Os problemas atuais que perpassam o cotidiano da vida democrática vêm se tornando cada dia mais em grandes obstáculos para os diferentes grupos na sociedade.
Sociedade esta, aliás, que segue com características fortemente individualizadas onde o mercado por meio do capital controla sempre mais os rumos do processo social democrático.
O cenário para a vida dos trabalhadores, nesse contexto se traduz cada dia mais em dramáticos reflexos para a sobrevivência e reprodução social desses grupos cujo lema para muitas das famílias se tornou: “Vivendo Um Dia de Cada Vez”. Sim um dia para ser trabalhador, outro para ser trabalhador terceirizado, um dia para não se ter trabalho, outro para viver com um trabalho sem direitos sociais importantes, ou seja, um verdadeiro estado de insegurança, cujos rumos é o grande capital financeiro quem comanda ou como propõe Ulrich Beck em sua obra “A Sociedade de Risco”.
Desta forma o lema “um dia de cada vez” vai se tornando a oração diária de muitos trabalhadores que na lida de cada novo dia reproduz uma cena já conhecida para a realidade de muitas sociedades da America latina que precisam lidar diariamente com as fortes desigualdades sociais conjugadas as necessidades também urgentes de consolidar uma vida política e socialmente democrática. Deste modo, com o capital controlando cada vez mais o processo social, “viver um dia de cada vez”, vai se tornando o ritmo impresso pelas formas da gestão pública em âmbito federal, enquanto políticas de desenvolvimento estatais para uma sociedade que tem manifestado outros projetos como necessidade, por exemplo, de justiça social.
As reformas propostas pelo atual governo federal vêm sendo colocadas dia após dia no Senado e na Câmara Federal por meios das comissões e de outros recursos administrativos tentando imprimir uma legalidade que não tem a legitimidade dos trabalhadores em seus diferentes alcances. Reformas de cada dia para uns, enquanto para outros, insegurança social de cada vez.
Em um cenário tão expressivo de contradições, os paradoxos são eminentes: De um lado um país que tem sua literatura infantil alinhada entre as melhores do mundo com destaque para as escritoras contemporâneas Lygia Bojunga e Ana Maria Machado escritoras premiadas com a medalha “Hans Cristian Andersen” uma espécie de Nobel da literatura infantil que foi atribuído pelo International Board on Books for Young People (IBBY) pelo conjunto das obras dos melhores escritores e ilustradores do mundo. O Brasil com presença marcante da nossa literatura infantil foi premiado por apresentar textos ficcionais e poéticos de alta qualidade estética visto pelo mundo como genuínas peças literárias. Outros autores não menos importantes mais de grande relevância como Marina Colasanti, Roseana Murray e Bartolomeu Campos Queiroz entre outros dão o brilho que eleva a literatura infantil brasileira a um degrau mais alto entre as melhores do mundo.
De outro, o grande aumento de crianças e jovens cumprindo medidas socioeducativas como fato cada vez mais recorrente, dilatando os temas da questão social, isso sem falar do aumento da violência doméstica praticada contra crianças no interior das suas casas, trazendo a tona outro problema social igualmente marcante, isso sem falar da crise de violência que se sucedeu nos presídios evidenciando a falência do sistema prisional brasileiro, o qual tem em sua população carcerária um alto índice de população juvenil. Isso nos faz pensar em uma obra escrita por Loic Wacquant “As Prisões da Miséria” de fato não será isto que está sendo encarcerado nas prisões do sistema público brasileiro, não será a miséria que está sendo privada da vida civil dentro dos presídios de norte a sul deste país. Se assim o for, então penso que as verdadeiras reformas deveriam ir mesmo era em direção às escolas, aos presídios, as periferias desassistidas de infra-estrutura e equipamentos urbanos, verdadeiras reformas em direção ao sistema hidro-sanitário da população, na saúde por meio de hospitais com serviços de qualidade, no esporte com infra-estrura de olimpíadas por todo o país, nos sistemas de transportes públicos de qualidade, na cultura, valorizando a arte, a música, o teatro e as mais variadas expressões da cultura popular que morre sufocada por não receber apoio de políticas públicas de cultura, aliás, quando oferece é de uma forma avarenta.
Por fim, entende-se que as verdadeiras reformas para conter um caos social futuro mais agudo nesta já tão sofrida sociedade que encena diariamente os espetáculo da miséria pelas suas ruas, periferias e favelas deveriam ir de fato em outra direção e não na direção de limitar os direitos sociais da grande maioria de trabalhadores deste país já tão assolados pelas políticas econômicas em favor do grande capital, de privatizar o patrimônio público cuja boa parte da população de baixa renda se serve e aumentar a contribuição da previdência social permitindo com que as novas gerações envelheçam de forma precária e excluída. Se assim, o for, talvez a esperança esteja nas crianças de hoje beneficiadas por uma rica cultura literária infantil a nos consolar, capaz que é de aguçar as mentes das novas gerações ainda infantes para novos desafios de convivências sociais mais justas e equitativas, mas o que fazer se elas ainda são apenas crianças, resta apenas esperar que elas cresçam e construam um novo mundo para si e para suas gerações. Por ora resta uma intrigante constatação, a de que o potencial para consolidar uma sociedade mais democrática está nas mentes e na imaginação da infância brasileira. Neste caso, devemos seguir a risca a idéia de “Um dia de cada vez”.
Márcia Meireles de Assis – Dra em Ciências Sociais – Professora do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH – Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre – UFAC. [email protected].


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