“13 de maio não é dia de comemoração, é dia de luta”, destaca ativista do Movimento Negro

A fala de Santiago foi proferida numa manifestação realizada nesta quinta-feira, 13, no Centro de Rio Branco.

Após 133 anos da abolição da escravatura, 13 de maio de 1888, a realidade da população negra do Brasil ainda é cruel. Com a pandemia, as desigualdades se agravaram, ficando ainda mais aparentes. 

Segundo a socióloga Maria Santiago de Lima, que é diretora de formação do Movimento Negro Unificado no Acre (MNU/AC), o povo negro não tem o que comemorar.

Maria Santiago é diretora de formação do Movimento Negro Unificado do Acre

“O 13 de maio não é um dia de comemoração, é um dia de luta, é um dia de denúncia contra o racismo, em relação à população negra. Hoje, nós estamos na rua reivindicando o direito à vida, contra a fome, pelo auxílio emergencial de R$ 600, até o fim da pandemia, e o fora Bolsonaro”, afirmou a ativista.

A fala de Santiago foi proferida numa manifestação realizada nesta quinta-feira, 13, no Centro de Rio Branco. O ato de luta contra o racismo e contra o governo de Jair Bolsonaro (ex-PSL) também foi promovido em todos os estados da federação. 

Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a diferença de rendimentos entre trabalhadores brancos e pretos aumentou em 2019, atingindo o maior patamar desde 2016. A renda média mensal dos pretos equivalia a 55,8% da dos brancos. 

Outro dado que aponta a predominância do racismo, ausência de políticas públicas e desigualdades no país é o do 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública: em 15 anos, a proporção de negros no sistema carcerário cresceu 14%, enquanto a de brancos diminuiu 19%.

Desarticulação do movimento quilombola

Para a quilombola, mestra em Educação e integrante da Rede Mulher Ações do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas da Universidade Federal do Acre (Neabi-Ufac),  Cláudia Marques, a Lei Áurea foi uma tentativa de contraposição a luta quilombola no Brasil. 

“Foi uma tentativa de desarticulação da luta quilombola no Brasil. Pois, os quilombos estavam organizados, invadindo as fazendas. Os fazendeiros escravistas estavam apavorados, pois naquele momento os negros eram maioria no Brasil, e seria uma questão de tempo para a tomada de poder do povo negro, assim como aconteceu no Haiti. Então, a Lei Áurea foi uma estratégia para barrar a luta quilombola naquele momento”, salienta Cláudia. 

A professora observa ainda que como a lei não trazia a normatização de como se daria a libertação da população negra, o 13 de maio foi apenas falácia. “A princesa Isabel declarou que o negros estaram livres, mas livres para ir para onde, já que não houve nenhuma forma de retratação e equiparação a essa população, que não tinha mais seu território, seus vínculos culturais e familiares. Para onde eles iriam embora? De modo que muitos escravizados, optaram por continuar nas fazendas a saírem por um país extremamente hostil”, explica Cláudia.

Cláudia Marques é quilombola do povo Gurutubano do Norte de Minas Gerais

O Brasil foi o último país da América a acabar com a escravização do povo negro. Ao longo de mais de três séculos, foi o maior destino de tráfico de africanos no mundo, quase cinco milhões de pessoas.