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quarta-feira, 1 de julho de 2026
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Chegadas e despedidas


Existe algo fascinante nos aeroportos. Toda vez que espero um voo, me lembro automaticamente da música Chegadas e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Fico pensando na quantidade de história escondida nos olhares e nos abraços de despedida e de reencontro. No meu mundo, construo a poesia dos amores achados ou interrompidos com a partida, a amargura de um rompimento e todas as palavras não ditas por medo ou precaução.


“Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica. Me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando. Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar. E assim chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem”, observaram de maneira brilhante os compositores.


O fluxo intenso de pessoas nos aeroportos, nas rodoviárias e estações de metrô é a própria vida acontecendo diante dos olhos. Uns correm, apressados ou atrasados, para não perder, porque a perda tem um preço alto. Outros decidem manter o passo lento, caminhando com a calma da meticulosa preparação para a viagem, decidiram evitar surpresas, agarrar os imprevistos pelos chifres, reduzi-los a detalhe.


A vida é um trânsito sem fim mesmo, uma sucessão de rituais de passagem. Gerados, saímos do interior de um corpo, nos despedimos do conforto do fazer nada, abandonamos os braços fraternos para usarmos as pernas. Caímos, levantamos e caímos tantas vezes a perder as contas. A infância fica para trás, a adolescência nos inaugura de outras formas – o primeiro amor, a primeira decepção, a primeira vez que o coração fica partido. Até que, já adultos, percebemos o movimento que há na existência – às vezes, nos tornamos criança de novo, tentando aprender a andar, às vezes, dá saudade até do útero e, às vezes, é a velhice que nos abraça.


Aprender a dança da vida que é o desafio, porque requer um esforço enorme. É preciso acolher a movimentação com autocuidado, sem se cobrar demais, se permitir correr e descansar diante do cansaço, com amor, e se habituar aos recomeços. Viver é também recomeçar sempre e de múltiplas formas. É a simbologia do Réveillon, das roupas brancas, do reinício, só que durante todo o ano e, se possível, com celebração.
Mudar é bom. Nos abre portas para inúmeras possibilidades. Novos caminhos trazem o frescor das novas paisagens, cheiros, sabores, das descobertas em relação ao externo e ao interno. Infelizmente, a tendência é se agarrar ao percurso conhecido, a uma amizade que não nos acrescenta, ao relacionamento falido, mas faço questão de lembrar que há muita vida na novidade.


Então, como já estamos praticamente olhando 2020 nos olhos, talvez seja o momento de refletir sobre o que podemos deixar ir embora e que caminho diferente podemos seguir – com a lembrança de que sempre se pode mudar de direção. No aeroporto da vida, temos condições de adquirir passagens para qualquer lugar, basta fazer a primeira escolha e viajar. Bon Voyage! Feliz Ano Novo!


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