Ministro da Segurança nega que haja uma ordem de prisão contra Evo, apontada como suposta causa para os disparos na manhã deste domingo

O GLOBO | O presidente da Bolívia, Luis Arce, anunciou a abertura de uma investigação sobre o ataque a tiros sofrido pelo ex-presidente Evo Morales, na manhã deste domingo (27). Segundo Evo, foram feitos 14 disparos contra o veículo onde ele viajava, em um ato chamado por ele de “tentativa de assassinato” durante uma suposta operação para prendê-lo. O governo nega que haja uma ordem de prisão contra o ex-presidente, que é acusado de ter estuprado uma menor de idade há oito anos.
Em publicação na rede social X, Arce afirmou que “o exercício de qualquer prática violenta na política deve ser condenado e esclarecido”, e que “não é com a busca dos mortos que os problemas se resolvem nem com especulações tendenciosas”.
“Portanto, em resposta à denúncia do ex-presidente Evo Morales sobre um suposto ataque à sua vida, instruí uma investigação imediata e completa para esclarecer este fato”, anunciou o presidente, um antigo aliado de Evo, mas com quem hoje trava uma briga interna pelo controle do Movimento ao Socialismo (MAS), principal sigla da Bolívia.
Segundo o relato do ex-presidente à rádio Kawaschun Coca, por volta das 6h20 deste domingo, quando ele se dirigia à cidade de Shinahota, no departamento de Cochabamba, dois veículos surgiram na estrada e tentaram encurralar a caminhonete onde viajava. Em seguida começaram os disparos, registrados por um celular dentro do carro — nas imagens é possível ver os buracos de bala no vidro e o sangue na cabeça do motorista, que sofreu ferimentos leves.
— Estão atirando em nós, estão nos bloqueando; rápido, se mobilizem! — disse Evo no vídeo, segundos após o início dos disparos.
Na entrevista à rádio Kawaschun Coca, Evo disse não ter identificado os atiradores, que estavam “encapuzados e vestidos de preto”, afirmou que sua vida foi salva pela “Mãe Terra”, e responsabilizou diretamente o governo liderado por Arce de tentar matá-lo.
— O Governo falhou na eliminação legal, na eliminação política, na eliminação orgânica (…), agora a última coisa que tentou foi acabar com a minha vida, mas mesmo nisso falha — disse Evo Morales na entrevista. Segundo a rádio, foram feitos 14 disparos.
]No começo do mês, a Justiça boliviana anunciou que o ex-presidente estava sendo investigado pelo suposto estupro de uma menor de idade em 2016, quando ainda estava no poder, e teria tido um filho com a jovem, na época com 16 anos. No dia 10, ele faltou a um depoimento, alegando “falta de garantias” de que tudo ocorreria dentro do “processo legal”.
Desde então, diante da possibilidade de uma ordem de prisão, Evo tem se abrigado em seu reduto político, a região cocaleira de Chapare, onde ocorreu o ataque — apoiadores também realizam bloqueios em estradas de boa parte do país.
Na entrevista, ele sugeriu que seus passos estão sendo monitorados pelo governo e pelas Forças Armadas, mencionando que o ataque a tiros ocorreu perto de um batalhão do Exército.
— Isso foi totalmente planejado. Uma bala passou a centímetros da minha cabeça — declarou, afirmando que havia agentes do Ministério de Segurança perto da casa onde ele vive em Villa Tunari. — Isso é pior que a ditadura de [Jeanine] Añez; Lucho [Arce] é louco por roubar.
Evo também denunciou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
“Agentes de elite do Estado boliviano atacaram hoje minha vida, enquanto o Governo reativa operações conjuntas entre forças policiais, militares e paramilitares para dirigir a repressão e atacar a vida de irmãs e irmãos nos pontos de bloqueio e protesto social”, escreveu Evo no X. “Solicito que o Artigo 41 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos seja ativado devido ao risco ao direito à vida e que seja feita uma visita de trabalho urgente ao nosso país.”
Juan Ramón Quintana, aliado próximo de Evo, disse em vídeo publicado neste domingo que a comunidade internacional deve ajudá-lo a sair do país, algo que o ex-presidente nega ter a intenção de fazer.
— Não estou escondido, não tenho motivo para fugir, não tenho motivo para me esconder. Não sou um criminoso para me esconder — declarou à rádio Kawaschun Coca.
Em nota, o vice-ministro de Segurança, Roberto Ríos, disse que não há ordens de prisão contra Evo, assim como uma operação para capturá-lo, pondo em xeque a versão de que teria sofrido um atentado: para ele, a população tem “maturidade suficiente” para entender o que aconteceu neste domingo, deixando no ar a hipótese da ação ter sido encenada.
Além das batalhas judiciais sobre a denúncia de estupro de menor, Evo Morales também trava uma luta contra a Justiça relacionada à eleição presidencial do ano que vem: no ano passado, o Tribunal Constitucional confirmou que ele não poderá se candidatar ao cargo, e o ex-presidente tem convocado marchas e protestos para pressionar as autoridades por uma nova decisão e pela liberação para concorrer em agosto de 2025.


?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>