Não interessa mais o lugar, o veículo de comunicação. Tudo se espera e tudo se manipula…tamanha é a vastidão do território tóxico que se encontra atualmente as redes sociais, O que importa aqui são: as narrativas, as crueldades, as violências e, mais uma vez venho aqui conjecturar sobre uma postagem, e os comentários na internet referentes a prefeita Socorro Néri, exercendo a minha sororidade e o meu lugar de fala, como mulher , artista e fiquei chocada e tenho total repúdio sobre o ocorrido. Segue o comentário ipsi literis “Ela vai ganhar o que Maria ganhou na Capoeira piroca““
Essas são palavras de um internauta.
No seu livro o Segundo Sexo de Simone de Beauvoir ela cita “mostrou que ser homem ou ser mulher consiste numa aprendizagem. As pessoas aprendem a se conduzir como homem ou como mulher, de acordo com a socialização que receberam. Não necessariamente de acordo com o seu sexo”. Podemos então duvidar da sociabilidade desta criatura que elegeu um “bostejo útil” para disseminação de ódio a prefeita.
É oportuno aqui dizer que ao sexo feminino constantemente nos é velada e negada a satisfação sexual; então o “cidadão de bem” pune mulheres ( pontualmente com a característica do seu poder, sua condição fálica), então segue-as punindo com um “sexo sujo”, então concluem com este seu comportamento que nós mulheres, não temos o direito ao tesão, ao gozo, ao prazer, ao controle disso. E não obstante e o que piora o teor da ofensa, infelizmente ( mulheres exercendo cargo na administração pública), quando em uma vacância de cargo público, essa mulher se torna uma vitrine de cristal, mais quebrável, mais suscetível no caso aqui , a prefeita da cidade de Rio Branco Socorro Neri. Pois, assim se entendem os opiniosos que ela será punida sexualmente por ser ou não candidata ao pleito em 2020.
Em uma fase que os comandos das redes sociais atualmente tendem a proibir comentários, censurando alguns internautas a comentar em postagens…me causa um estranhamento, e olha só; o comentário chulo, ofensivo e ordinário não é punido, pelo contrário, é ovacionado (curtido), por diversos internautas.
Há uma necessidade criminosa em punir mulheres. É o comportamento naturalizado da masculinidade tóxica exposta sem vergonha, sem critérios , sem pudores, caracterizado pelo fenômeno da atualidade, covardemente aplicado pelo cyberbullying, que “ é um conceito utilizado para definir agressões, xingamentos, constrangimentos no meio digital, em geral é mais devastador que o bullying tradicional, uma vez que sua atuação não está restrita a barreiras físicas e seus agressores se sentem protegidos por trás das telas. “
É comum direcionar às mulheres que estão à frente dos cargos este pensamento, este momento de pré julgamento. Você é mulher, já vem um fracasso possibilitado…comumente personificada e atribuído à frase (ela é complicada).
A luta é tão desigual, não existe a equidade para a condição feminina em relação aos homens no mundo, e isso piora quanto a condição de mulheres em cargos importantes, de alto escalão na administração pública ou privada, afinal, 4 % das mulheres ganham os super salários dos altos executivos neste país, repetindo 4%. Exatamente neste país que vive uma onda de ódio gratuito, tudo cabe nesta lógica patriarcal, ora, imagina-se, se dará importância de questionar e discutir um sistema tão opressor que há séculos e eras oprimem/invisibilizam as mulheres. Se nem o sistema capitalista foi banido, haja vista algo tão afirmativo e nocivo como como o machismo? Percebam que a primeira coisas que eles fazem é nos nominar de loucas, malucas.
Faz parte dessa cruel necessidade do patriarcado é Desdenhar sempre sobre a nossa capacidade de realizar funções que foram naturalizadas como profissão masculina.
Vou contar uma história, uma metáfora sobre Hipátia, ou Hipácia “mulher grega, matemática, que foi assassinada.
Foi uma filósofa neoplatônica grega do Egito Romano. Foi a primeira mulher documentada como tendo sido matemática.Como chefe da escola platônica em Alexandria, também lecionou filosofia e astronomia.
De acordo com a única fonte contemporânea, Hipátia foi assassinada por uma multidão de cristãos depois de ser acusada de exacerbar um conflito entre duas figuras proeminentes em Alexandria: o governador Orestes e o bispo de Alexandria, Cirilo de Alexandria.
Kathleen Wider propõe que o assassinato de Hipátia marcou o fim da Antiguidade Clássica, e Stephen Greenblatt observa que o assassinato “efetivamente marcou a queda da vida intelectual em Alexandria”
Nós mulheres quando vivenciamos o” estar no poder”, toda uma estrutura é modificada, as quebras de paradigmas são atemporais, posso dizer aqui, fazendo uma comparação… “assassinato” metaforicamente ou literalmente, também pode referendar toda essa violência contra as mulheres e não tem como não relacionar este comportamento aos elevados números de feminicídios no Estado do Acre, que está nas estatísticas, entre as dez capitais mais perigosas para ser mulher….não existe a possibilidade de não relacionar este comportamento nocivo nas redes sociais, de extrema violência e perversidade; não somos somente vítimas, somos alvo.
As regras do jogo agora estão mudando, você ouvir que a sua possível satisfação sexual possa vir a ser a sua punição, dói, mas passa, a gente dá rasteira nessa estupidez. E, quanto aos xingamentos…eles virão, eles estão aí…mas e daí? Fica aparente a involução de quem o pratica. Não vamos desistir.E seremos prefeitas, deputadas, vereadoras, senadoras, governadoras, conselheiras, ouvidoras, chefas de departamento, secretárias na gestão,professoras, companheiras, amigas, nutricionistas, mecânicas, artistas, feirantes, enfermeiras, médicas, advogadas, bio[ologas, cientistas sociais, antropólogas, geógrafas, historiadoras, pesquisadoras, psicólogas, filhas, mães, avós… Nossa meta, que já foi saga e agora é conquista em comum atualmente é irmos para além da sobrevivência.
Por todas as mulheres , resistir é condição de sobrevivência. Vivemos em um eterno estado de que “não há festa, há revolução”.
*Produtora cultural e acadêmica de artes cênicas – UFAC


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