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sábado, 27 de junho de 2026
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O pincel invisível e o sono dos justos

Há mais de vinte anos, minha profissão me obriga a assinar relatórios, lavrar autos de prisão e tipificar condutas humanas em artigos do Código Penal. Mas o que os códigos não explicam – e nenhuma faculdade de Direito é capaz de ensinar – é a engenharia invisível do autorretrato humano. No balcão de uma delegacia, descobri que a maior força do homem não é o instinto de sobrevivência física, mas a sua capacidade quase milagrosa de editar a própria biografia para conseguir dormir o sono dos justos.

Raras são as pessoas que entram na minha sala se enxergando como vilão da história. O ser humano tem uma necessidade quase biológica de ser o herói, ou pelo menos a vítima injustiçada, do seu próprio enredo.

Lembro-me, com especial nitidez, de um dentista que interroguei há algum tempo. Um homem de fala mansa, postura altiva, visivelmente um “homem de bem”. Era casado, religioso, daqueles que exibem com orgulho a foto da família na carteira e desfrutam de indiscutível prestígio social. Sentado na cadeira reservada ao indiciado, ele respondia pelo crime de concussão. Havia exigido de um paciente humilde a quantia de trezentos reais para realizar um procedimento de urgência no serviço público – um atendimento pelo qual o Estado já o remunerava.

O que mais me impressionou não foi o ato em si, mas o olhar daquele homem. Não havia o cinismo calculista dos criminosos de carreira, nem o tremor do flagrante. Havia uma genuína, quase pueril, convicção de inocência. A questão ali não era o valor, pois a gravidade conceitual independe da cifra; o espantoso era que, para ele, extorqui trezentos reais à beira do leito não era crime. Era apenas um ato trivial, uma “ajuda de custo”. Ele não conseguia enxergar o monstro da corrupção no espelho porque sua mente havia operado o próprio caráter, extirpando a culpa antes que ela inflamasse. Ele precisava daquela mentira para continuar sendo o pilar da sua igreja e o orgulho dos seus filhos.

Diante dele, com a caneta na mão para assinar o indiciamento, fui assaltado por um incômodo dostoievskiano. Percebi que aquela ilusão não era exclusividade dele. Ela opera no político, no Juiz, no empresário e, inevitavelmente, no próprio delegado.

Todos nós carregamos um pincel invisível para retocar nossa imagem. Para suportar o peso da miséria humana que testemunho, para tolerar as minhas próprias omissões cotidianas ou o tom ríspido que usei por cansaço, eu também aplico filtros na minha realidade. Nós nos vitimizamos, culpamos o mundo pelos nossos tropeços e criamos um tribunal interno onde somos, simultaneamente, o investigado absolutório e o juiz complacente. Essa cegueira egoísta nos afasta e nos tranca em nossos próprios personagens.

A verdadeira virada de chave, contudo, é o avanço civilizatório que nasce dessa constatação. O salto humano ocorre quando nos conscientizamos de que somos os próprios construtores desse verniz, dessa máscara. Quando percebemos a mentira que contamos a nós mesmo, ganhamos a chance real de mudar, de melhorar e de descer do pedestal do orgulho.

É aí que nos aproximamos do “Homem Ridículo” de Dostoiévski. Ao despertar para própria nudez moral, deixamos de nos revoltar com o erro alheio. Em tempos de tanta polarização, fúria e agressividade gratuita, onde todos se julgam santos linchando pecadores, a consciência das nossas próprias falhas nos traz um superpoder esquecido: a compaixão.

Ao fim do dia, quando as luzes da delegacia se apagam e o silêncio da noite se impõe, o mecanismo do travesseiro já não deveria servir para camuflar nossos erros. Quem alcança a lucidez de sua própria pequenez não sente raiva do homem no interrogatório. Sente uma profunda e quase estoica melancolia. Uma pena sincera por quem, do outro lado da mesa, comete o pior dos crimes: o de ainda não saber quão ridículo e frágil todos nós somos.

Emylson Farias
Delegado de Polícia.