“Quero vender o que planto, o que cultivo. A situação do homem do campo, de quem tira da terra o seu sustento, está cada vez mais difícil”, a fala de lamento, do senhor Gilberto Gomes Guimarães, 61 anos, produtor rural do Polo Agroflorestal Wilson Pinheiro, traduz a situação de muitas famílias que vivem na zona rural e que não estão podendo comercializar verduras, frutas, legumes e hortaliças em feiras livres de bairros da capital acreana.
A proibição é relacionada ao Decreto Nº 7.849, publicado no dia 1° de fevereiro pelo governo do Estado, que considerou a atividade como não essencial, considerando a recomendação do Comitê de Acompanhamento Especial da Covid-19, que mudou a classificação de todas as regionais para o Nível de Emergência (Bandeira Vermelha).

Atualmente, 44 feiras livres são realizadas em bairros de Rio Branco, o que beneficia mais de 400 famílias. Mas, o que garantia a sobrevivência e a manutenção de suas necessidades básicas, agora é prejuízo, como relatou Antônia Nonata Severino Guimarães, de 54 anos, produtora e presidente da Associação de Moradores do Polo Wilson Pinheiro.
“Produzo verduras, legumes e hortaliças, que vendo na Vila Betel. Porém, estamos proibidos de comercializar na cidade devido à pandemia. Se não retirar o meu produto daqui, posso perder tudo o que plantei e colhi, e o que posso colher futuramente, assim como está acontecendo com muitos produtores. Tenho que sustentar minha família, e a renda que tenho é somente daqui. Não queremos sacolões, queremos continuar trabalhando”.
Nonata relatou sobre as péssimas condições dos ramais que dão acesso ao polo, o que também prejudica o escoamento da produção. “Além de não poder comercializar o que cultivamos, ainda tem a questão das péssimas condições dos ramais, que nesse período o acesso piora por conta das chuvas. Não se mais para quem recorrer em relação a todos esses problemas que enfrentamos aqui. Já tem produtor que não está conseguindo sustentar sua família”.
A produtora rural, Lilian da Luz Elias, 50 anos, moradora do polo Geraldo Fleming, destacou que 20 produtores daquela região vendem seus produtos em feiras livres, e diz que não faz sentido a proibição imposta pelo decreto governamental.
“Está ficando cada vez mais complicado, porque não estamos vendendo os nossos produtos, e se não vender, a maioria da nossa plantação estraga. Não faz sentido essa proibição, pois vamos na cidade e a maior parte do comércio está aberto, com aglomeração até em alguns estabelecimentos. Será que a gente é ameaça para que as pessoas se contaminem com à pandemia do coronavírus, sendo que tomamos medidas de higiene para atender nossa clientela. Não podemos ficar sem trabalhar, sem levar renda para casa”.
Retorno das feiras
De acordo com o Decreto Nº 7.849, as feiras livres na capital só poderão funcionar no Nível de Alerta (Faixa Laranja). Nesta condição, seguindo orientações da Secretaria Municipal de Agricultura Familiar (Safra), a comercialização de gêneros alimentícios de produção rural deve seguir os protocolos sanitários e distanciamento seguro entre as barracas, com atendido pague e leve, drive thru e delivery. Nesta segunda-feira, 22, uma nova avaliação será feita pelo Comitê Acre Sem Covid-19 para verificar se o Estado sai ou continua na Faixa Vermelha.
Indicação
Na quinta-feira, 18, o vereador Francisco Piaba (DEM) apresentou na Câmara Municipal de Rio Branco, indicação ao prefeito Tião Bocalom, para que voltem as feiras livres nos bairros da capital acreana.
“Visitei os polos Wilson Pinheiro e Dom Joaquim, na Transacreana, e os polos Geraldo Fleming e Hélio Pimenta, localizados na rodovia AC-10. Minha preocupação é com todas as famílias que não estão podendo vender suas verduras, frutas e outros produtos. O poder público tem que estudar um meio para eles possam voltar a trabalhar. Conversei com alguns produtores rurais que me relataram que estão passando necessidade, digo fome, na forma mais explicita da palavra. A situação não está fácil. Peço encarecidamente que os governantes olhem com carinho para quem os que vivem da agricultura familiar”.
