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Sanções, boicotes e embargos: o que há contra a Rússia

Na terça-feira (8), o presidente americano Joe Biden anunciou um embargo sobre o petróleo russo. Desde a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro, a Rússia virou alvo de retaliação por países do Ocidente. Essa retaliação tem ocorrido principalmente na forma de sanções contra governo, empresas e indivíduos russos. Há também um movimento de boicote de empresas que restringiram ou suspenderam voluntariamente suas atividades no país.

O número exato de sanções é incerto, mas já passa da casa do milhar. Segundo o dashboard da Correctiv, uma organização alemã de jornalismo independente, foram 1.274 sanções entre 22 de fevereiro e a manhã de 8 de março de 2022. Já a base de dados Castellum.AI – que monitora medidas de um escopo maior de países – conta mais de 2.700 sanções contra a Rússia no mesmo intervalo.

Neste texto, reúne e resume as medidas que foram tomadas em retaliação à Rússia.

Sanções contra indivíduos


As sanções contra indivíduos respondem pela maior parte das medidas tomadas por governos de países do Ocidente contra a Rússia. Nas duas bases de dados consultadas pelo Nexo, elas representam cerca de 80% de todas as sanções.

Sanções contra indivíduos costumam assumir a forma de congelamento de ativos, revogação de vistos e restrições de viagem. Ou seja, países barram a entrada de pessoas específicas e também impedem que eles coloquem ou tirem dinheiro do país.

Em meio à guerra na Ucrânia, os alvos têm sido, no geral, políticos e grandes empresários russos – os últimos são conhecidos como oligarcas, por suas fortunas e por terem enriquecido rapidamente durante a privatização russa na década de 1990, logo após o colapso da União Soviética. As medidas atingem também o círculo próximo de Vladimir Putin, presidente russo.

Desde o início dos conflitos, diferentes países anunciaram sanções sobre diferentes indivíduos. A União Europeia, o Canadá e a Suíça, por exemplo, sancionaram os 351 membros do parlamento russo que votaram para reconhecer a independência de Donetsk e Luhansk, províncias separatistas pró-Russia no leste ucrianiano. Os EUA, por sua vez, decidiram sancionar apenas líderes do parlamento russo.

Alguns indivíduos membros do governo russo sancionados por países do Ocidente são:

  • Vladimir Putin, presidente russo, que teve ativos congelados na União Europeia, nos EUA, no Reino Unido, na Suíça, no Japão e no Canadá.
  • Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, que também teve ativos congelados nos mesmos países que Putin.
  • Sergei Shoigu, ministro da Defesa da Rússia, que teve ativos congelados e proibição de viagem declarada nos EUA, na União Europeia, na Suíça e no Canadá.
  • Aleksandr Bortnikov, chefe do FSB (Serviço Federal de Segurança) da Rússia, que sofreu as mesmas sanções que Sergei Shoigu.
  • Valery Gerasimov, general e chefe das Forças Armadas russas, que está barrado de entrar nos EUA, no Canadá e no Japão, países onde também teve ativos congelados.

Entre os oligarcas, há sanções contra:

  • Alexei Mordashov, homem mais rico da Rússia (com fortuna avaliada em US$ 19,8 bilhões); acionista principal da Severstal, maior siderúrgica e mineradora do país; e acionista do Rossiya Bank, considerado o banco usado pelo alto escalão do governo russo. Ele foi sancionado pela União Europeia e teve iate apreendido pela polícia italiana.
  • Mikhail Fridman, fundador do Alfa Bank, o maior banco privado da Rússia. Ele também foi sancionado pela União Europeia.
  • Petr Fradkov, chefe do Promsvyazbank, um dos maiores bancos privados russos. Ele teve ativos congelados e viagens barradas por União Europeia, Canadá e Reino Unido.
  • Boris Rotenberg, um dos donos da SMP, empresa do setor de gasodutos. O magnata do gás foi alvo de sanções dos EUA, do Reino Unido e do Canadá.

Sanções financeiras

Além de indivíduos, as sanções também têm como alvo instituições financeiras da Rússia. As medidas virtualmente isolaram o sistema financeiro russo do Ocidente. Isso significa que o volume de dólares e euros entrando no país declinou fortemente, ao mesmo tempo que empresas e investidores retiram moeda estrangeira da Rússia.

Ou seja, a oferta de moeda de dólares e euros na Rússia caiu, levando a uma depreciação aguda do rublo, a moeda local russa. Após a invasão da Ucrânia, a moeda russa perdeu 30% de valor frente ao dólar em dez dias.

O Banco Central da Rússia foi alvo de sanções por EUA, União Europeia, Canadá, Reino Unido e Japão, que basicamente impediram a autoridade monetária de movimentar seus ativos nesses locais. Na prática, isso significa que as reservas internacionais russas no exterior ficaram bloqueadas, impedindo que sejam usadas para tentar estabilizar o rublo.

