Desde criança escuto falar que “brasileiro tem memória curta”. Por mais que eu questione esses ditados, devo concordar com essa afirmação. Nós brasileiros temos esse jeitinho meigo de esquecer das coisas com muita rapidez. Talvez pelo volume de informações que cresce demasiadamente, talvez por desídia nossa mesmo, não sei. O fato é que, realmente, temos a memória curta. E é por isso que escrevo a coluna de hoje, para que fique registrado um caso que não pode ser esquecido.
Para quem não acompanhou os noticiários na época, o professor doutor Luiz Carlos Cancellier, então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi preso pela Polícia Federal, em 14 de setembro de 2017, no âmbito da Operação Ouvidos Moucos, que era conduzida pela delegada Érika Mialik Marena, ex-coordenadora da Operação Lava Lato em Curitiba.
Cancellier foi acusado de ser o chefe de quadrilha em esquema de corrupção que teria desviado mais de R$ 80 milhões da UFSC.
Foi determinada a sua prisão temporária, sendo que ele foi algemado, acorrentado pelos pés, levado a uma prisão de segurança máxima onde ficou recolhido por 30 (trinta) horas até ser solto após a impetração de um Habeas Corpus. Além disso, foi determinado o seu afastamento da Universidade, onde lecionava há mais de 40 (quarenta) anos.
18 (dezoito) dias depois de sua prisão, se jogou do sétimo andar do Beira-mar Shopping de Florianópolis. Em seu bolso, havia um bilhete escrito: “a minha morte foi decretada quando fui banido da Universidade”. Pouco mais de um ano depois de seu suicídio, o inquérito aberto pela Polícia Federal foi arquivado, ante a ausência de documentos, testemunhas, ou qualquer outro fato que incriminasse o professor.
O reitor Cancellier foi exposto no noticiário como se fosse chefe de organização criminosa. Segundo a investigação da Polícia Federal, ficou apontado que a quadrilha supostamente teria agido entre 2008 e 2017, porém, Cancellier assumiu a reitoria da UFSC apenas em 2016. A Polícia Federal não explicou quem teria comandado o esquema durante os seus 8 (oito) anos iniciais, e nem por qual motivo nenhum dos reitores anteriores foram sequer investigados.
A Polícia Federal, à época, fez seu trabalho tão bem que depois teve que desmentir a informação de que havia sido desviado R$ 80 milhões. Tal valor dizia respeito ao total dos repasses entre os anos de 2008 e 2016 para o programa de ensino a distância, alvo da investigação. E até hoje a Polícia Federal não sabe informar qual a exata quantia dos supostos desvios.
Mesmo com a fragilidade das acusações, o reitor Luiz Cancellier (que, pasme, não tinha sido ouvido nenhuma vez pela delegada Érika Mialik), já estava condenado pelo Tribunal da Opinião Pública. De tanta humilhação que sofreu, da prisão ao afastamento da Universidade, não teve mais forças para continuar vivendo e tirou sua própria vida.
Muitos poderiam chama-lo de fraco, como vi em um grupo de WhatsApp dias atrás. Mas só quem passa por um escárnio desse sabe como é. Imagine só: você é inocente, não cometeu nenhum ato ilícito, mas é exposto na mídia como bandido, chefe de quadrilha, sendo proibido de frequentar um dos lugares que você mais ama na vida, que é o seu trabalho.
E tudo isso por causa de uma operação atrapalhada, midiática, irresponsável, e sem nenhum objetivo legítimo aparente.
Peço ao leitor, humildemente, que sempre quando ver uma matéria na mídia acerca de operações policiais, se questione: a operação já foi concluída? Será que os acusados fizeram o que a polícia afirma? O que existe de concreto com relação à acusação?
Nunca podemos esquecer que a convicção sem provas de uma delegada, confirmada pela Justiça e pelo Ministério Público Federal, transformou um professor de uma Universidade Federal em chefe de quadrilha. E isso lhe custou a vida. Desejo que jamais se repita neste país um caso como esse. Que sempre reflitamos sobre essa tragédia antes de julgarmos antecipadamente alguém que esteja sendo investigado.
Descanse em paz, e ciente de sua inocência, professor Cancellier.


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