Evaldo Rosa, músico, segurança, 51 anos, casado, um filho de sete anos, negro. No último domingo, 7, iria para um chá de bebê, um programa inocente de domingo, com a esposa, sogro, filho e uma amiga, quando tiveram o carro metralhado por homens do exército que patrulhavam Guadalupe, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Foram 80 disparos de fuzil, que mataram o músico.
Depois da primeira rajada de balas, as mulheres correram para fora do carro com a criança, acenaram para os militares pedindo ajuda, e mesmo assim os soldados continuaram atirando. Um morador, que passava na hora também foi atingido enquanto tentava prestar socorro, bem como o sogro de Evaldo. Todos pretos.
O titular da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro disse que “tudo indica” que os militares atiraram contra o carro da família por engano, ao confundirem com assaltantes. Dentre os doze militares que foram ouvidos na Delegacia de Polícia Judiciária Militar, dez foram presos.
Temos que refletir sobre algumas questões: a punição para quem apertou o gatilho é suficiente? É razoável individualizar a responsabilidade penal? Mesmo que dentro do carro estivessem bandidos portando armas, eles poderiam ser executados sem terem seus direitos e garantias individuais assegurados, como o direito a vida, por exemplo? Tudo bem continuarmos com essa política de extermínio, que autoriza a execução de pessoas reconhecidas como criminosas?
Quem apertou o gatilho deve responder por suas ações, certamente. Entretanto, a condenação de quem fez os disparos invisibiliza as verdadeiras questões.
Precisamos entender o racismo institucional que são ações coletivas legitimadas pelo estado e sociedade, impondo regras e padrões racistas, visando resguardar a manutenção da ordem social. Dito de outro modo, “as instituições são racistas porque a sociedade é racista” (Silvio Almeida, 201).
É crescente a política de criminalização e de militarização no Brasil: matar, controlar os corpos e encarcerar, por parte do Estado. O país mata mais do que a guerra na Síria, mais do que o conflito no Afeganistão, mais do que foi a batalha do Iraque. Favelas e periferias (territórios empobrecidos) são os locais preferidos do Estado para sua atuação excessiva e abusiva. Uma política racista, que separa negros e brancos, periferia e centro, pobres e ricos. Não nos faz refletir acerca do impacto na vida e na saúde mental dessas populações por conviverem em ambientes extremamente violentos.
A possibilidade de jovens negros serem assassinados no Brasil é 2,88 vezes maior do que a de jovens brancos. Por dia, são 63 assassinatos de jovens negros, totalizando 23 mil mortes por ano (ONU, 2017). Vidas negras são apenas alvo. Elas importam menos que as vidas brancas, e isso tem um nome: racismo. E ele mata. Por trás de cada história, vidas negras interrompidas. Pessoas negras vivem 24 horas com medo de morrer.
A arquiteta Joice Berth, nos dá o caminho pra entender de que lugar estamos falando: “existem espaços das cidades que são construídos para execução dos descendentes de indesejados (africanos e descendentes que foram trazidos pra cá em uma das maiores chacinas que esse país executou em sua história). Esses lugares são as periferias”.
Daqui vamos seguindo com nossas vidas, vendo as notícias nas redes, as burrices e desmandos dos governos. Ainda parados, infelizmente, sem uma mobilização mais consistente. Segue o ritmo da desumanização de pessoas negras.
E como diz o escritor carioca Geovani Martins, “se oitenta tiros não te fazem refletir sobre o racismo e a truculência militar, você é parte do problema”.
É preciso manter a luta contra o Racismo. Essas vidas precisam realmente importar.
*Raquel Lima da Silva
Etnógrafa e Feminista Negra
Mestra em Desenvolvimento Regional

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