Além do Banco Central, diversos bancos russos foram alvos de sanção. Entre eles está o Sberbank, que tem controle estatal e é o maior banco do país. A principal medida adotada contra a instituição é a proibição de operações nos EUA, o que ajuda a limitar significativamente a entrada de dólares na Rússia e pressiona ainda mais o rublo. O Sberbank também anunciou em 2 de março sua saída do mercado europeu.

A lista de bancos russos afetados por sanções dos EUA e de países europeus é longa. Além do Sberbank, ela inclui:

  • VTB, segundo maior banco russo, que tem controle estatal
  • Alfa Bank, maior banco privado da Rússia
  • Bank Otkritie, um dos maiores bancos comerciais do país, também privado
  • Rossiya Bank, banco usado pelo alto escalão do governo russo
  • Promsvyazbank, ligado ao oligarca Petr Fradkov
  • VEB, banco de desenvolvimento análogo ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) brasileiro

Há também outras instituições financeiras que foram atingidas que atuam como provedoras de crédito importantes em setores como agricultura e infraestrutura.

As sanções podem ser resumidas a congelamento de ativos no exterior e proibição de transações. Ou seja, os bancos russos não só ficaram barrados de novas transações com empresas e instituições financeiras dos países que impuseram as sanções, como também não conseguem movimentar seu dinheiro nesses lugares. Foi criada uma espécie de isolamento do sistema financeiro russo.

Por fim, alguns desses bancos – como VTB e VEB – foram excluídos do Swift, sistema que facilita pagamentos e transferências entre bancos de diferentes países.

Sanções contra empresas e setores


As sanções internacionais contra a Rússia também atingiram empresas de diferentes setores. Um deles é o de viagens e turismo. Companhias aéreas russas ficaram barradas de voar em vários países da Europa e nos EUA. Companhias aéreas dos países que impuseram as sanções também ficaram proibidas de fazer voos à Rússia.

Nos EUA, as sanções sobre empresas russas são majoritariamente voltadas para barrar acesso ao crédito. Ou seja, determinadas firmas estão impedidas de conseguir empréstimos de bancos no mercado americano. A lista de empresas russas sancionadas pelo governo dos EUA inclui:

  • Gazprom, estatal que é a maior produtora de gás natural da Rússia
  • Gazprom Neft, subsidiária da Gazprom e uma das maiores produtoras e refinadoras de petróleo do país
  • Transneft, estatal russa que é uma das maiores empresas de oleodutos do mundo
  • RusHydro, gigante do setor de hidrelétricas da Rússia
  • Grandes empresas de telecomunicações e transporte

Já o Reino Unido suspendeu operações de empresas russas na bolsa de valores de Londres e baniu navios russos de atracarem em portos britânicos. O governo de Boris Johnson também sancionou empresas importantes do setor bélico russo – como produtoras de tanques, mísseis, navios e aeronaves militares –, impedindo negócios de firmas britânicas com essas empresas.

Na União Europeia, medidas similares foram tomadas para restringir exportações de produtos militares para a Rússia. Exportações de bens como navios e aparelhos de comunicação foram limitadas. Empresas russas foram retiradas das bolsas de valores de países membros do bloco. Grupos russos de comunicação também foram banidos.

Outra medida tomada por países ocidentais foi restringir a exportação de bens de tecnologia de ponta para a Rússia. Isso inclui semicondutores – ou chips eletrônicos –, que estão escassos no mundo todo.

Boicotes


As medidas citadas acima dizem respeito a sanções oficiais impostas por governos contra alvos específicos ligados à Rússia – seja empresas, indivíduos ou órgãos públicos.

Mas há também movimentos de boicotes promovidos voluntariamente por empresas multinacionais, que estão restringindo, suspendendo ou encerrando definitivamente operações na Rússia. Os boicotes acontecem por diferentes motivos: em cumprimento a sanções, por receio de serem afetadas pelos conflitos ou por temor de impactos reputacionais.

Ao todo, mais de 60 multinacionais limitaram de alguma forma seus negócios na Rússia até 8 de março. A lista vem crescendo a cada dia.

Abaixo, resume algumas delas.

Setores com boicotes


PETRÓLEO E GÁS

A Rússia é uma importante produtora e exportadora de petróleo e gás natural. Embora o setor não tenha sido diretamente sancionado pelos países do Ocidente – pelo menos não até 8 de março –, empresas como BP, Shell, ExxonMobil, Equinor e TotalEnergies anunciaram venda de ativos e suspensão de novos investimentos no país. Em alguns casos, a compra de petróleo cru russo também foi paralisada.

MONTADORAS

General Motors, Toyota, Ford e Volkswagen estão entre as grandes empresas do setor automotivo a anunciarem a suspensão da exportação de carros à Rússia e/ou a paralisação de fábricas no país. A lista também inclui Volvo, Jaguar e BMW. A Renault, que tem importante fatia do mercado russo, anunciou a suspensão temporária da produção na fábrica de Moscou por problemas no fornecimento de insumos – a empresa não se pronunciou além disso.

