Ao mesmo tempo que o Brasil aparece com destaque positivo no cenário global de resposta ao HIV, também figura entre as 21 nações com aumento de casos de infecção. O país registrou alta superior a 20% entre 2010 e 2025.
Os dados são de um relatório da Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids ), divulgado nesta segunda-feira (27), durante conferência internacional de Aids que acontece no Rio de Janeiro.
Embora o número de novas infecções e de mortes relacionadas à Aids estejam nos menores níveis dos últimos 30 anos, o programa reforça que a resposta global está fragilizada. A ajuda internacional destinada ao HIV teve queda de 18% (de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025).
O relatório mostra que os resultados variam bastante entre os países. Enquanto sete deles, como Quênia, Ruanda e Zimbábue, conseguiram reduzir em quase 80% o número de novas infecções desde 2010, outros, como Brasil, Paquistão e Filipinas, registraram alta.
Segundo o médico sanitarista Draurio Barreira, diretor do departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, a taxa de aumento registrada no relatório é atribuída, em grande parte, ao efeito da ampliação do diagnóstico.
Ele afirma que a rede de testagem foi quintuplicada nos últimos anos, incluindo forte disseminação de autotestes distribuídos a organizações não governamentais para testagem entre pares.
“Nos últimos anos, a gente teve um pequeno aumento, estatisticamente desprezível, entre a detecção de pessoas vivendo com HIV, mas teve uma diminuição de pessoas vivendo com Aids”, disse.
Segundo Barreira, esse é o indicador mais relevante: mesmo testando muito mais, o país não encontrou o volume de novos casos que esperava —sinal de que a população mais exposta ao risco já havia, na maioria, recebido o diagnóstico.
Para Beatriz Grinsztejn, médica infectologista e pesquisadora brasileira, atual presidente da IAS (International Aids Society), a alta das infecções está relacionada a barreiras estruturais que ainda persistem, mesmo em países como o Brasil, que garante acesso universal a antirretrovirais.
“A gente tem acesso universal, a gente tem os insumos, mas a gente tem barreiras estruturais que impedem o avanço no diagnóstico, no engajamento ao cuidado e na manutenção do uso de tratamento e de PrEP”, disse.
Ela citou que 30% das pessoas no país ainda recebem o diagnóstico tardiamente, com contagem de CD4 abaixo de 200 —”embora a gente tenha tudo”.
As causas, segundo ela, são racismo, homofobia, transfobia, pobreza e insegurança alimentar. Como contraponto, citou estudos que associam o programa Bolsa Família a melhores desfechos em mortalidade e hospitalização por HIV, especialmente entre mulheres.
De acordo com Barreira, pela primeira vez desde o início dos anos 1990, o número de mortes por Aids no Brasil deve ficar abaixo de 10 mil neste ano— uma queda expressiva em relação aos mais de 11 mil óbitos anuais registrados havia poucos anos.
Outra conquista brasileira mencionada no documento é a certificação, concedida pela Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) em dezembro de 2025, de que o Brasil eliminou a transmissão vertical do HIV (de mãe para filho).
O país se tornou a primeira nação com mais de 100 milhões de habitantes a alcançar esse feito —um resultado que o coloca ao lado de países como Quênia, Moçambique, África do Sul, Uganda, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue, que também superaram 90% de cobertura nos serviços de prevenção da transmissão vertical.
Com cerca de 1 milhão de pessoas vivendo com HIV, o Brasil já cumpriu duas das três metas 95-95-95 da ONU —que medem, respectivamente, o percentual de pessoas com HIV que conhecem seu status, as que estão em tratamento e as que atingiram supressão viral.
O país atingiu os indicadores de testagem e de supressão viral, faltando avançar na cobertura de tratamento antirretroviral. O Brasil também expandiu significativamente o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP).
Segundo o relatório, o número de pessoas usando PrEP pelo menos uma vez no ano passou de 165 mil para 233 mil entre 2024 e 2025 —um crescimento de 41%.
Dados mais recentes, de junho de 2026, apontam cerca de 230 mil usuários de PrEP no país, o equivalente a 5,2 pessoas em uso da profilaxia para cada novo diagnóstico de HIV. O número supera a meta do Ministério da Saúde, de três pessoas em PrEP por nova infecção.
O Unaids aponta também para disparidades importantes entre os estados brasileiros, e reduzi-las será essencial para garantir acesso equitativo à prevenção.
Lançado em 2024, o Programa Brasil Saudável (Unir para Cuidar) é apontado no relatório como um compromisso transformador do governo brasileiro. A iniciativa reúne 14 ministérios federais com o objetivo de eliminar, até 2030, 14 doenças e infecções determinadas socialmente —entre elas HIV, transmissão vertical do HIV, tuberculose, lepra, malária, hepatites virais e tripanossomíase.
O programa está alinhado à Estratégia Global de Aids 2026–2031 e à Declaração Política sobre HIV/Aids de 2026, e combina intervenções de saúde com ações para erradicar a fome, expandir direitos humanos, fortalecer ciência e tecnologia e melhorar infraestrutura e saneamento básico — reconhecendo que os resultados em saúde são moldados por determinantes sociais mais amplos.
No campo do financiamento, o Brasil está entre os mais de 55 países que, desde 2025, ampliaram o orçamento público doméstico destinado ao HIV —no caso brasileiro, um aumento de até 10%, segundo a categorização da Unaids para a América Latina.
De acordo com o Unaids, em 2025, cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com Aids ainda não estavam em tratamento. E quase metade das crianças vivendo com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral. Cerca de 570 mil pessoas morreram por doenças relacionadas à Aids.
Segundo Winnie Byanyima, diretora-executiva do Unaids, a inovação só terá impacto na epidemia de Aids quando houver acesso amplo a tratamentos e prevenção a preços acessíveis. “Inovação sem acesso, não é inovação, é injustiça. O verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los, e a um preço acessível.”
A repórter viajou a convite da IAS (International Aids Society)
FONTE: FOLHA DE S. PAULO


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