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terça-feira, 21 de julho de 2026
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Psicóloga fala sobre ‘Campanha Criança Não Namora’ e comenta sobre antecipar etapa

Psicóloga fala sobre ‘Campanha Criança Não Namora’ e comenta sobre antecipar etapa

Uma campanha realizada pela Secretaria de Assistência Social do Amazonas tem sido compartilhada por pais e mães na internet e causado debates em grupos nas redes sociais. A reportagem Opinião conversou com a psicóloga especialista em cognitivo comportamental e neuropsicóloga, Jorgenilce Alves, sobre o assunto e a profissional alertou pais e responsáveis sobre os cuidados que devem ser tomados com esse tema.

Para a psicóloga, a sexualidade faz parte da vida da criança desde que ela é concebida, pois os pais já pensam numa relação de gênero e gênero tem uma questão com a sexualidade. E ela [a criança] vai lidar com isso desde o nascimento.

“Quando se fala em namoro já usamos uma expressão que é mais do mundo adulto. Devemos nos preocupar com a sexualidade da criança e lidar com ela de acordo com cada etapa de desenvolvimento. De zero a três anos a criança lida com a sexualidade de um jeito, de seis a dez anos ela já começa a ter uma noção do que é ser menina ou menino, pois começa a conhecer o corpo de outro jeito. As maneiras de como ela ver a sexualidade vai mudando conforme a idade”, explica Jorgenilce.

Alves relata, ainda, que as crianças aprendem por observação e os pais ou seus responsáveis serão seu exemplo.

“Uma coisa é uma criança beijar outra porque ver seus pais se beijando, outra é ter acesso muito cedo a esse conteúdo, que vamos chamar de erótico do mundo adulto, onde as meninas começam a querer se vestir como mulheres e os meninos se comportarem como homens até mesmo incentivado pelo pai que diz ‘ah, meu filho é homem, é garanhão’. Isso na cabeça das crianças não faz o maior sentido”, afirma.

De acordo com a psicóloga, a princípio as crianças não veem de forma maliciosa. Porém se comportar e ter contato com o corpo de um jeito que não é o esperado para a idade vai fazer com que outras pessoas a tratem de outro modo. Fazendo assim, uma entrada no mundo erótico do adulto que não tem haver com a criança.

“A preocupação da campanha é com essas crianças que não tem um controle e são submetidas a estímulos, principalmente, através da mídia, que trás coisas boas e também ruins. Quando não há um controle e acompanhamento dos pais, elas irão imitar comportamentos sexuais e até agressivos”, diz a especialista.

Ela relata, ainda, que pode até parecer radical e surgir o questionamento: “o que tem demais a criança falar de namoro?”, mas devemos separar. E que as respostas as perguntas curiosas da criança devem ser dadas de acordo com a capacidade cognitiva que ela tem de interpretação.

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Para a especialista, é preciso respeitar cada fase da criança. Ela  frisa que a antecipação não é salutar

Acesso às tecnologias muito cedo

De acordo com a psicóloga, a criança está tendo acesso muito cedo a conteúdos que ela não dá conta e isso vai repercutir na formação da identidade dela. Isso pode fazer com que ela tenha contato com o sexo muito cedo, sem saber o que isso significa, podendo confundir amor com sexo. Além de uma gravidez precoce, doença sexualmente transmissível e comportamento inapropriado com o próprio corpo.

Para Jorgenilce, a campanha é valida e por mais que pensem que seja radical é só em pensarem um pouco mais a fundo e perceberão o que isso quer dizer.

“Tem pais que não acham nada demais deixar o filho desde cedo na frente da televisão vendo todo tipo de conteúdo. No entanto, as crianças não sabem lidar com aquilo, elas irão reproduzir sem nenhum senso critico, pois o cérebro não está amadurecido, desenvolvido e eles não têm pensamento abstrato. Os pais servem para facilitar, intermediar e poupar para que eles só tenham acesso a determinados conteúdos de uma maneira inteira quando estiverem preparados para isso”, explica a profissional.

Além disso, a psicóloga alerta que crianças expostas a jogos durante muito tempo podem ter convulsões, principalmente se tiverem algum quadro pré-existente. E que existe uma idade para que elas sejam presenteadas com celulares.

“O Brasil é um dos países em que crianças têm aparelhos com acesso a internet mais cedo. Nos Estados Unidos é com oito, nove anos que é uma idade que se pode pensar nisso e mesmo assim com uma certa restrição, tem que ter um filtro”.

Segundo Alves, educar é um trabalho de período integral, os pais devem impor limites, disciplina e fazer o filho lidar cedo com alguns tipos de angústias. “O filho tem que entender o que é um não, o que compartilhar, dividir, ter responsabilidade. Uma criança que foi privada em casa, independente da situação socioeconômica, de ajudar nos afazeres domésticos, ser responsável pelo quarto ou por arrumar os seus brinquedos, por exemplo, se tornará que tipo de adolescente? Ela não terá noção de responsabilidade”, alerta.

Como falar de sexo com a criança

A família pode conversar sobre sexo deste sempre, de acordo com o que os filhos entendam e possam assimilar, relata a especialista.

“Quando uma criança acima de seis anos diz que está apaixonada, ela entra no que chamamos de estado de latência, as explorações do corpo tendem a parar e ela começa a ter discernimento. Longe da vista dos pais os jogos com os colegas vão aparecer, essa é a hora que acontecer beijo escondido no coleguinha, mas desde que tenham a mesma idade e não tenha essa noção já desvirtuada da entrada na erotização do mundo adulto, faz parte. É um jeito de se relacionarem, estão descobrindo o corpo, os papéis sociais, a questão de gênero. E com um coleguinha da mesma idade não está errado”, explica.

Outro ponto abordado por Jorgenilce é que quando os filhos falam ou fazem perguntas, eles fazem uma interpretação sem tentar saber o motivo do questionamento. E a primeira coisa a ser feita é querer saber o porquê que ele quer saber, o que quer dizer, para poder entender a questão exata e poder dimensionar a situação.

“Quando se vai responder tem que pensar na etapa do desenvolvimento que a criança está e tentar passar a resposta baseada nisso. E tomar cuidado quando for conversar e não descarregar uma porção de coisas que tem haver com conceitos nossos e que nem passou pela cabeça dela”, finaliza a psicóloga.