O Instituto Ecumênico Fé e Política do Acre, em parceria com o Tribunal de Contas do Acre (TCE-AC), realizou nesta sexta-feira (30) a I Cúpula Climática Ecumênica do Acre, no Plenário do Tribunal, reunindo representantes de instituições públicas, especialistas, lideranças religiosas e sociais, gestores públicos e membros da sociedade civil para discutir os impactos das enchentes recorrentes do Rio Acre e os desafios da governança ambiental no estado.
O evento teve como eixo central o diálogo entre ciência, políticas públicas, controle externo, participação social e espiritualidade laica, abordando temas como mudanças climáticas, planejamento territorial, justiça ambiental e soberania da terra.
Em parceria com a Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais (Iri Brasil), foi apresentado o curta-metragem Amazônia Para Sempre, uma obra de realidade virtual filmada em 360º. O filme tem direção de Estevão Ciavata.

Uma das idealizadoras do evento, a presidente do TCE-AC, conselheira Dulce Benício destacou a importância da participação do Tribunal em uma ação cooperada para discutindo os ‘graves problemas que passam o mundo’. Ainda segundo ela, o objetivo deve ser repensar os modelos que estão postos de como a Terra e meio ambiente são tratados.
“Para que possamos mudar, no debate, na escuta ativa qualificada, ouvindo a sociedade que deve deter a soberania. A terra deve nos inspirar as ações, as leis que regem e o Tribunal de Contas enquanto órgão que controla as políticas públicas precisa estar atento e contribuir também neste debate em busca de uma solução para que possamos permanecer enquanto comunidade que precisa ver o meio ambiente de forma diferente”, enfatizou.
A programação foi aberta com uma mensagem da ministra do Meio Ambiente Marina Silva que fez um vídeo especialmente para o evento. Além dela, participaram da abertura o coordenador do Instituto Fé e Política no Acre, padre Mássimo Lombardi, o pastor Afonso Geber, o presidente do Tribunal de Contas de Minas Gerais, conselheiro Durval Ângelo Andrade, e a presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AC) Waldirene Cordeiro.
“O Movimento Fé e Política, no Brasil todo e a partir dos ensinamentos da doutrina social da igreja, tem se engajado muito na questão ambiental. Acho que a questão ambiental é uma questão de sobrevivência de todos os seres vivos, do ser humano. De sobrevivência do planeta”, salientou o conselheiro Durval Ângelo.
Ainda segundo ele, a Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) vai acompanhar de perto as discussões sobre o tema a partir de agora.

‘A Água e o Território’
O evento contou ainda com o painel científico “A Água e o Território”, com exposições do professor Claudemir Mesquita, que apresentou uma análise sobre a Bacia do Rio Acre e o novo regime das enchentes, e do conselheiro Ronald Polanco, vice-presidente do TCE-AC, que abordou a relação entre urbanização, ocupação dos igarapés e a responsabilidade do poder público na prevenção de riscos ambientais.
Já o painel de debates contou com a participação da doutora em Direito Sabrina Cassol, do médico infectologista Eduardo Farias, do coordenador do setor técnico-científico do Ministério Público do Estado do Acre, Arthur Cezar Pinheiro Leite, e da médica e liderança comunitária Isabel Rivasplata.
Os debatedores apresentaram diferentes perspectivas sobre os impactos sociais, jurídicos e sanitários das enchentes, além da necessidade de políticas públicas integradas e baseadas em evidências científicas.
A mediação dos trabalhos foi conduzida pela procuradora Anna Helena de Azevedo Lima Simão, corregedora do Ministério Público de Contas do Estado do Acre (MPC-AC), que ressaltou a importância da escuta qualificada e do diálogo institucional para a formulação de respostas concretas às demandas da população.

Escuta social
Um dos momentos centrais do encontro foi a Escuta Social Estruturada, espaço destinado à manifestação do público, com registro formal de demandas e compromisso institucional de devolutiva, fortalecendo a participação cidadã na construção de propostas voltadas à prevenção de desastres ambientais e à proteção das populações mais vulneráveis.
“Hoje estou aqui porque tenho esperança. A gente se pergunta como fazer, como resolver, se nós temos discussões como a da APA do Amapá que proibia construções na área e nós temos lá construções que foram feitas pelo próprio governo do estado. Não vejo outro caminho se não trazer toda a sociedade”, discursou a aposentada Raimunda
A professora aposentada Ivanilde Costa falou sobre a importância da discussão para o futuro. “Se todo mundo não botar a mão na massa como é que vai ser a vida dos nossos netos e bisnetos. É preciso estar de mais dadas e ter mais seminários.
“Nós do instituto não estamos mais nos sentindo só. Há 20 anos que estamos nessa luta. Queria parabenizar o Tribunal de Contas do Acre que para mim é a instituição mais importante do Acre”, celebrou o pastor Afonso Geber. Ele ainda propôs que outras instituições promovam debates sobre o tema com a comunidade.
No encerramento, foi realizada a leitura do Manifesto pela Soberania da Terra, documento que expressa o compromisso das instituições participantes com a proteção do território, da água, das populações vulneráveis e das futuras gerações. O público pôde apresentar sugestões ao texto, que foram incorporadas simbolicamente antes das assinaturas institucionais.
“Nossa vida depende das águas e das matas, mas hoje em dia a gente não valoriza mais o custo de uma floresta em pé. A gente conhece o valor de uma passagem aérea, de um celular, de um objeto do mercado, mas não conhece o preço de uma floresta em pé. Um ser vivo que deve ser amado e valorizado. Esse Manifesto é uma cobrança que será colocada para o poder público”, explicou o padre Mássimo.
A presidente Dulce Benício concluiu ressaltando que o Manifesto foi assinado por todos que participaram. “Não é apenas um documento formal, mas um documento para ser ativado, para ser contemplado dentro das políticas públicas que trabalham o enfrentamento das mudanças climáticas”.
A I Cúpula Climática Ecumênica do Acre consolidou-se como um espaço de reflexão, diálogo e construção coletiva de compromissos éticos e institucionais diante da crise ambiental e social evidenciada pelas enchentes recorrentes do Rio Acre, reafirmando que os eventos climáticos extremos exigem respostas estruturantes, integradas e intergeracionais.
Texto: Andréia Oliveira e Yuri Marcel














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