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quarta-feira, 1 de julho de 2026
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O Natal, a ceia e o devir


Quase véspera de Natal, época daquela surpresa anual e desagradável com os preços dos itens da ceia (para quem costuma celebrar desta forma), do nervoso para achar o presente certo do amigo-oculto da firma ou da família. Não tem mais como negar, meus amigos, o ano acabou e chegou o trágico momento de encarar o espelho das expectativas frustradas ao som da voz quase fúnebre da Simone ecoando por todos os lugares: “Então é Natal, e o que você fez?”. A tremedeira ansiosa é real.


Não sei se somos iguais, mas eu costumo abraçar forte o clichê de final de ano de refletir sobre como cheguei até aqui, mesmo entendendo que a noção de ano (o conjunto de 365 dias) é ilusória, porque o tempo não para. Mas que ano, minha gente! 2019 passou correndo, mas passou quase traumático. A vida em comunidade se tornou uma verdadeira trincheira. A guerra das opiniões ganhou força e munição com a internet, a convivência respeitosa está em fiapos, amizades destruídas.


No âmbito pessoal, definitivamente foi um ano de inúmeras mudanças. Na verdade, perceber as modificações é o mais legal da coisa toda. Pare um instante e lembre-se de 2018. Como estava sua vida? Estava solteiro ou namorando? Já tinha começado a faculdade ou concluído? Trabalhava ou procurava um emprego? Temos uma dificuldade enorme em perceber os deslocamentos que fazemos, sobretudo se eles não são do tamanho ou da forma que imaginamos.


Gosto muito do conceito filosófico do “devir”, que diz respeito ao processo permanente de transformação pelo qual passam as coisas. Em outras palavras, em linhas bem gerais, trata-se do vir a ser, do tornar-se. É interessante – e até poético – começar o exercício de apreciar as mudanças ocorridas no decorrer do caminho, tentando deslocar o olhar do que ainda precisamos alcançar ou do que achamos que precisamos. A falta e a sobra, às vezes, pode ser uma questão apenas de ponto de vista.
Se viver é um ato político, tenho a impressão de que apreciar a vida é uma revolução violenta, principalmente diante de tantas sugestões comerciais para se encontrar a satisfação. Trabalhamos muito para comprar coisas modernas e legais que alguém nos disse que devemos querer. E, de tanto repetirem, nos convencemos que só existe essa forma de vida. Por isso, parcelamos em seis, dez, doze vezes.


Qual o objetivo dessa lógica estranha que nós (assalariados) normalmente alimentamos? Pertencer! A “máquina” nos faz pensar que, se todos estão de azul, o azul é a cor mais adequada para se vestir. Se sentir de fora está fora de cogitação. O esforço está em entender que a mudança é parte do processo, inclusive no âmbito mental. O aprendizado e a compreensão estão disponíveis.


Como foi seu ano? O quanto aprendeu com o rolo compressor do cotidiano sem a maquiagem, sem o filtro, sem as fotos bonitas postadas nas redes? Há pouco tempo, ousei dizer para um amigo que nada aconteceu em 2019. Foi necessário um “tapa na cara” para que eu percebesse o devir de forma prática. A lista de mudanças é extensa, boas e ruins, porque viver é transformar-se sempre. Que o fim desta década nos represente, de fato, uma mudança de olhar. Comecemos agora! Feliz Natal!



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