Nada menos criativo do que o uso de ovos e tomates para fins culinários. O mundo mudou, os costumes evoluíram, os métodos se sofisticaram – o futuro chegou. Ovos e tomates se constituem atualmente nos mais sofisticados instrumentos para a obtenção de bons resultados nos protestos políticos.
Em primeiro lugar, uma breve remissão histórica, para refrescar a memória acerca do instrumental usado nos protestos ao longo do tempo. Os mais antigos registros indicam que a pedra tenha sido a primeira arma usada em protestos políticos. Tenho certeza de que vem daí a expressão “Idade da Pedra”.
De fácil aquisição e custo algum, a pedra foi usada ao longo dos anos, séculos e milênios como instrumento eficaz de protesto, por abater, por vezes, de forma contundente o alvo. Mas, convenhamos, o homem das cavernas, que atirava pedras nos governantes indesejados, ainda não tinha o refinamento civilizatório para perceber a diferença entre o protesto por contundência e o protesto moral. A contundência, conquanto produza um efeito direto e visível, pode provocar reação indesejada de repúdio contra o atirador, diante da imagem do sangue e/ou do cadáver.
Instrumento típico da Idade da Pedra, a pedra não podia ter outro destino, senão o lixo da história. Além do que a pedra não é apenas um instrumento de protesto, mas arma letal. Como sabido, a marcha da civilização exige fácil distinção entre ambas. Num protesto civilizado, não se pretende abater o adversário a pedradas, mas derrotá-lo moralmente, expondo-o à risadaria e ao escárnio públicos.
A história andou. A Idade da Imagem – que também é conhecida como Idade Mídia – chegou e com ela a necessidade de identificação de instrumentos que produzissem rápidos efeitos visuais. O primeiro deles foi o fogo, cujas imagens impactantes guardam-se por muito tempo na memória. Até hoje, nos protestos de rua, o fogo é utilizado em barricadas, pela queima de pneus para a interrupção de vias de tráfego ou no incêndio de latões de lixo. Fácil perceber a razão pela qual as melhores imagens dos protestos do tipo “Fora Temer” são aquelas registradas quando chega a noite e os manifestantes começam a por fogo em tudo o que encontram pela frente.
O fogo não é considerado uma forma civilizada de protestar pelos danos que causam aos bens públicos e privados. E também por só atingir bens físicos, nunca chegando ao alvo real do protesto – a figura do dirigente indesejado. Numa imagem grosseira, nunca se viu nenhum presidente ou qualquer político alvo de protesto sendo incendiado durante uma de suas aparições em público. Primeiro, porque produziria uma imagem apavorante e repulsiva. Segundo, porque o protesto político não visa à eliminação do adversário, mas à sua conversão em objeto de ridículo.
Um parêntese, antes que me acusem de infidelidade aos fatos. Claro que estou, sim, me lembrando do coquetel molotov, uma das mais brilhantes criações da história moderna. Mas o molotov, bom que se diga, é uma arma, antes de ser instrumento de protesto, mesmo produzindo espetacular efeito visual. Foi inventado na Segunda Guerra, quando os russos atiraram de aviões bombas incendiárias sobre os finlandeses, em 1940. Questionado sobre a maldade, o primeiro-ministro russo Viatsheslav Mólotov saiu-se com uma explicação safada, a de que a missão era enviar alimentos aos finlandeses. Um militar finlandês rebateu: “Se vocês nos mandarem alimentos, nós preparamos um coquetel”. Pouco tempo depois os finlandeses usavam as garrafas dos “alimentos” russos para a fabricação dos molotov.
Paulo José Cunha é professor, jornalista e escritor.


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