GUILHERME LIMES
Ainda que em meio ao contexto de pandemia do coronavírus, a morte de George Floyd, em Minneapolis nos Estados Unidos, foi o estopim para paralisar mundo. Floyd foi brutalmente assassinado ao ser asfixiado por um dos quatro policiais estadunidenses que o abordaram, após o associarem a um criminoso devido sua tonalidade de pele. A vítima era um homem negro. Com isso, os protestos nos Estados Unidos se tornaram intensos, e inúmeras pessoas, inclusive artistas famosos no mundo, foram as ruas protestar pela vida de Floyd.
Em poucos dias desde a intensidade dos protestos estadunidenses, os brasileiros se sentiram incentivados e foram as ruas em luta pela vida de pessoas pretas que também foram assassinadas, e também pela democracia no país. Pela vida de pessoas injustamente assassinadas todos os dias. Negros. Por João Pedro, de 14 anos de idade, baleado dentro de sua própria casa, durante uma operação policial no Rio de Janeiro.
O debate sobre o movimento negro tornou um dos assuntos mais comentados na internet. Inúmeras temáticas foram levadas a tona para que pessoas se informassem sobre o racismo; sobre o que se trata um local de fala para pessoas pretas; sobre nomenclaturas racistas; sobre o colorismo. Levantaram-se inúmeras correntes, tags dentro das redes sociais para levar a informação antirracista.

Assim um debate começou-se a ser questionado por pessoas que foram registradas como parda no Brasil.
Em entrevista com a poetisa do movimento negro no Acre e escritora, Hellen Lirtêz, 19, foi-se questionada quanto ao desmembramento de pardos no país.
“Sou descendente de indígenas, paraguaios e de uma linhagem de pessoas negras. Inclusive a bisavó do meu bisavô, foi liberta da escravidão aos 12 anos de idade. A minha família materna é por inteira negra retinta. E por causa do meu pai, que é considerado um homem branco, não que ele seja… Nasci um pouco mais clara, mas também sou uma pessoa escura”, frisa Lirtêz.

A escritora disse que não tinha ideia de que era uma mulher negra, pois antes de se reconhecer, durante toda sua infância, falavam expressões que a deixavam desconfortável. No qual mesmo tendo a tonalidade pele escura, por ter as madeixas lisas, não a enquadravam, nem mesmo ela, como uma pessoa negra, justamente, por apresentar mais traços europeus. “Falavam que eu tinha os olhos grandes, mas que meu nariz era pequeno e diziam: “Você deu muita sorte!”. Soando que os traços negros poderiam ser feios”.
Sou pardo ou negro?
Durante o período colonial, inúmeras mulheres negras e indígenas eram estupradas por portugueses. A miscigenação no Brasil foi originada por mulheres que sofriam abuso sexual, enquando as mantinham como escravas sexuais de senhores de engenho. Assim, algumas crianças nasceram com a tonalidade de pele branca, como as dos próprios estupradores; outras nasciam com a tonalidade pele escura, entretanto um pouco mais clara, incluindo alguns traços dos europeus. Estas crianças eram mais fáceis de serem inclusas socialmente.
“Eram estupros de índias, eram estupros de negras. Então nós temos uma população muito miscigenada. E a nossa miscigenação surgiu de um estupro muito grande.”, complementa Lirtêz ao darmos ênfase aos acontecimentos travados na história do país.

