Depois dos haitianos, subitamente o Acre passou a viver uma nova onda imigratória. As intempéries, o desgoverno, as guerras e o medo turbinaram, mais uma vez, a chegada de senegaleses, mexicanos e afegãos ao Estado, porta inicial da longa viagem até o Sul e Sudeste, especialmente Rio Grande do Sul e São Paulo. Em menos de um mês uma leva de mais de 100 pessoas, entre homens e mulheres, aportaram em Rio Branco, mais precisamente na Rua Mário Maia do bairro Defesa Civil, onde os imigrantes encontraram pessoas solidárias que ajudam com alojamento e alimentação.
A situação tinha se acalmado por dois motivos: o fechamento definitivo do abrigo mantido pelo Governo do Estado no bairro Irineu Serra e pelo descalabro econômico que tomou conta do Brasil. O velho abrigo, dizem nas redes sociais, não será reativado e, mesmo com a economia capenga, o Brasil parece ser um oásis em meio ao deserto de desgraças com que são obrigados a conviver na terra natal.
Assim, após os haitianos, o Acre virou palco do drama dos senegaleses por assim dizer, já que são a imensa maioria entre os imigrantes que ultimamente procuram o Estado para iniciar a vida no Brasil. Mas há pessoas de Gana e do Gâmbia. Colombianos e peruanos já passaram pelo abrigo.
O repentino aumento no aporte de imigrantes mobilizou as redes sociais. Uma campanha foi deflagrada neste fim de semana no WhatsApp para arrecadar colchões e alimentos, o que tem dado certo. “Nós da Cáritas da Igreja Santa Inês, estamos sempre colaborando”, disse o mecânico Charles Monteiro, que levou uma cama box ao abrigo.
“Faço o que posso. Mantenho dois galões de 20 litros de água geladinha todo dia para eles”, relatou o paranaense Clóvis Moreira, dono da Sorveteria e Mercearia Divino Sabor, localizada exatamente em frente a um dos abrigos.
Devido ao grande número de recém-chegados, a família de Clóvis decidiu facilitar a implantação de mais uma casa de apoio. Essa ação é levada a efeito pela irmã de Clóvis, Ednéia, cuja frente da residência passa o dia lotada de imigrantes. Ele ficam a maior parte do dia transitando entre uma casa e outra, sentados nas cadeiras fornecidas pela família e voluntários. “Todo dia chega mais gente”, relatou Ednéia, que está disponibilizando seu contato telefônico (999257326) para interessados em doar colchão, alimento e água.
As histórias são parecidas. Todos chegam ao Acre por caminhos semelhantes –sempre a velha rota dominada pelos coiotes até chegar a Assis Brasil, depois Brasiléia e por fim, Rio Branco. É só na capital do Acre que os imigrantes conseguem algum descanso. “Eles querem ir pra São Paulo”, disse, em inglês, o afegão Rahmat Wali Sahiby, que luta por visto de refugiado e serve como intérprete do grupo, já que ninguém fala o português e pouquíssimos compreendem o espanhol. Rahmat dava aulas de inglês no interior do Afeganistão mas chegou a ser jogador profissional de criket, um esporte pouquíssimo conhecido no Brasil. Ele diz querer jogar em algum time brasileiro –se encontrar.
Os novos imigrantes odeiam serem fotografados ou filmados.
Ao OPINIÃO o professor Rahmat usou a expressão “afraid” para definir o que eles sentem diante de uma câmera. “Eles receiam que aparecer demais vá atrapalhar a jornada deles no Brasil”, disse o afegão. Ele disse que há ao menos um mexicano recém-chegado ao abrigo que deixou o país norte-americano perseguido pelas máfias que dominam o tráfico internacional de drogas no México.
OPINIÃO tentou contato com a secretaria estadual de Direitos Humanos mas não obteve êxito na manhã deste sábado, 4. Segundo informações que circulam pelas redes sociais, o Governo do Estado teria declarado que não há o que ser feito no caso, já que o abrigo público foi extinto e não há recursos para novas ações.
Há três anos, o Estado chegou a decretar calamidade humanitária devido à chegada de milhares de haitianos. O governador Tião Viana facilitou a viagem dos imigrantes até São Paulo, levando o governo daquele Estado a retaliar o Acre. Uma secretária paulista chegou a denominar Tião Viana de “coiote” e foi condenada esta semana pela justiça brasileira.


?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>