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sexta-feira, 31 de julho de 2026
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Vacinação no século XXI

Por Guilherme Pulici*

A história da vacinação nos transporta ao final do século XVIII, mais precisamente 1796, quando a varíola assolava a humanidade e um médico inglês, Edward Jenner, oriundo de Berkeley, observou que pessoas que ordenhavam vacas não contraíam a varíola, caso tivessem contraído a forma animal da doença. Ousado, Jenner inoculou o pus da mão de uma ordenhadora, que manifestava varíola bovina, num garoto saudável. Esse menino de apenas 8 anos contraiu a forma branda da varíola e ficou curado. Quase 1 mês após Jenner inoculou, no mesmo rapaz, material retirado de uma pústula de um indivíduo portador de varíola humana e verificou que o rapaz não manifestou a doença, ou seja, havia adquirido imunidade à mesma. Não é à toa que a palavra vacina vem do latim vaccinus, de vacca (vaca), origem relacionada a história que acaba de ser relatada. Mas, com essa grande descoberta veio também a hesitação popular, o medo generalizado e a desinformação que culminaram, em nosso país, com a famigerada Revolta da Vacina em 1904, com sede na capital federal do nosso país (na época o Rio de Janeiro) quando o povo se revoltou contra a lei que instituía a vacinação obrigatória contra a varíola.

Cento e quinze anos depois, cá estamos nós em pleno século XXI e com o advento da tecnologia e toda a informação ao nosso alcance, ainda há pessoas desinformadas sobre a eficácia e proteção que só as vacinas podem oferecer. Milhões de vidas foram salvas com a descoberta do cientista britânico e essa oportunidade que nos foi dada de nos proteger e proteger nossos entes queridos não pode, e não deve, ser desperdiçada. Claro que a vacinação não pode ser imposta, talvez o grande erro de 1904 que não podemos repetir. Mas campanhas de vacinação com o devido esclarecimento sobre os benefícios advindos da imunização e conscientização da população em todo o território nacional são mais que necessárias, são urgentes! Os resultados da campanha de vacinação contra a influenza (gripe) têm resultados pra lá de insatisfatórios: quem ainda não ouviu algum conhecido dizer que não se vacina contra a gripe pois “sempre que toma a vacina adquire a gripe”? Trata-se de um equívoco colossal: a vacina contra a gripe é sintetizada com fragmentos do vírus e, portanto, não há com o desenvolver a doença! A vacina contra a poliomielite praticamente erradicou a doença do planeta, restando apenas poucos nichos da doença principalmente no continente africano.

Bom recordarmos que algumas vacinas são contraindicadas para indivíduos com doenças crônicas, supressão imunológica de diversas naturezas (pós-transplante, sob quimioterapia, sob tratamento com medicações que deprimem o sistema imune) ou até simplesmente pela idade (muitas vacinas não são aplicadas em bebês ou só podem ser recomendadas após determinada idade). Por respeito a elas temos a obrigação moral – e talvez devesse ser também legal – de protegê-las. A irresponsabilidade e falta de cidadania dos adversos das vacinas foi o grande motivo para o ressurgimento do sarampo em países europeus e nos Estados Unidos. Doença viral imunoprevenível já aos 12 meses de idade, muitos desses pais desinformados não vacinaram seus filhos e viram os mesmos padecerem perante essa enfermidade tão desagradável e perigosa: foram 117 mil mortes em 2017 por sarampo no mundo, principalmente em crianças menos de 5 anos.

Poucas descobertas científicas salvaram mais vidas, e com baixo custo, que as vacinas. Voltando ao sarampo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 21,1 milhões de mortes foram evitadas entre 2000 e 2017 devido a vacinação, uma queda de 80%! De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) a vacina contra o sarampo se tornou um dos melhores investimentos em saúde pública.

As razões pelas quais as pessoas escolhem não vacinar são complexas; um grupo consultivo de vacinas para a OMS identificou que a dificuldade de acesso a vacinas e falta de confiança são as principais razões subjacentes à hesitação. Os profissionais de saúde, especialmente os das comunidades, continuam sendo os conselheiros e influenciadores mais confiáveis quando o assunto é vacinação e devem ser apoiados para fornecer informações confiáveis sobre as vacinas. Por fim, reforço aos leitores que a H1N1 já nos rodeia e que, em breve, a vacina trivalente estará disponível no SUS para menores de 5 anos, idosos e demais grupos de risco. Os que não se enquadrarem nesses grupos ou faixa etária poderão buscar imunização na rede privada a um custo acessível.

*Jornalista