Texto de Sandra Assunção || Fotografia de Marcos Vincenti || Diagramação Adaildo Neto
Estrutura para receber visitantes é cada vez melhor
Único lugar do estado do Acre com potencial para o turismo de aventura na natureza, com cachoeiras, ofurôs naturais, água sulfurizada, paredões, pedras que lembram ametistas, mirante com 472 metros acima do nível do mar, o Parque Nacional da Serra do Divisor, ou Serra do Moa – como também é conhecido – se consolida como local de turismo de aventura e imersão com vivência em uma das regiões mais exuberantes da Floresta Amazônica.

O leque de opções para quem se dispõe a percorrer oito horas de barco pelo rio Moa até a entrada do parque só aumenta. Além das cinco cachoeiras já conhecidas, outras duas foram localizadas recentemente pelos moradores da reserva e já são reconhecidas oficialmente pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, órgão que gerencia a Unidade de Conservação (UC).
É no parque que os acreanos descobrem que não é preciso ir ainda mais longe para tomar banho de cachoeira. Os que vêm de outros estados se encantam com a mistura de selva, muitas águas, pedras, comida boa e moradores receptivos.

O que é dificuldade para alguns, como as longas caminhadas, alturas a serem vencidas, isolamento das redes sociais, acomodações rústicas, é justamente o que muitos buscam: um lugar onde o contato com a natureza é absoluto e onde se pode vencer desafios físicos e psicológicos, por isso, muitos buscam a imersão na região com abundância de águas correntes, cristais naturais e natureza exuberante.
E se a busca é por contato com os povos tradicionais da Amazônia, a vizinhança do parque também oferece essa possibilidade. Os índios da etnia Nukini, que já realizaram o 1º Festival Indígena em 2018, vão receber visitantes para um período de vivência entre os dias 8 e 14 de julho na Aldeia Recanto, uma das cinco terras Nukini, onde moram atualmente cerca de 600 pessoas. Nesse período, o turista poderá fazer parte da rotina da aldeia participando de atividades como pesca, caça, confecção de artesanato e rituais.
Guias, hospedagem rústica e comida caseira
A estrutura para quem vista o Parque Nacional da Serra do Divisor seja para passeio ou pesquisa é simples, mas eficiente e é feita pelos moradores do lugar, que encontraram no turismo uma forma de garantir renda durante todo o ano. Há pousada com todas as refeições incluídas, barcos, guias e carregadores.

Miro Magalhães, nasceu na Serra do Divisor. Deixou a caça e a pesca para investir no turismo. Ele busca os visitantes nas margens do belo e escuro Rio Japiim, em Mâncio Lima, ou os recebe já na pousada dentro da área da Serra, de acordo com o pacote fechado.
Nos Rios Japiim e Moa, os viajantes desfrutam de um belo visual, com muitas sumaúmas (árvore gigante conhecida como rainha da floresta) e pássaros exóticos, como a garça-real.

A Pousada do Miro tem 14 apartamentos e redário (local coberto, mas aberto, onde se armam redes) que abrigam até 30 pessoas. A diária de R$ 100 inclui três refeições preparadas com ingredientes da região. No cardápio, a simplicidade de sabores como o da banana-comprida, macaxeira, ovos, galinha caipira, pão de milho e frutas diversas.
O professor cearense Carlos Henrique Porfirio aprovou a estrutura que encontrou no parque e já planeja voltar. “Além das cachoeiras, o que eu mais gostei foram às trilhas, porque eu vim de fato em busca dessa possibilidade de aventura na natureza. A pousada e a comida são muito boas e as pessoas receptivas. Vou voltar aqui com certeza”.
Cachoeiras, trilhas, mirante e terra indígena na vizinhança
Não há monotonia no parque. Os visitantes têm como opção sete cachoeiras de pequeno, médio e grande porte, trilhas encantadoras que são feitas ora em terra firme e boa parte em águas cristalinas, água com enxofre do Buraco Central, onde se formam ofurôs naturais; um mirante localizado a quase 500 metros de altitude, bromélias gigantes, paredões de pedras. E não para por aí.
As trilhas são percorridas sempre com guias, que além da noção sobre localização e distância, dão informações sobre a fauna e flora locais e contam as histórias reais e imaginadas sobre a Serra do Divisor. Os visitantes podem conhecer as cachoeiras mais próximas ou as mais distantes como a Formosa, que fica a 17 quilômetros da pousada, bem no pé da serra.

