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terça-feira, 7 de julho de 2026
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Acre registra 29 assassinatos nos primeiros 18 dias do ano


HUGO COSTA E LUAN CÉSAR


A criminalidade não tem dado trégua para os acreanos. E isso pôde ser comprovado mais uma vez na noite do último sábado, 18, ocasião em que sete pessoas executadas em Rio Branco. Os crimes ocorreram na Estrada Transacreana, no quilômetro 100, e no Ramal Bom Jesus, na Vila Acre. A polícia registrou ainda uma tentativa de homicídio, também na Transacreana, no km 58. A vítima foi levada ao Pronto Socorro.

Com as mortes do último sábado, sobe para 29 o número de assassinatos nos primeiros 18 dias de janeiro, sendo a maioria deles na capital acreana.

Esse número torna-se ainda mais assustador quando comparado as mortes violentas em janeiro do ano passado. De acordo com índice nacional de homicídios, que faz parte do Monitor da Violência, em janeiro de 2019, 32 mortes violentas foram registradas.


As execuções do sábado
O primeiro crime de sábado aconteceu no Ramal Bom Jesus na região do bairro Vila Acre, no Segundo Distrito. O jovem Mateus Viera Cardoso, 22 anos, foi executado com dois tiros.


De acordo com a polícia, Mateus e um amigo andavam de bicicleta pelo ramal, quando foram abordados por dois homens em uma motocicleta. O garupa, de posse de uma arma de fogo, efetuou vários tiros contra o jovem. Mateus foi atingido na cabeça e na costa. O amigo da vítima conseguiu fugir.


Após a ação os criminosos fugiram do local. Até o fechamento dessa edição a polícia ainda não havia identificados os assassinos.


As outras seis mortes ocorreram na rodovia AC-90, Estrada Transacreana, no bar “Dos Anjos”, localizado no km 100. As vítimas são: João Vitor Gomes de Oliveira, de 16 anos; Rosalvo Barroso de Freitas, de 21 anos; Leonardo de Lima Maia, 32 anos; Wilson Macedo Brito, de 35 anos; Marcos Lázaro Gomes de Almeida, 35 anos e Moisés Andrade da Silva, de 42 anos.


A tentativa de homicídio ocorreu no km 58 da Transacreana. Um homem identificado como Railson Silva de Souza, foi ferido com três tiros na cabeça.


Segundo a polícia, os criminosos roubaram uma caminhonete Hilux de cor branca na região antes de iniciar as execuções. Após o assalto se dirigiram ao bar “Dos Anjos” e efetuaram vários tiros, matando seis pessoas que na ocasião jogavam sinuca no estabelecimento.

Posteriormente, invadiram uma residência no Km 58, também da Transacreana. Os criminosos renderam Railson que estava com sua família e efetuaram três tiros na cabeça. A casa do rapaz ainda foi atingida por outros 20 disparos.


Railson foi atendido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência e encaminhado ao Pronto Socorro de Rio Branco.


O grupo que realizou as execuções e a tentativa de homicídio pertencem a facção Bonde dos 13.


O coronel da Polícia Militar do Acre (PM-AC) Luciano Dias, em entrevista à site local, disse que o bar onde ocorreram as seis execuções eram frequentado por membros de facção. “Um local onde se encontravam criminosos, tinham uma rotina nesse bar”, disse.


Cúpula da Segurança Pública se reúne
Depois da chacina, uma reunião emergencial foi convocada pelo grupo que compõe a Segurança Pública do Estado. O secretário de Segurança Pública em exercício, coronel Ricardo Brandão, disse que a pasta define estratégias para enfrentar a violência.


“Reunimos a cúpula da Segurança, com parceria do Ministério Público, para ter uma compreensão maior e determinar as ações emergenciais que serão tomadas. Serão ações de cunho ostensivos, investigativos, reforço policial em determinadas áreas e ações internas no aprimoramento de gerenciamento e controle”, frisou.


Ainda segundo Brandão, a Segurança reforçou o policiamento na região do Segundo Distrito da capital acreana e também as equipes de investigação para chegar aos autores dos homicídios. “Tínhamos um registro de mortes concentrado na região do Segundo Distrito e para fazer essa contenção a Polícia Militar tem agido com a presença muito forte na região para debelar essas mortes. A Polícia Civil reforçou a equipe da DHPP para chegar ao autor desses delitos e fomos surpreendidos com essa ocorrência na Transacreana. Preocupados, reunimos todos da Segurança de modo a dar uma pronta resposta sobre o que ocorreu”, garantiu.


Repercussão nacional
A chacina do último sábado, 18, teve repercussão nos sites nacionais. Segundo a reportagem da UOL, além das mortes, fica um alerta para as autoridades, em relação a fragilidades das fronteiras no Estado do Acre. A reportagem diz que na região predominam “quatro facções criminosas presentes e no caminho de uma das principais rotas de entrada de cocaína no Brasil, CV, B13, PCC é IFARRA”.


Com sensação de insegurança, pessoas mudam hábitos em Rio Branco
Com sensação de violência, as pessoas que vivem em Rio Branco mudaram os próprios hábitos na tentativa de garantir a segurança pessoal. Não sair durante a noite e desistência do transporte público são algumas.


