Um desenho aqui, uma frase ali, um símbolo, mais outro desenho e um corpo cheio de tatuagens. Essa poderia ser a descrição de muitas pessoas amantes da tinta na pele. Mas além do gosto pela pinturas e desenhos corporais existem outras características que unem um universo de pessoas que fazem das tatuagens uma forma de registrar emoções e até mesmo de exprimir a dor.
Desde os primórdios da humanidade, o homem utiliza símbolos e desenhos como forma de se expressar, apesar da escrita e da linguagem oral, há quem prefira esta maneira de registrar momentos, sensações e emoções. É assim com Luana Dantas, 30 anos, ela conta que começou a se tatuar as 19 anos, atualmente somam 16 espalhadas pelo corpo.
Ela conta que a maioria das tatuagens que fez, foram em momentos de tensão, irritabilidade e de grande dor emocional. Segundo ela em algumas ocasiões chegou ao estúdio sem saber o que queria, apenas precisava se tatuar.
“Para mim era uma terapia, quando eu começava a escutar o barulho do motorzinho, parece que estava tirando toda dor que estava sentindo, quebrava a dor emocional e eu me concentrava naquilo, era música para os meus ouvidos, aliviava, quebrava a tensão”, conta.
Em uma delas, Luana registrou a frase “Sed liberta nos a malo, Amém” que significa; mas, liberta nos do mal amém. De acordo com a jovem, este foi um dos momentos que ela estava passando por grandes problemas pessoais, e decidiu escrever a frase.
“Quando eu era menor, eu sentia raiva, tipo, com relacionamento, sempre tive namorados imaturos, alguns abusivos, porque era nova, então eu fazia tipo uns cortes tipo ‘sai dor, sai dor, sai, sai’, mas não era nada assim ‘ah vou me cortar’ era só uns riscos. Aí foi quando eu descobri que dava pra tatuar”, relata.
Ironia do destino: Diagnóstico de doença autoimune põe fim a era das tatuagens
No início deste ano, Luana recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla, uma doença autoimune, e que inclui nas recomendações médicas evitar fazer tatuagem.
“É a única coisa que eu não posso fazer. Pode trabalhar, pode beber, ter filho, pode fazer tudo, só não pode tatuar. Eu pensei, poxa poderia me privar de qualquer coisa, mas foi justamente me privar do que eu mais gosto”, lamenta.
A proibição se justifica pelo fato de ser um procedimento invasivo na pele, a tinta ao penetrar a pele, os anticorpos entendem como uma ameaça e na tentativa de combater os invasores podem ocorrer danos a outros órgãos.
E por ironia do destino, ela diz que os médicos afirmaram que, caso ela queira apagar alguma tatuagem, o procedimento que é feito a laser é permitido e não há nenhuma contra indicação. “Eu pensei, está de deboche?” brinca a jovem.
Clientes preferem registrar momentos e sentimento, diz tatuador.
Talhes Souza que atua profissionalmente há 14 anos, relata que o padrão comportamental do cliente mudou ao longo dos anos. Ele conta que até um determinado período existia nos estúdios amostras das figuras mais comuns, a pessoa escolhia o que queria desenhar no corpo. Atualmente o cliente explica o que quer registar e a partir daí o desenho começa a tomar forma.
“Os meus clientes, geralmente tatuam porque querem registrar um momento que estão vivendo, as vezes a pessoa está passando por um momento que ela quer marcar algo e ela faz um desenho que simbolize aquele momento, geralmente ela tem em mente o que quer mais não consegue passar para o papel, e a gente conversa e elabora”, conta.
Segundo o profissional, isso acaba aproximando tatuador e cliente que conta um pouco da sua história, ao externalizar o desejo por determinados desenhos, frases e figuras em geral.
“Acontece muito isso, a pessoa chega fala um pouco da sua história, e acaba se tornando uma coisa mais próxima entre o tatuador e o cliente. A tatuagem mudou, hoje é algo mais íntimo e mais próprio, é um sentimento, um momento”, diz, Souza.
Para Talhes, sua profissão vai além de somente deixar marcas na pele das pessoas, é uma oportunidade de ouvir e proporcionar momentos prazerosos para quem procura na arte de riscar a pele, eternizar sentimentos.
“Tem clientes que dizem: precisam se tatuar para se reiniciar, para se renovar. As vezes a pessoa tá precisando conversar, muitas vezes elas só precisam de alguém que as ouçam, hoje faltam muito isso, alguém para te ouvir, as vezes você nem quer nada da pessoa, só quer que ela te ouça, e no estúdio acontece muito isso, a gente conversa e a pessoa se sente melhor, aliviada” relata.
Conexão entre o corpo e a mente
Para o psicólogo João Paulo Silva, isso ocorre porque existe uma interligação do corpo e da mente. “A mente e o corpo se entrelaçam desde o processo de desenvolvimento cognitivo, quando a gente começa a enxergar o mundo, a gente começa a enxergar o mundo propriamente dito através do nosso corpo, ele representa esse conhecimento que desenvolvemos com o mundo”, destaca.
O profissional explica que os dois estarão sempre ligados e o ser humano busca forma de satisfazer, seja ao pintar o cabelo, fazer maquiagem ou se tatuar são formas de buscar satisfação pessoal.
“Há momentos que nós buscamos e encontramos coisas que nos satisfazem enquanto seres humanos. Pintar meu corpo através de uma tatuagem, é encontrar na tatuagem uma válvula de escape, um equilíbrio ou reflexão, isso é de pessoa para pessoa, são escolhas diárias de vida de acordo com nossos conteúdos e condições para nossa vidas”.
O psicólogo Kissinger Cândido explica que as tatuagens são uma forma de expressão artística no próprio corpo, modificando-o através de uma técnica específica, que vem sendo utilizada ao longo do tempo por diferentes culturas e povos.
“As pinturas corporais são, por assim dizer, a somatória de uma gama simbólica individual, coletiva, social, religiosa e espiritual, que tem por princípio homenagear, cultuar, expressar e manifestar apreço, carinho, amor, eternizar um momento, seja ele de dor, sofrimento ou alegria”, explica.
Segundo Cândido, é uma forma de registrar alguma necessidade. “Muito embora, em décadas passadas, por influências exercidas desde a Idade Média, as tatuagens tenham sido banidas e discriminadas; gerando, com isso, preconceitos, nos dias atuais, elas vêm sendo cada vez mais usadas por diferentes pessoas, independentemente de suas posições sociais, religião, profissão”, enfatiza.
“Liberdade da minha agonia”
Luana define as tatuagens como sendo uma forma de libertá-la da agonia. “É a liberdade da minha agonia, estou em agonia, estou em aflição, vou lá eu vou escutar o barulho do motor eu vou sentir aquilo ali, isso aqui é minha liberdade, é meu mantra”, diz.
Sobre a recomendação médica de evitar as tatuagens ela disse: “e agora vou ter que escolher outra coisa, eu passei muito tempo procurando e agora eu perdi tudo, é chato, por isso me dá vontade de chorar” disse em meio às lágrimas.









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