O mirante com 472 metros é outro grande desafio para os turistas, mas tanto no caso da cachoeira Formosa como do Mirante, já na chegada todos esquecem o esforço e se sentem recompensados pela beleza. A Formosa tem três quedas d’água, sendo que a maior com cinco metros de altura. O banho de água gelada depois de 17 quilômetros de trilha no meio da floresta faz valer a pena a caminhada.
No mirante, que fica a uma distância de 1,1 mil metros do pé da serra, o visual é de tirar o fôlego. Do alto se consegue ver toda a exuberância do local. “Eu chorei quando cheguei lá em cima. Chorei pelo que vi e pelo que senti. Nunca mais vou esquecer esse lugar e esse dia”, relata Valéria, enfermeira de Rio Branco, que passou o período de carnaval na Serra do Divisor.

Os vizinhos do parque, o povo indígena Nukini, também pode ser visitado. A comunidade produz um belo artesanato (feito só com itens da floresta, como penas e sementes) e também promovem festivais e vivências, durante os quais os visitantes podem experimentar a realidade da aldeia, bem como conhecer costumes e rituais. Em junho de 2019 eles vão oferecer mais uma vivência na Aldeia Recanto Verde, onde moram 40 dos 600 índios Nukini.
Durante muitos anos, os Nukini trabalharam para os seringalistas da região como seringueiros e só tiveram o reconhecimento oficial de suas terras garantido em fins da década de 1970. Nos últimos anos se reapropriaram de sua cultura e hábitos e agora se apresentam como os verdadeiros povos tradicionais da floresta para os visitantes.

Fátima Nukini, professora da aldeia, explica que o projeto Vivência na Aldeia inclui roda de rapé, cantos e contos em volta da fogueira, pintura corporal, sananga (colírio natural à base de uma planta feito pelos indígenas), Cerimônia Espiritual Xanu Vakêvu, vacina do Sapo Kambô, visitação à árvore sagrada Sumaúma e banho de argila terapêutico. “Vamos mostrar nosso modo de vida e nossa cultura”, diz.
Turismo fotográfico e de imersão
O fotógrafo Marcos Vicentti, o Marcão, tinha o sonho de conhecer o Parque Nacional da Serra do Divisor. Ele foi além e em 2015 realizou a primeira Expedição Fotográfica ao parque, com 14 pessoas. Alguns eram fotógrafos, outros não, mas com um fator em comum: o desejo de viver uma aventura e uma experiência diferente. Além de belas fotos todos trouxeram na mochila mais autoconhecimento, experiência de vivência em grupos, desafios físicos e mentais superados e gratidão pelo que viram e desfrutaram junto à natureza.
Desde então, anualmente, no período de cheia dos rios, o fotógrafo sobe o Rio Moa com um grupo de pessoas rumo a serra para fotografar, se encantar, se transformar e voltar com novo fôlego para o ano inteiro.

O transporte até Cruzeiro do Sul é por conta de cada pessoa. O pacote inclui o deslocamento até a serra com alimentação, passeios e todas as atividades combinadas. No período do carnaval, contando com a turma que estava na expedição fotográfica, havia 25 pessoas visitando o Parque Nacional da Serra do Divisor. Gente de variadas idades, que buscaram alternativas de vivenciar uma realidade diferente do cotidiano das cidades, disposta a vencer desafios físicos e mentais e ter contato com cenário pouco conhecido pela maioria dos acreanos, que nem sabe que pode tomar banho de cachoeira, logo ali.
“Quis que mais pessoas vissem o que eu vi e veio à ideia da Expedição Fotográfica, que se ampliou e agora as pessoas vêm também com outros objetivos além da fotografia. Nesse tempo percebi o aumento do fluxo turístico, que feito da forma correta, é bom para todos: os que vêm e os que moram aqui”, pondera Marcão.

