Mais de cinco décadas depois de sua estreia, “Rocky Horror Show” continua desafiando os limites do teatro musical. O clássico criado pelo ator e dramaturgo neozelandês Richard O’Brien voltou aos palcos de Nova York em uma montagem que aposta no humor absurdo, na sensualidade e na extravagância que fizeram da obra um dos maiores fenômenos cult da cultura pop.
A produção está em cartaz no Studio 54, espaço que carrega uma história marcada pela música, pela moda e pela transgressão. O endereço escolhido para o espetáculo acaba funcionando como uma extensão do próprio universo de “Rocky Horror”, com espectadores que chegam caracterizados como os personagens ou incorporam elementos dos figurinos da produção.
Entre os grandes destaques desta temporada está Luke Evans, que interpreta Frank-N-Furter, o excêntrico cientista alienígena responsável pela criação de Rocky. Conhecido por viver Gaston em “A Bela e a Fera”, o ator assume no musical um personagem extravagante, provocador e sexualmente ambíguo.
A passagem de Evans pelo espetáculo, porém, está perto do fim. O ator fará sua última apresentação em 23 de agosto. Depois disso, o papel será assumido por Jake Shears, vocalista do Scissor Sisters, que permanecerá na produção durante o restante da temporada, prevista para seguir até 29 de novembro.
Outra participação de destaque foi a de Juliette Lewis, que interpretou Magenta. A atriz, indicada ao Oscar por “Cabo do Medo”, também é conhecida por sua carreira como cantora à frente da banda Juliette and the Licks. Sua presença ajudou a levar para o palco a mesma energia excêntrica que marcou sua trajetória no cinema e na música.
A montagem ainda conta com a comediante Rachel Dratch, conhecida pelo “Saturday Night Live”, no papel da narradora. Além de conduzir a história, ela interage diretamente com a plateia e participa de um dos momentos mais tradicionais do espetáculo: “The Time Warp”.
A dança se tornou um dos símbolos de “Rocky Horror” e representa uma das características que diferenciam a obra de outros musicais. O público não é apenas espectador. Fantasias, coreografias, comentários e outras formas de interação fazem parte da experiência, tradição que nasceu principalmente com as sessões de meia-noite do filme.
A história acompanha Brad e Janet, um jovem casal que fica preso em uma estrada durante a noite depois que o carro apresenta um problema. Em busca de ajuda, eles chegam a uma misteriosa mansão e acabam conhecendo Frank-N-Furter e uma série de personagens tão estranhos quanto carismáticos.
O encontro coloca os protagonistas em uma trama que mistura ficção científica, terror, comédia, erotismo e paródia. Frank-N-Furter, um cientista vindo de outro planeta, apresenta sua criação: Rocky, um homem construído para representar a perfeição física.
A combinação improvável de gêneros e o comportamento deliberadamente exagerado dos personagens fizeram com que “Rocky Horror” se tornasse uma obra difícil de classificar. O musical estreou em Londres em 1973 e chegou aos cinemas dois anos depois, com Tim Curry, Susan Sarandon e Barry Bostwick no elenco.
O filme, entretanto, não foi um grande sucesso comercial em seu lançamento. A transformação em fenômeno cultural aconteceu aos poucos, impulsionada principalmente pelas sessões especiais realizadas durante a madrugada. Nessas exibições, os espectadores passaram a cantar, dançar, responder aos personagens e aparecer vestidos como integrantes do elenco.
Com o passar dos anos, esse comportamento deixou de ser apenas uma reação espontânea e passou a fazer parte da própria identidade de “Rocky Horror”. Cada apresentação se tornou uma experiência coletiva, na qual a fronteira entre palco e plateia praticamente desaparece.
A atual produção da Broadway preserva justamente esse espírito. Em vez de tentar suavizar os excessos do original, o espetáculo abraça o absurdo e mantém a estética extravagante que ajudou a transformar a obra em referência para diferentes gerações.
E o retorno do clássico não termina em Nova York. “The Rocky Horror Picture Show” ganhará uma experiência imersiva na Sphere, em Las Vegas, em 2027. A produção será baseada no filme de 1975 e utilizará a estrutura tecnológica do espaço para ampliar a experiência visual e sonora.
A adaptação deverá combinar imagens remasterizadas, efeitos de som tridimensional e recursos tecnológicos desenvolvidos especificamente para a enorme tela que envolve a plateia. A intenção é transportar o público para dentro do universo do filme sem abandonar os elementos que fizeram dele um clássico.
Assim, mais de 50 anos depois de Richard O’Brien colocar pela primeira vez Frank-N-Furter e sua turma diante de uma plateia, “Rocky Horror” continua encontrando novas maneiras de provocar o público. Entre a Broadway e a experiência imersiva de Las Vegas, o clássico mostra que sua combinação de humor, liberdade e exagero ainda tem espaço na cultura pop.


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