ABIGAIL SUNAMITA
Após uma viagem rápida de dez quilômetros de chão pela estrada da Transacreana chegamos até o sítio de Maria Zenaide de Souza Carvalho, de 63 anos. A profissão dela? Parteira.
A Arte de partejar. É assim que dona Zenaide se refere ao que faz, e com muito amor, diga-se de passagem. A parteira Zenaide é uma mulher cheia de vida, alegria e dona de uma risada revigorante. Ela mora em sítio com uma arquitetura antiga e bem saudosista, com muitos moveis rústicos e canteiros cheios de plantas e flores. Com um delicioso café feito de modo tradicional (leia-se coado), ela nos recebeu e contou um pouco de sua história de vida.
Atualmente, com 63 anos, Zenaide, – que sempre morou em zona rural de difícil acesso, em Tarauacá -, veio morar na capital acreana com sua tia ao nove anos de idade. A intensão era estudar para aprender a escrever.
Ainda nessa idade aprendeu a realizar partos com a tia. Segundo ela, a arte de partejar era uma tradição que passava de mãe para filha. Em sua família começou com sua bisavó, depois sua avó, mãe e assim sucessivamente.
Dona Maria Zenaide conta que até o presente momento já realizou 399 procedimentos, sendo a maioria em seringais e locais de difícil acesso, e pretende que esse número continue aumentando, pois sua paixão é poder trazer a vida ao mundo.
Ela diz: “o meu primeiro parto foi uma experiência muito temerosa, pois fiquei muito nervosa. No seringal onde vivíamos só tinha uma parteira e ela estava com a minha mãe, que também estava grávida. Então, fui ajudar minha tia, que ficou de um lado do igarapé e minha mãe ficou do outro.
Minha tia que foi me ensinando como pegava o menino e como cortar o “cordão do imbigo” era assim que chamávamos. Na época existiam muitos tabus, principalmente, para mim que era uma criança. Não tinha noção de como criança saía e nem como era o procedimento do parto, quando eu vi achei uma coisa muito maravilhosa.”
As mulheres e os bebês nos anos 60 morriam muito durante o processo do parto justamente pela falta de informação.
Dona Zenaide diz que quando ia realizar os partos, antes de dar início ao procedimento, ela rezava a oração Salve Rainha. Se em algum momento errasse trecho da oração, não realizava o parto, pois sabia que não tinha choro nem vela, a mãe e o bebê iria morrer.
Ela conta ainda que seu aprendizado para ser parteira era tudo muito tradicional. “Era ali na vivência do dia a dia não tinha nada científico tudo era aprendido na marra”, disse.
Enfrentando o machismo
O machismo naquela época era muito mais comum e “normal”. Dona Zenaide diz que os homens não se preocupavam muito com o parto. O normal era deixar as esposas sozinhas no momento do nascimento do bebê. Foi aí que ela aprendeu e entendeu que era primordial a ajuda do parceiro naquele momento de dor. “Nos nossos dias percebo que houve uma mudança, pois os homens hoje acompanham suas mulheres ajudam sem reclamar. Isso é ótimo”.
Aos 26 anos de idade, dona Zenaide teve a oportunidade de se especializar. Em Pernambuco, ela fez um curso para parteiras e também um curso técnico de enfermagem, que facilitou o seu trabalho, principalmente, nos seringais. Ao apresentar sua carteira profissional, na qual comprovava suas especialidades, acabou ganhando respeito e credibilidade juntos aos moradores dos seringais. Então, além de fazer partos, também cuidava da saúde da população que vivia em condições precárias.
Uma data importante
“Nesse dia oito de março, que é comemorado o Dia Internacional da Mulher, quero dizer que estamos de parabéns. Éramos reprimidas, não podíamos sair, e nem cumprimentar as pessoas na rua. Não tínhamos nosso dinheiro. Conquistamos muito ao longo dos últimos anos”, disse dona Zenaide.
E acrescentou: “Nós, mulheres, precisamos cuidar de nós e de outras pessoas, pois, hoje em dia, temos muitos direitos. Podemos ter o que quisermos, podemos trabalhar e estudar, porém ainda existe muita desigualdade, mas em algum momento tudo vai melhorar para nós, porque estamos nessa luta e vamos continuar nela.
A principal conscientização no Dia da Mulher, segundo a parteira, é educar os filhos a respeitarem o próximo, em especial, as mulheres. “Nós, mães, precisamos educar nossos filhos da melhor maneira possível. Ensinando-os o valor do respeito. Devemos orientar os meninos a respeitarem as mulheres e seus direitos, pois muitas vezes as mães que passam uma ideia machista pelo fato de ser algo cultural. É algo que acontece no inconsciente. Criam os seus de forma errada. Também devemos ensinar as garotas a não aceitarem abusos e nem a serem reprimidas pelos homens. A sempre se impor diante de situações desagradáveis”.
Por conta de violência doméstica, Zenaide acabou ficando cega do olho esquerdo. Ela contou a reportagem que por conta dessa deficiência, durante muito tempo sofreu discriminação, em especial, na profissão. “Tem gente que tem muito preconceito para me contratar por achar que sou incapaz de realizar os procedimentos médicos. Afirmo que não atrapalha em absolutamente nada o meu trabalho”.

Falando em direitos, dona Zenaide contou ainda um pouco sobre a falta de valorização no seu trabalho. De acordo com ela, muitas vezes professores das Universidades vão até a sua casa, juntamente com os alunos, pedir informações sobre os procedimentos.
Um de seus maiores sonhos é realizar palestras ou até mesmo cursos sobre o assunto. “Gostaria de abordar sobre o planejamento familiar, parto natural e outros temas”.
Por fim, a nossa parteira empoderada desejou que as mulheres continuem avançando e conquistando muitas coisas novas. “Nesse Dia da Mulher só tenho a dizer para todas as mulheres que são mães, avós, filhas, esposas, indígenas, negras, – e todas as mulheres que vivem nesse Acre -, que continuemos nessa luta, não soltando a mão de ninguém e lutando cada dia mais por espaço, que não é somente na cozinha, é em qualquer lugar que nós quisermos estar”.


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