Piaba enfatizou que é necessário a intervenção do poder público, por meio da Secretaria Municipal de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Econômico (Safra), para buscar uma solução para o problema.
“A pretensão desta indicação é para que os órgãos competentes elaborem estratégias e defina um Plano de Ação que permita o retorno dessas feiras o mais rápido possível, de modo que se tenha boas práticas, respeitando as recomendações sanitárias, com vistas à diminuição das perdas econômicas e sociais. E que o poder público promova as condições mínimas para o seu funcionamento, por meio de recomendações higiênico-sanitárias juntos aos feirantes, consumidores e público em geral. Portanto, com a reabertura dessas feiras, reduzirá de modo significativo o fluxo de pessoas nos mercados e supermercados de Rio Branco, e, consequentemente, a circulação do vírus”, diz um dos trechos da Indicação do vereador.
Consumidores
Na capital, as feiras se concentram principalmente nos bairros Santa Inês, José Augusto, Adalberto Sena, Cohab do Bosque, Base, Universitário III, Tucumã, Vila Betel, Sobral, Calafate, Floresta, Conjunto Bela Vista, Vila Ivonete, Palheiral, João Eduardo (Quatro Bocas), Seis de Agosto, Vila Verde (Transacreana), Tancredo Neves, Cidade Nova e na Gameleira. Esses locais, importantes espaços de comercialização de produtos oriundos da zona rural, além de ajudar na renda do produtor, possuem uma cliente fiel.
O funcionário público, João do Nascimento, morador do bairro Floresta, destacou que sempre comprou nas feiras livres. “Prefiro comprar verduras e frutas na feirinha. Mas, como estão proibidas nos bairros, estou comprando no supermercado. Não vejo a necessidade de proibirem os produtores de vender na rua. Não existia aglomeração por aqui, como ocorre em outros lugares. Todos respeitavam o distanciamento. Fico triste por ver a situação dessas famílias. São batalhadores, pessoas simples que dependem dessa renda”.
Verduras, legumes e frutas em estoque
A produtora Elida Hilário Guimarães, de 53 anos, moradora do Polo Agroflorestal Hélio Pimenta, Estrada de Porto Acre, comentou que parte do seu estoque está armazenada na varanda de sua casa. Sem poder vender seus produtos, ela teme perde a mercadoria. “Para não perde tudo que foi cultivado, vendo aqui em casa mesmo, para os vizinhos. Muitos produtores estão passando pela mesma situação. Alguns já perderam boa parte do que plantaram. Queremos uma resposta das autoridades; que olhem pelas pessoas que moram na zona rural e que precisam sobreviver do que a terra oferece”.
Feira online
Com a queda nas vendas em mais de 90%, desde o início da pandemia, ocasionando impactos econômicos negativos, o governo do Estado auxilia produtoras rurais, por meio do Projeto Sisa+, apresentando a alternativa de vendas online. A loja virtual oferece verduras, frutas, legumes e diversos produtos artesanais. A plataforma atende pelo website cdsafeirasisa.acreppp.org ou pelo aplicativo de mensagens WhatsApp no número (68) 98422-9880. As entregas podem ser feitas em domicílio ou por meio de sistema drive thru.
No entanto, para Antônia Nonata Severino presidente da Associação de Moradores do Polo Wilson Pinheiro, essa alternativa não é viável para todos os produtores, e que não beneficiou boa parte dos que realmente precisam. “Não sei se ainda estão utilizando esse sistema de venda. O assistencialismo tem que agregar todos que dele necessita. Esperamos que uma solução seja tomada o mais prevê possível para que possamos voltar a nossa rotina. Ainda continuamos trabalhando nas lavouras, cuidando do que plantamos, esperando que logo possamos escoar a produção. Somos trabalhadores, batalhadores. E, como salientei antes, queremos tirar o sustento do suor do nosso rosto”.



















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