TECNOLOGIA E REDES

Diversas empresas do setor anunciaram diferentes tipos de restrições nas operações na Rússia. A Meta (ex-Facebook), por exemplo, dificultou o acesso na Europa a conteúdo produzido por estatais de mídia russas. O Google proibiu companhias ligadas ao governo russo de anunciarem via publicidade da empresa, e restringiu a operação da ferramenta Google Pay. O Google também desmonetizou canais de estatais russas no YouTube. A Apple, por sua vez, parou de vender seus produtos no país. TikTok, Twitter, Netflix e Spotify também aplicaram restrições.

AVIAÇÃO E TRANSPORTE

Na aviação, Boeing, Airbus e a brasileira Embraer anunciaram a suspensão de novas vendas e prestação de serviços para companhias aéreas russas. Isso significa que serviços de manutenção e suporte técnico deixaram de ser prestados. Empresas de transporte marítimo também restringiram suas operações.

CARTÕES DE CRÉDITO

No sábado (5), Visa e Mastercard – gigantes do mercado de cartões de crédito – anunciaram a suspensão das operações na Rússia, barrando novas transações por cartões emitidos no país. No domingo, a American Express também anunciou medida análoga. A bandeira chinesa UnionPay tem aparecido como alternativa para as operações de compras com cartão.

VAREJO

Grandes empresas de equipamento esportivo, como Adidas, Puma e Nike, suspenderam o funcionamento de suas lojas na Rússia. Ainda na área de vestuários, a Levi Strauss & Co, Zara e marcas de luxo como Gucci, Chanel e Prada paralisaram operações comerciais no país. A Ikea, varejista sueca, também fechou lojas. O grupo francês de alimentos Danone anunciou a suspensão de novos investimentos no país.

CULTURA

Empresas de distribuição de filmes – como Warner Bros, Paramount Sony Pictures e Disney – suspenderam novos lançamentos na Rússia. O filme “Batman”, da Warner, por exemplo, não será exibido no país por ora. Já bandas internacionais como Green Day, The Killers e Iggy Pop cancelaram shows na Rússia. O concurso televisivo europeu de música, o Eurovision, impediu a participação de representantes russos na edição de 2022.

ESPORTES

A Rússia também sofreu represálias no mundo esportivo. A Fifa – entidade máxima do futebol mundial – barrou as equipes russas (nacionais e clubes) de todas as competições internacionais de futebol, impedindo a seleção do país de jogar a Copa do Mundo do Qatar, no fim de 2022. No automobilismo, a Fórmula 1 rompeu contrato com a Rússia, que deixará de receber corridas da modalidade. Já o Comitê Paralímpico Internacional decidiu barrar atletas da Rússia e de Belarus de participarem dos Jogos Paralímpicos de Inverno, que começaram na sexta-feira (4).

Embargos contra a Rússia


As sanções contra a Rússia estão sendo aplicadas em larga escala desde o início da invasão da Ucrânia. Na terça-feira (8), elas assumiram uma nova forma: a de embargo.

O embargo é uma das modalidades de sanções econômicas, e consiste em barrar importações ou exportações de um ou mais produtos específicos. No limite, o embargo pode se aplicar sobre todo o comércio com um país, como feito pelos EUA sobre Cuba desde o início dos anos 1960. Em quase seis décadas, as legislações americanas em torno do bloqueio à ilha foram alteradas em algumas ocasiões, ora apertando, ora afrouxando o embargo, que continua valendo.

Na terça-feira, o presidente dos EUA, Joe Biden, anunciou um embargo americano sobre o petróleo e gás natural russos. Ou seja, o país deixará de comprar produtos energéticos com origem na Rússia. A decisão, por ora, é unilateral.

A União Europeia, por sua vez, anunciou um plano para reduzir a dependência de gás natural russo. A ideia é diminuir em dois terços a importação de gás do país. Não se trata, no entanto, de um embargo, uma vez que as compras continuam acontecendo.

Em resposta às medidas de países do Ocidente, o governo russo ameaçou fechar um gasoduto importante ao abastecimento da Europa. A ameaça ocorre em meio ao inverno europeu, momento de pico de consumo do produto, que é usado na calefação e em usinas termelétricas.

O embargo americano sobre o petróleo e gás russos é um novo capítulo nas retaliações econômicas ao país governado por Putin. Esses produtos são centrais na balança comercial russa. Restrições às receitas desses setores podem ter impactos significativos sobre a economia russa. Para o restante do mundo, a limitação das compras de petróleo russo pode significar um novo impulso no preço internacional do barril, que já está em alta – gerando mais inflação ao redor do planeta.

Entre os produtos de exportação da Rússia que não foram alvo direto de restrições, há os fertilizantes, que não foram barrados, por ora, pelos países do Ocidente. A própria Rússia, no entanto, recomendou suspender exportações na sexta-feira (4).

O Brasil é dependente de fertilizantes importados e tem a Rússia como principal fornecedora. Na segunda (7), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento brasileiro confirmou que houve um embarque de fertilizantes russos na sexta-feira (4) em direção ao Brasil.

nexojornal