e falasse sobre as suas perspectivas para o futuro.

José Augusto – A vida tem me dado muitas alegrias. Os filhos, principalmente. Minha mãe Clair e minha companheira Jeane são minhas guardiãs. Tive bons estudos, muitas alegrias na vida pessoal e familiar. Valorosas conquistas profissionais. Pretendo me aposentar, viajar muito e estar mais presente com a família e com os amigos. Já são 43 anos de serviço público, mais ou menos. Depois de ficar semanas em UTIs a gente volta mais seletivo, priorizando o que realmente importa e quem realmente importa. Tempo livre é uma das principais prioridades. Quando eu era criança meu avô me chamava de Sacana Branco, acho que porque eu fugia das vistas dele, de vez em quando, e ele ia perguntar por mim aos barbeiros que trabalhavam ali pertinho de casa, na avenida Getúlio Vargas. Acho que o tempo deve ser cortado em etapas, talvez, com navalhas afiadas, semelhantes às dos barbeiros. O tempo é farsante. Parece que o rio da minha vida está no mesmo lugar e finge permanecer igual, embora as águas sejam outras. Parece que ainda vejo uma pipa correndo no céu, enquanto meu cabelo voava no semblante do sol.