Mais tarde, houve o momento de eugenia no Brasil, conhecido como branqueamento populacional. No qual as autoridades nacionais incentivaram e facilitaram a entrada de imigrantes no país. Entre eles, principalmente, mais portugueses, além de italianos e alemães. Este processo “corroborou” ainda mais para miscigenação no país.
Assim mais crianças negras com tonalidade de pele mais clara passaram a nascer. Nasciam com mais traços europeus a negroides, além da tonalidade de pele. Isto facilitava que fossem mais aceitas socialmente, ainda que naquela época, por carregar uma tonalidade de pele mais escura, se comparada aos brancos, esta pessoa ainda sofria racismo. Aliás, até os dias de hoje sofrem de forma indireta.
Logo quando os pretos começaram a serem “inclusos”, com o fim da abolição da escravatura, em 1888, no qual, o Brasil havia sido um dos últimos países no mundo a aderirem a liberdade para os negros (E vale frisar que não fora por consentimento humanitário da Princesa Isabel, e sim por impulsos socioeconômicos e de estratégia política), a origem da denominação parda começou a nascer para denominar pessoas miscigenadas destes estupros. Por tanto como o governo não soube como lidar com a situação que havia surgido, então criaram o termo “pardo” como uma intermediação entre descendências brancas e negras. Entretanto, o “pardo”, mesmo que não exista, designava a pessoas afroindígenas ou afrodescentes, ou seja, a pessoas negras. “O pior disso tudo, é que o pardo significava que uma pessoa estava com a pele suja”, frisou Lirtêz.
“Nem negro demais para ser chamado de negro, nem branco demais para ser chamado de branco”, esta é uma das frases mais populares de pessoas ao se denominarem como pardos. Então ao ser inserido o contexto de colorismo, estudo e pesquisa levantado por mulheres negras para tratar sobre a diversidade de tonalidades de peles escuras, além de traços negroides, e outros aspectos que demonstram como uma mulher com a pele mais retinta (um negro retinto, resumidamente, carrega mais características e fisionomias negroides, além de possui a tonalidade de pele mais escura) é mais difícil de ser inclusa e aceita socialmente quanto uma mulher negra com a tonalidade de pele mais clara e com menos traços negroides.
“Pelo meu cabelo ser liso, por parte de meus ancestrais do Paraguai, é algo que ameniza a pessoa que sou na sociedade. Porque o colorismo no Brasil, funciona da seguinte forma: Quanto mais próximo de claro, mais próximo você está de ser branco. E ser branco é mais bem aceito na sociedade. E nós temos que saber reconhecer que as pessoas que são consideradas “pardas” como eu, é mais privilegiada por nascerem com estes traços. No entanto, este privilegio, não deixa de ser algo racista”, explicou Lirtêz.
Esta composição de genótipos e fenótipos gera discussões até hoje, tendo em vista que o brasileiro é soma da composição de diversas etnias e raças. E que quanto mais próximo você compõe características negroides, mais propício você está de sofrer racismo, seja de forma direta ou indireta.
De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, foi a partir de 1991, que o censo começou-se a inserir a classificação por cor ou raça. Dentro de cinco categorias: branco, pardo, preto, amarelo e indígena. Antes disto, desde 1872, os brasileiros eram classificados por: branco, pardo, preto e caboclo.
Assim levando em consideração aos pesquisadores e estudiosos, além do próprio movimento negro, a nomenclatura “pardo” não é classificada como etnia, e não deveria compor como classificação de cor ou raça. É defendido que estas pessoas, por mais que apresentem menos traços negroides e estarem menos propicias a sofrerem racismo, elas podem se autodeclararem negras, pois ainda assim carregam a tonalidade de pele escura, mesmo que mais clara.
Segundo os dados e pesquisas apresentados pelo IBGE, no último senso de 2016, no Brasil há cerca de mais de 205,5 milhões a mais de pessoas registradas como negras e “pardas” do que pessoas classificadas como brancas. Entretanto, apenas 8,2% são registradas como PRETO, e cerca de 46,7% são classificadas como PARDAS. Levando em consideração se todos os pardas se autodeclaressem como pretos, 54,9% da população brasileira é composta por pessoas negras, e 44,2% da população é BRANCA.

De acordo com Lirtêz, a colonização no Brasil colocou a ideia na cabeça das pessoas de que há apenas um tipo especifico de pessoa negra, e se esquecem de que o país é totalmente miscigenado. Ela explica que o processo de se autodeclarar negro no país é delicado para os pardos, mesmo que esta denominação não devesse existir, pois ela mesma passou por longos processos até se auto-reconhecer como negra e não como parda. Isto se dava, pois as pessoas a chamavam de “morena clara” e outros adjetivos. E que quando as pessoas a chamavam de negra, ela logo associava a algo negativo, pois na cabeça dela, automaticamente, era mais desconfortável. Lirtêz se sentia perdida neste ciclo de confusões. “Era frustrante. Você fica buscando padrões de mulheres que você e nunca iria ser. E você não valoriza a mulher que você é”.

A poetisa finaliza falando que em certas ocasiões o próprio movimento negro a ver como menos negra, devido seus traços afro-indígenas. E que se esquecem que o racismo no Brasil é voltado a pessoas negras e indígenas, no qual ela se orgulha muito de ter adquirido traços. E afirma que é propensa a sofrer o racismo por carregar estas duas descendências.
“O Brasil passa pela questão do branqueamento. Tudo que é mais próximo de ser branco é bom. Então estas pessoas (registradas como pardas, e as próprias pessoas brancas) acham que é melhor se identificar como uma pessoa parda. Então é mais conveniente você se ver numa pessoas branca, mesmo que você não seja. Porque é isso que é “bonito”. É isso que é o “ideal”, conclui Lirtêz.


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