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quarta-feira, 1 de julho de 2026
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Uma luta pela identidade, visibilidade e espaço na sociedade: a vida de uma mulher transexual


GUILHERME LIMES


Ao longo dos últimos anos, as mulheres estão a todo vapor em uma luta intensa para ganhar espaço e respeito em diversos âmbitos sociais. O movimento feminista já conquistou inúmeros títulos dentro da sociedade, seja na educação, no campo profissional, e isso (e muito mais) graças às inúmeras campanhas por igualdade de gênero.


Além disto, há uma outra realidade sangrenta enfrentada diariamente por elas. O Brasil, há oito anos ocupa o primeiro lugar, a nível mundial, com o maior número de assassinatos por transfobia. Uma mulher transexual luta redobradamente para ocupar espaço diante a sociedade que a discrimina, a violenta, a sexualiza, a satiriza.


Em 2016, Bhunna Rubby Rodrigues, aos seus 29 anos, foi agredida pelo seu ex-namorado. A Justiça do Acre determinou a aplicação da Lei Maria da Penha no caso. Na época, este seria apenas o quarto caso no Brasil, no qual a Lei foi utilizada como medida protetiva a uma mulher transexual.


Hoje, Rubby Rodrigues tem 33 anos de idade. Atua como ativista na comunidade LGBTQI+, no Ministério Público Estadual, MPE-AC, e também como consultora de beleza autônoma individual.


Rodrigues disse que desde criança se interessava por brinquedos que a sociedade considera desenvolvidos para meninas. “Desde criança sempre lembro do interesse em brinquedos de meninas, e isso causava muitos comentários. Na minha adolescência quando aflorou a sexualidade, passei a me ver diferente de outras pessoas”.


Em uma fase de sua vida começou a questionar sua orientação sexual. “Quando comecei a sentir atração por meninos comecei a refletir sobre isso e cheguei a me reconhecer como homossexual”. Mais tarde, passou a não identificar mais sua homossexualidade, além de não se encontrar no corpo masculino.


A ativista também diz o quão conflituoso é viver diariamente numa sociedade preconceituosa, repleta por discriminação acerca da transfobia. “É impossível para uma pessoa transexual não passar por nenhum tipo de discriminação. Diante de um mundo em que não se vê como pessoas que forjam uma identidade ou que querem parecer isso ou aquilo, nós vamos sempre passar por situações de preconceito”.


O ativismo
O valor da militância é um fator contribuinte para a causa, é uma base de resistência por todas as situações nas quais se tornam conflituosas cotidianamente, seja lutando pelos seus direitos e também pela inclusão. De acordo com Rubby, a importância do ativismo é principalmente trazer a visibilidade.


“É mostrar para a nossa sociedade que não estamos aceitando o lugar onde queriam nos colocar. É mostrar que podemos estudar. Nós podemos lutar por nossos direitos. Nós podemos exigir nossos direitos. Por isso, a importância de se ter uma militância. Porque a partir desse momento são exemplos que são replicados. Pois há pessoas que possam estar sendo vítimas ou oprimidas por alguém”.


Inclusão
Um dos principais fatores que corroboram para a exclusão de mulheres transexuais pela dificuldade no preconceito estrutural de que as enxergarem como mulheres. “As pessoas se baseiam muito pelo órgão sexual. Se esquecem que ser mulher é uma essência. Ser mulher é uma construção. E não uma moda”.


Lei Maria da Penha
Como dito anteriormente, Rubby foi violentada por seu ex-companheiro a vassouradas. E conseguiu ser amparada pela Justiça por meio da medida protetiva prevista na Lei Maria da Penha, há quatro anos. Inclusive foi determinada pela Vara de Proteção à Mulher da Comarca de Rio Branco, que o agressor mantivesse distância da vítima e também de seus familiares e amigos. “A revisão da Lei foi de grande importância. Pois já se passavam por etapas de agressão da sociedade, existiam também situações que aconteceram da mesma forma que aconteceu comigo. E além da identidade feminina sendo agredida, estava sendo morta. Não apenas pela questão da transfobia, mas pela violência doméstica”.


Aceitação

Segundo, a consultora de beleza, ela se sente muito privilegiada por nunca ter passado por preconceitos com a família e amigos. “Sempre agradeço muito a Deus, ao Criador, porque eu tive esse grande privilégio de ter o apoio familiar, amigos verdadeiros que estão próximos a mim. Que não colocam valores sobre isso. Temos que colocar em nossas cabeças que a transexualidade não é algo de outro mundo. Algo satânico, do inferno. Hoje, estamos vivemos numa cultura em transformação, mas não se está desconstruindo algumas situações quanto a pessoas transexuais. Nós, transexuais, também estamos transformando o pensamento da sociedade, para que as pessoas parem de nos ver externamente, e passem a nos ver por dentro. Independente de ser transexual, cis-gênero, homossexual”.


Ao finalizar a entrevista, Rubby deixa uma mensagem para todas as mulheres: “Uma mulher que vive e luta para existir, nunca pode desistir”.


Brasil, país que mais mata transexuais e travestis
De acordo com os últimos dados levantados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais, Antra, no ano de 2019, o número de assassinatos diminuiu comparando-se a anos anteriores. Porém, o Brasil ainda continua ocupando o lugar no mundo de maior risco a violência e morte contra transexuais e travestis. O maior índice foi em 2017, com 172 mortes por transfobia.