“Venci desafios pessoais e fiquei seis dias sem celular”
Uma dela é Keiliane Carvalho, estudante de psicologia em Rio Branco, que nem sabia da existência de locais como a unidade de conservação no Acre, lugar onde nasceu. “Vim de avião até Cruzeiro do Sul, fui para Mâncio Lima, pegamos um barco por oito horas e chegamos ao parque. Fizemos muitas trilhas e caminhadas para a cachoeira Formosa. É grande o esforço físico para chegar até lá e ao mirante. O corpo diz que não, mas a força do cérebro diz que posso. Eu fiquei seis dias sem celular, sem notícias, só comigo, a natureza e pessoas que não conhecia. A experiência foi boa porque entendi que podemos viver com menos e ao mesmo tempo a gente se desintoxica de tudo que recebemos pelas redes. A palavra que me vem é gratidão a essa Expedição Fotográfica, que foi uma imersão!”.

“A serra para mim foi superação e encontro comigo mesma e a pachamama”.
“Eu queria muito ir para a Serra do Divisor para fazer um retiro espiritual, pois tenho um trabalho interno de 20 anos. Tenho a formação em várias práticas integrativas, como Reiki, alinhamento energético. Thetaheling e precisava estar na natureza. Quando vi a proposta do Marcos, fiquei encantada, porque queria conhecer meu estado e saber que não preciso ir tão longe para me banhar na cachoeira. Fui buscar um silêncio interno em conexão com a pachamama. Fui para deixar algo lá e percebi que isso aconteceu. Fui atrás de mim, me encontrei de novo e estou apaixonada por mim”, conta a funcionária pública, Vera Regina Santana.

“Agora sei que posso ir mais longe ainda”
Na virada do ano, Valéria Teixeira, enfermeira de Rio Branco, estabeleceu como meta para 2019 ir à Serra do Divisor e fazer uma trilha no Peru, sendo que o resultado de uma poderia decidir a execução da segunda meta. E ela foi passar seis dias na Serra do Divisor.
“Para mim, o desafio do corpo foi muito grande. Mas nas caminhadas aqui ninguém deixa ninguém para trás e isso me deu muita segurança. Eu andei muito, mas me entreguei e fui acolhida pela natureza e pessoas. Meu ano começa depois disso que vivi e agora sei que posso vencer desafio maior como a trilha de Salkantay, no Peru. Agora sei que posso ir mais longe”.
30 anos do Parque Nacional da Serra do Divisor: riqueza em cima e embaixo da terra
A criação do Parque Nacional da Serra do Divisor completa 30 anos em junho de 2019 e o ICMBio, que gerencia a Unidade de Conservação, elabora programação que inclui uma expedição científica, cursos e outros eventos.
O gerente do PNSD, Aécio dos Santos, explica que a programação alusiva à data já teve início com o curso de Condutor de Turismo Ecológico, ministrado para 43 moradores do parque e do entorno. “Na primeira semana de novembro faremos uma expedição científica com pessoas do Brasil e do exterior”, informou.

O ICMBio mantém uma base no parque e é responsável pela fiscalização de toda a área. No local, o turismo deve ser de baixo impacto e há regras a serem seguidas, como a proibição de visitantes entrarem na área do parque com bebida alcoólica.
O Parque Nacional da Serra do Divisor foi criado em 1989, pelo governo federal, com objetivo de proteger uma das maiores biodiversidades do planeta. Está situado no extremo ocidental, onde a estrutura do relevo é modificada pela presença da Serra do Divisor, uma ramificação da serra peruana de Contamana, apresentando uma altitude que alcança os 600m.
Riquezas – O Parque Nacional da Serra do Divisor abriga outras riquezas além da fauna e flora, o que requer constante atenção do ICMBio, que coíbe, por exemplo, a retirada de madeira, a pesca e caça ilegais. Desde a década de 1930 há buscas por gás e petróleo na região. A Petrobrás deixou marcas no local como o Buraco Central, fruto de tentativas de prospecções feitas pela empresa. Restos dos equipamentos da empresa servem de cenário para fotos.
































E mesmo que não sejam preciosas, que não tenham valor financeiro, as pedras coloridas (que remetem às ametistas), também são parte da riqueza natural dessa parte do Acre. As pedras podem ser encontradas ao longo do Igarapé Anil, na ida para a cachoeira Formosa onde, segundo os moradores, há uma antiga mina.
“Os visitantes se encantam com tudo por aqui. O caminho da cachoeira Formosa é longo. São 17 quilômetros, mas a gente vai andando pela trilha e pelo Igarapé Anil e encontrando essas pedrinhas que são jogadas aqui por uma mina. Aí eles chegam lá e se deparam com a Formosa, com três quedas, água gelada e o cansaço passa. É a felicidade!”, garante Edmilson Cavalcante.


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