Segunda Opinião: Pistoleiro do esquadrão tinha tremores e crise de abstinência quando ficava dias sem matar

Por Tião Vitor

O ano é 1999. O Acre encerra mais de três décadas de violência que vitimou líderes de trabalhadores rurais, como Wilson Pinheiro e Chico Mendes, que se espalhou pela cidade através das execuções sumárias, que criou listas semanais dos que seriam vitimados e que resultou na pistolagem exercida por homens que, por dever profissional, deveriam agir dentro da lei. É nesse ano que ocorre o auge do combate a um modelo de crime organizado que se infiltrou nas instituições e deixou de pé o estado democrático de direito.

1999 marca, ainda, a mudança do poder político no Estado. A partir de então, a atuação das forças de segurança pública foi voltada para solucionar crimes que, até então, eram tidos como insolúveis e para desarticular as organizações que comandavam o crime. É nesse ano que o ex-deputado federal e ex-coronel da Polícia Militar e preso. Junto com ele, dezenas de homes, a maioria policiais civis e militares, também vão para a cadeia, um marco na história recente do Acre.

À frente de muitas dessas ações estava um delegado recém-saído da academia de Polícia Civil. Era Emylson Farias, o primeiro titular da Delegacia de Combate ao Crime Organizado (Deco), que atuava em parceria com Grupo de Atuação Especial na Prevenção e Repressão às Organizações Criminosas da Procuradoria-Geral de Justiça (Gaeco-Proc), órgão do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC).

Nesta segunda-feira, 19, o programa Segunda Opinião, publicado em vídeo no site do Jornal Opinião (www.jornalopiniao.net), traz entrevista exclusiva com Emylson Farias dando seguimento a uma série de entrevistas com as principais personagens envolvidas no combate a aquele modelo de crime organizado que imperava no Acre naqueles anos.

Na entrevista, Emylson revela, entre outras coisas, que um dos pistoleiros mais atuantes naquele período revelou em depoimento colhido por ele, que tinha crise de abstinência no dia em que não matava alguém.

“Entre os depoimentos que foram colhidos, essa pessoa dizia que quando ficava mais de um dia sem matar alguém, ela sofria tremores, tinha crise de abstinência”, revelou Farias.

O delegado não quis revelar o nome do pistoleiro, mas a reportagem conseguiu descobrir que se tratava de Raimundo Alves de Oliveira, o Raimundinho. Ele matou, entre outros, em 1997, o delegado da Polícia Civil Walter Ayala e participou, no Piauí, com Hildebrando, do assassinato de José Hugo Alves Júnior, o Mordido. Hugo havia matado o irmão de Hildebrando, o vereador de Senador Guiomard, Itamar Pascoal, desencadeando o crime que ficou conhecido como o “Caso da Motosserra”.