Quem fez a última edição do Enem pode ter se surpreendido ao encontrar um mesmo texto-base conectando um bloco de questões —da 6 à 10— no caderno de linguagens, códigos e suas tecnologias. O modelo, chamado de “testlet”, foi uma das principais novidades da prova de 2025.
Diferentemente do formato tradicional do Enem, nessa metodologia, um conjunto de perguntas é interligado e parte de um único texto ou imagem. No Brasil, o modelo não é inédito e já aparece em vestibulares próprios de algumas universidades, como USP e UERJ.
Para professores ouvidos, o formato valoriza a interpretação e a leitura crítica. “A gente tem que pensar na geração que está fazendo o Enem hoje. É uma geração que, estatisticamente, lê menos e passa mais tempo em telas”, afirma o diretor do curso pré-vestibular Oficina do Estudante, Luccas Zillig. Segundo ele, a proposta também ajuda a desconstruir a ideia de que basta decorar conteúdos para se sair bem na prova.
No bloco aplicado em 2025, o texto-base era a crônica “De próprio punho”, de Ana Elisa Ribeiro. A partir dela, cinco questões exploravam interpretação de ideias e análise de recursos linguísticos.
De acordo com o professor Paulo Scherrer, diretor do Gama Pré-Vestibular, o desempenho dos candidatos nessas questões ficou dentro do esperado, com taxa de acerto cerca de 4 pontos percentuais acima da previsão. Segundo ele, ao analisar itens de linguagens desde 2020, o comportamento das questões acompanhou o padrão esperado de acertos conforme o nível de dificuldade estimado pela TRI.
Além disso, para Scherrer, embora classificadas como de média a alta dificuldade, as perguntas não tiveram desempenho atípico por estarem no formato de testlet. “Não muda tanto em relação às outras. É mais um estilo de questão ao qual os alunos vão precisar se acostumar”, afirma.
Procurado, o Inep, responsável pelo exame, afirmou que o uso de testlets permite variar os estímulos apresentados ao participante, ao trabalhar com textos mais longos em contraste com itens baseados em trechos curtos. “A diversificação de estímulos pode aumentar o engajamento do participante, reduzindo a chance de respostas mecânicas”, disse o instituto.
Segundo o órgão, o formato também possibilita a apresentação de textos mais próximos de sua integralidade, aproximando a atribuição de sentido de situações reais de leitura e do processo de escolarização.
Questionado sobre a manutenção ou ampliação do modelo nas próximas edições do exame, o Inep não respondeu. Apesar disso, professores dizem que o modelo faz parte de uma tendência que o Enem já vem consolidando e podem avaliar habilidades diferentes do candidato.
“Eu classifico como algo positivo, porque precisamos mostrar para os alunos que o que as universidades querem são pessoas críticas, que leiam e saibam interpretar um texto”, diz Zillig. Para ele, a tendência não se restringe ao exame nacional e as provas têm se tornado cada vez mais contextualizadas e interdisciplinares.
Estratégias
Para o diretor executivo das unidades escolares do Bernoulli Educação, Marcos Raggazzi, a gestão do tempo ganha importância extra nos testlets. Segundo ele, o ideal é estabelecer um ritmo de leitura que permita compreender bem o texto-base sem comprometer o andamento da prova.
O educador aponta que acreditar que a resposta de uma questão depende da anterior é uma armadilha comum nesse modelo. “Se travar em uma pergunta, a melhor estratégia é seguir para as demais do bloco e voltar depois”, orienta.
Na preparação, a recomendação é treinar com conjuntos de questões baseadas em uma mesma situação-problema. De acordo com Raggazzi, isso ajuda a desenvolver a habilidade de localizar informações relevantes e aumenta a segurança do candidato diante do formato.
Para evitar releituras constantes do texto-base, ele sugere destacar palavras-chave, dados, gráficos ou trechos que possam servir de referência para diferentes itens do bloco.
Zillig também recomenda ampliar o repertório de leitura, inclusive fora da zona de conforto do estudante, e acompanhar o noticiário. “Muitas das coisas que aparecem no vestibular estão acontecendo no mundo naquele momento. É importante ter uma visão mais ampla de temas e contextos”, afirma.
FONTE: FOLHA DE S. PAULO


?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>