REPÓRTER OPINIÃO
Médicos do Hospital de Campanha do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Acre (Into-AC) relataram momentos de tensão ao terem que usar reanimadores manuais nos pacientes da Unidade de Terapia Intensiva, a UTI, após a concessionária de energia que administra a distribuição da eletricidade no Estado cortar o funcionamento de energia elétrica deliberadamente na manhã de quinta-feira, 18. O incidente, que quase custou a vida de pelo menos três pacientes em estado grave, só foi revelado na sexta-feira, 19.
Logo após o momento da suspensão da energia, houve correria por parte dos profissionais médicos e enfermeiros para estabilizar os pacientes. “O que vimos foi um monte de colegas correndo para estabilizar as pessoas. Os alarmes sonoros das máquinas que sustentam os pacientes soaram todos de uma vez”, narrou uma técnica de enfermagem da unidade ouvida pelo OPINIÃO.
Até quinta-feira, pelo menos 49 pacientes estavam internados na UTI do Into-AC, sendo que três deles tiveram que ser ‘ambuzados’, como é conhecido no jargão médico o ato de fazer a ventilação manual dos internados, para que continuem sobrevivendo, ao receberem oxigênio.
Às 7h35 desta quinta, em um grupo de WhatsApp de profissionais do Into, um médico dispara:

– Precisando urgente de ajuda!!!
– O que foi? – um dos diretores pergunta
– Queda de energia. Oxigênio acabou aqui. Tá um caos
– O gerador não entrou? – prossegue o diretor
– Não sei, dr. Nas UTIs estão ambuzando alguns já
– Indo ajudar – afirma um médico de folga
A gerente-geral do Into-AC, Lorena Seguel, confirma “que houve necessidade de alguns ajustes para dois ou três pacientes”. Segundo ela, após uma queda de energia, o gerador próprio do Into-AC leva 5 segundos para entrar em funcionamento e mantém a corrente elétrica que vai alimentar os equipamentos médico-hospitalares por até cinco horas.
“Nosso técnico do oxigênio, que foi avisado quando dirigia seu veículo, foi imediatamente para o hospital, verificou e ajustou a pressão [do oxigênio] e duas horas depois tudo voltou ao normal”, informou Seguel.
Ela afirma que existe um grande nobreak [acumulador de energia] para cada leito de UTI. “Ele alimenta ventiladores, bombas e monitores”. “Foi tudo uma questão de segundos, mas houve necessidade de alguns ajustes para dois ou três pacientes”.

Os reanimadores manuais, que tiveram de ser usados pelos profissionais, também é chamado de ressuscitador manual. No país, é mais conhecido como Ambu, que vem da sigla em inglês para ‘unidade manual de respiração artificial’, e também o nome da empresa que o fabrica. Daí o médico usar o termo ‘ambuzar’ os pacientes.
O Into-AC é referência na capital acreana, no atendimento a pacientes acometidos pela Covid-19. De acordo com o boletim da Sesacre, até esta quinta, a unidade tinha pelo menos 142 pacientes, sendo 49 nas UTIs e 93 nos leitos clínicos.

Corte de energia ocorreu após homem ameaçar se jogar de poste de uma torre
De acordo com a concessionária de energia que administra a distribuição da eletricidade no Estado, em nota à imprensa, disse que das 07h15 até às 8h20, os municípios de Acrelândia, Plácido de Castro, Vila Campinas, Senador Guiomard e parte de Rio Branco tiveram o fornecimento de energia elétrica interrompido, devido à solicitação emergencial do Corpo de Bombeiros para realizar o resgate de uma pessoa que subiu em uma torre de transmissão de energia, que atende duas subestações da Capital e estava com alto risco de morte.
Tratava-se do venezuelano Eduardo Rafael Rodrigues Farias, de 32 anos, que subiu em uma das torre do linhão de energia elétrica da Estação Taquari, que fica localizado na Via Verde, próximo à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Segundo Distrito, de Rio Branco. Ele ameaçava se jogar de uma torre de alta tensão, que possuí aproximadamente 69.000 volts.
O rapaz foi resgatado e encaminhado à UPA do Segundo Distrito, por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), onde passou por avaliação médica.

Corte de energia foi em duas subestações e atingiu mais de 108 mil consumidores
A reportagem apurou que pelo menos 108.115 consumidores foram atingidos pelo corte de energia.
Um agente da empresa postou um vídeo e uma fotografia em que o indivíduo aparece no topo da torre de alta tensão, após tê-la escalado, localizada próxima da Rodoviária Internacional e da UPA do Segundo Distrito, na Via Verde.
Na mesma postagem, ele confirma o número de unidades consumidoras desligadas por conta de duas subestações que tiveram de ser inativadas para evitar que o homem fosse eletrocutado.
“Tivemos que desligar a subestação que fica em frente da UPA do Segundo Distrito e que fica aos fundos da faculdade FAAO [na estrada Dias Martins]”, afirma o profissional.

Concessionária de energia e Sesacre se reúnem para tratar sobre o apagão
No final da manhã de sexta-feira, 19, diretores da concessionária de energia estiveram reunidos com Alysson Bestene, titular da Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre), no seu gabinete. Mas o teor da conversa entre o secretário e os representantes da Energisa não foi divulgado.
Em 2020, na noite do dia 21 de maio, uma pane no sistema, causada por um animal que atingiu a linha de transmissão, também interrompeu o fornecimento de energia elétrica para o Into-AC, onde até então funcionavam apenas 24 leitos de UTI para pacientes com Covid-19. Na ocasião, o incidente custou a vida de uma mulher internada, que já estava bastante debilitada.
O OPINIÃO entrou em contato com a assessoria de Comunicação da concessionária de energia buscando mais informações sobre o protocolo a ser usado quando a falta de energia afeta unidades de Saúde. Questionamos sobre a importância de avisar os hospitais, porém, não obtivemos nenhuma resposta.


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