Conheça o mineiro Joel Carlos, um ex-atleta de futebol que veio parar no Acre há quase 30 anos e se transformou em mais um morador de rua em Rio Branco
Quem frequenta o parque do Tucumã todos os dias se depara sempre com uma estrutura armada em algum quiosque ao longo da pista de caminhada. Trata-se de uma lona plástica preta, algumas roupas velhas sujas e rasgadas, revistas, restos de comida e uma Bíblia já em péssimo estado.
Pois é ali que reside mineiro Joel Carlos dos Santos. Aliás, todo o parque e algumas paradas de ônibus nas proximidades viraram sua casa. A lona e os demais objetos são transferidos constantemente: ora está no final do parque, ora está no meio; ora está numa ponta, ora está em outra. E assim, o seu quarto sempre tem uma localização diferente.
Na manhã da última quinta-feira, 10, o quiosque escolhido era um localizado bem no meio do parque, naquela região que fica em frente às quadras da Universidade Federal do Acre (Ufac), próximo à primeira entrada do conjunto Tucumã. Joel dormia em outro local, mais especificamente na parada de ônibus localizada em frente ao Conselho Regional de Medicina e Faculdade da Amazônia Ocidental (Faao), na estrada Dias Martins, cerca de 500 metros do quiosque que agora habita.
Era cerca de 7h30 quando a reportagem o encontro deitado no banco da parada, protegido por um cobertor fino e um guarda-sol colorido. Quando abordado, levantou-se para um bom dia e um aperto de mão. Parecia sonolento, mas, educadamente, concordou em conceder uma entrevista.
O homem disse ter 52 anos. Os dentes inferiores estragados, os cabelos brancos e a barba grande faziam-no parecer ter bem mais idade. Não é de se estranhar isso, pois Joel é cardíaco e usa um marca-passo que exibe quase saltando do peito.
“Eu tinha arritmia cardíaca. Daí, enfartei três vezes, foi quando os médicos colocaram esse marca-passo”, contou Joel.

Joel Carlos perdeu a aposentadoria e foi parar na rua
A história de Joel Carlos é longa, mas interessante. Merece ser compartilhada. Ele contou que está no Acre há 29 anos. Ele morava na vila Hortigranjeira, localizada na BR-317, no município de Capixaba. Sobrevivia de uma aposentadoria de um salário mínimo que recebia do INSS devido à sua condição de cardíaco. Mas o benefício foi suspenso e ele ficou sem ter como se manter, pagar aluguel, alimentação e outros itens básicos de subsistência.
“Eu vim pra rua, mas não é porque a gente gosta, é por conta da nossa situação”, explicou. “Mas a gente não pode culpar as autoridades e ao governo, não senhor! Ás vezes, a gente é o culpado”, completou Joel sempre referindo a si na terceira pessoa.
Joel não falou sobre a tal culpa que diz ter, mas não esconde que já foi alcoólatra. Porém, nega ser usuário de outros tipos de drogas.
Acabou morando em Rio Branco justamente porque veio para a capital tentar resolver o problema com a aposentadoria. Alega que não teve como voltar.

Joel, o futebolista
A conversa de Joel Carlos é reta e sóbria. Ele parece ter sido alguém que teve um convívio social intenso e uma boa formação escolar e cultural. Apesar de não ter revelado sua escolaridade, contou que já atuou no futebol quando jovem. Não seguiu a profissão justamente por conta dos problemas cardíacos.
Em sua cidade natal, Governador Valadares, na região do Vale do Rio Doce, foi titular do Democrata. Em São Paulo, jogou no Ituano, de Itu, e no Ituano de Campinas. Mas, também, disse ter beliscado os grandes times do Rio e São Paulo, onde fez testes no Botafogo, Fluminense, entre outros.
Na época, disse ter conhecido muitos famosos, muitas celebridades do futebol e do mundo artístico.
‘Perdi minha bolinha’
Joel não tem mais aposentadoria, não tem emprego e muito menos um salário. Mas ele ganha uma graninha, de vez em quando, fazendo uso das habilidades que adquiriu como jogador de futebol. Ele faz embaixadinhas para os frequentadores do parque e, em troca, rola sempre algumas moedas. Mas ele perdeu a bola que usava para as apresentações.
“Eu perdi minha bolinha. Não sei que fim ela levou. Agora estou sem ter como fazer as embaixadinhas”, lamentou o ex-atleta.
Ele agora espera que alguém de bom coração faça a doação de uma bola do tipo futebol de salão e promete recompensar muito bem aquele que lhe ajudar.
“Quando eu ganhar a bola, vou ficar muito grato e vou fazer quinhentas embaixadinhas para essa pessoa.”
Vivendo de doações
Almoço, janta e café da manhã Joel tem graças às doações que recebe. E diz que se sente muito grato a aqueles que o ajudam todos os dias.
“Eu recebo ajuda dos vigilantes da Ufac, das pessoas que caminham no parque, do pessoal do comércio aqui de perto e de muita gente boa. E eu quero aproveitar para agradecer muito por tudo isso que recebo.”

Mais um invisível
Joel Carlos é visto, mas não é notado. Ele é como outros tantos que vivem à margem do convívio social em praças, parques, pontes e viadutos das cidades brasileiras. As pessoas passam por ele e o olham com indiferença, muitas vezes até com repulsa. Mas Joel não é nenhum bandido ou ser perigoso que incite esse tipo de sentimento. É apenas mais um desafortunado que acabou nas ruas por um ou outro motivo qualquer.
Mas ainda existem pessoas no mundo que não são indiferentes. A funcionária pública aposentada Maria José Martins de Oliveira (foto) parecer ser uma. Na manhã de quinta-feira ela disse estar surpresa em não ver Joel naquele quiosque do parque. Disse estar preocupada, pois é comum encontra-lo ali todas as manhãs.
“Estou achando estranho que ele não esteja aqui hoje. O que terá lhe acontecido?”, indagou Maria.
A mulher disse que, todos os dias, passam por ali centenas de pessoas, mas que poucos demonstram alguma empatia para com Joel.
“Eu tenho uma casinha que está desocupada. Até já pensei em oferecer para ele. Não o fiz ainda por saber pouco a seu respeito. Mas sinto que posso ajuda-lo de alguma forma”, revelou Maria José emocionada.

Joel recusa apoio da prefeitura
Para a prefeitura de Rio Branco, Joel não é invisível. Aliás, ele vem sendo monitorado pelas ruas da capital desde o ano de 2015 pela Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social (Semcas). Desde que ele se instalou no parque, a instituição já fez diversas tentativa de ajuda-lo. Segundo a secretária Dora Araújo, o homem se mostra sempre muito arredio e se nega a aceitar a ajuda oferecida pelos técnicos da instituição.
Dora acredita que Joel se acostumou com a vida na rua, especialmente no parque do Tucumã, onde recebe alimentação e outros donativos ofertados pelos frequentadores do local e por alunos da Ufac.
“A nossa equipe de abordagem social tem buscado um vínculo com o senhor Joel para lhe ofertar os nossos serviços. Mas ele não aceita o nosso contato. Gostaríamos de oferecer a ele o nosso centro de acolhimento, o Centro Pop, que recebe essa população de rua constantemente. Lá, ele poderia tomar café, lavar roupas e receber o apoio dos nossos técnicos que estão lá para fazer esse tipo de atendimento”, explicou Dora.


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