Motorista de dois aplicativos de transporte na cidade, Mackson Rocha conta que já deixou de trabalhar até de madrugada devido a sensação de violência. Os profissionais desse ramo são os mais almejados em assaltos. Ao longo de 2019, diversos casos de roubos de carros dos motoristas de aplicativos foram registrados na cidade. Ele conta que já passou por uma situação suspeita quando durante uma madrugada o passageiro alterou a rota para um local com menor circulação de veículos.


Quando questionado o que mais teme no cotidiano do trabalho Rocha responde: “solicitações de chamadas em bairros periféricos ou praças distantes da região central. Essas chamadas são as que mais têm características de trajetos que coloquem em risco o trabalho dos motoristas de app. Quando trabalho à noite, procuro fazer chamadas que aparentemente não tragam riscos. Tento trabalhar ano máximo até às 22h. Após esse horário o perigo fica cada vez mais intenso”, relata.


Ele conta ainda que não trabalha mais até a madrugada, só aceita chamadas após fazer um filtro sobre o local do pedido e histórico do passageiro e pessoas que apresentam comportamento suspeito nas conversas ou início de viagem. “[O trabalho da Segurança Pública] ainda é fraco para a quantidade de efetivo que está nas ruas. Temos várias barreiras policiais espalhadas pela cidade e na maioria das vezes só estão montadas sem que haja nenhuma vistoria aos veículos e condutores”.


Apesar de ver esforço na atuação da Secretaria de Justiça e Segurança Pública, a acadêmica de Psicologia Ketlen Lima de Souza considera que o trabalho ostensivo feito nas últimas semanas nas ruas da capital não surte o efeito esperado porque é mal aplicado na prática. “A força bruta não resolve. Não adianta a Segurança Pública ser ostensiva se nas comunidades crianças, adolescentes e jovens não tiverem espaços de educação e cultura para outra perspectiva de vida”.


Ela afirma que já presenciou e vivenciou diversas situações de violência como assaltos a ônibus, ter tido o celular no bairro em que mora, Adalberto Aragão, e até mesmo já foi sequestrada. “Em fevereiro de 2017, na época dos vários roubos de caminhonetes, fui sequestrada na porta de casa. Namorava um rapaz, tínhamos saído e na volta ele parou a caminhonete em frente à minha residência e ficamos alguns instantes. Pouco depois chegaram três homens em dois carros”, fala.


A estudante relembra que os suspeitos estavam armados e entraram no veículo após apontarem as armas para o casal. “Eles levaram a gente para um ramal na Estrada do Amapá e ficamos por quase duas horas lá. Uma guarnição foi chamada porque os moradores acharam suspeito uma caminhonete estacionada no local e acharam que era um estupro.

Quando eles viram o carro da polícia, correram em direção a uma mata. Foi a pior sensação que tive na vida”, comenta a jovem.


Ketlen afirma que evita andar sozinha durante a noite, espera nos terminais de integração as linhas que fazem a região central de Rio Branco, com maior movimentação de veículos e pessoas, e não fica mais na calçada de casa conversando com os amigos. “Eu voltei para casa da minha vó porque era insuportável andar num bairro que não me sentia segura. Antes eu ficava na rua e na calçada no final de tarde. Agora, evito porque nunca imagina que pode chegar alguém e te levar ou machucar”.

A produtora Agatha Lima ressalta que, “atualmente, sair de casa para fazer coisas rotineiras em Rio Branco não tem sido uma tarefa fácil. Me sinto refém da violência e da incerteza. Há pouco mais de um ano fui assaltada, o pavor de ter uma arma apontada para o rosto nunca vai ser esquecido e após isso, penso bem antes de sair de casa, refiz meus horários, evito ficar até tarde da rua e ando o tempo todo olhando para os lados com medo de alguém me assaltar. Observamos que muros altos, Portões trancados e olhares assustados e desconfiança são o que conseguimos ver na rua. O que é triste pra uma cidade como a nossa de povo acolhedor e que já foi mais alegre!”.


Acreanos deixam o Estado fugindo do aumento da violência

A insegurança pública e o medo da violência têm mudado o comportamento das famílias acreanas. Com medo de sair de casa à noite, as pessoas têm procurado ficar mais em casa e buscam realizar o seu lazer dentro do próprio lar ou nas proximidades.


Em alguns casos, as famílias estão preferindo morar em condomínios fechados por acharem que, pelo menos hora, são mais seguros. Porém, existem aqueles que optaram por deixar o Acre por acharem que nem um tipo de moradia no Estado seja mais segura, como é o caso da enfermeira Fátima Souza, que hoje mora em Curitiba. “Essa foi a melhor decisão que tomamos. Ao ler as notícias nos sites do Acre lamento ao ponto que chegou”, disse Souza.


A acreana Chrystina Matos também deixou o Estado. Nascida em Rio Branco, hoje ela mora em Vilhena, município de Rondônia. Uma oportunidade emprego foi o motivo da ida, entretanto quando ela e seu marido retornam para capital do Acre percebem o tanto que sensação de insegurança tem aumentado no estado.


“Quando estamos aí em Rio Branco, precisamos ter mais cuidados com bolsas e celulares e até mesmo na hora de entrar em casa. Sempre acompanho as notícias e vejo como isso tem piorado. Até já pensei em voltar para Rio Branco, mas aqui em Vilhena temos uma tranquilidade que minha cidade natal já não oferece mais”, falou.