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Pesquisa TIC Educação 2021 revela entraves na escola por causa da Covid-19

Garoto José Inácio de Souza, um dos estudantes da sétima série do ensino fundamental, com o pai, Senivaldo de Souza, no momento de assinar o recebimento das atividades em 2020, na zona rural de Porto Acre. Fotos: Mardilson Gomes/SEE
Garoto José Inácio de Souza, um dos estudantes da sétima série do ensino fundamental, com o pai, Senivaldo de Souza, no momento de assinar o recebimento das atividades em 2020, na zona rural de Porto Acre. Fotos: Mardilson Gomes/SEE
Garoto José Inácio de Souza, um dos estudantes da sétima série do ensino fundamental, com o pai, Senivaldo de Souza, no momento de assinar o recebimento das atividades em 2020, na zona rural de Porto Acre. Fotos: Mardilson Gomes/SEE

Subindo os barrancos do Rio Acre, que em setembro, época de verão, de tão altos lembram até falésias de costas marítimas, um supertime de educadores impressiona mais pelos trajes que estão vestindo do que propriamente pela tarefa heroica a que se propuseram: levar educação a moradores de um dos locais mais inóspitos da floresta, a comunidade ribeirinha do município de Porto Acre (a 80 quilômetros de Rio Branco), região que foi berço das batalhas épicas contra a Bolívia, comandadas pelo gaúcho José Plácido de Castro na sua bem-sucedida Revolução Acreana.

Vestidos de super-heróis, a improvisação tinha um sentido: chamar a atenção da meninada para a importância dos estudos, levando atividades escolares aos estudantes das escolas rurais Santa Fé e Nossa Senhora Auxiliadora, ambas localizadas a mais de duas horas de barco desde a cidade de Porto Acre. 

Esta tarefa árdua, porém, prazerosa para os educadores, aconteceu em setembro de 2020, em meio à pandemia de Covid-19 que assolava o estado com centenas de pessoas mortas e internadas. 

Agora, em julho de 2022, uma pesquisa sobre o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nas escolas brasileiras, a Pesquisa TIC Educação – Covid-19, com base nos dados de 2021, revela que na região Norte, ao menos 73% dos estudantes das escolas urbanas têm acesso a rede de internet. No entanto, quando se trata da zona rural, o índice cai drasticamente.  

As informações da ‘Pesquisa TIC Educação 2021 – Covid-19’ são produzidas pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). 

Nas escolas rurais, a realidade é diferente, apenas 40% das escolas têm ao menos um computador com acesso à internet, e somente 9% acessam a rede por meio de outros dispositivos, como celulares e tablets. 

É o caso das duas escolas de Porto Acre que abrem esta reportagem. Ali, no auge da pandemia, as instituições não abriram e não dispõem de rede de internet. 

A pesquisa mostra também que 33% dos professores de escolas urbanas afirmam ter recebido formação sobre computador e internet recentemente. Já 79% dizem que a ausência de curso específico para o uso dessas tecnologias nas aulas dificulta o ensino.

Com a pandemia de Covid-19 e a necessidade de isolamento social, as tecnologias digitais assumiram papel-chave na educação básica, apoiando a continuidade das atividades de ensino em todo o país. 

“Muitos alunos, professores e escolas estavam fazendo uso de sistemas e plataformas virtuais para troca de conteúdo, mas a gente verifica muitas diferenças e desigualdades. Muitas escolas não estavam preparadas e muitos professores não estavam preparados para esse momento de ensino remoto”, diz a coordenadora da pesquisa, Daniela Costa. 

“Esse ainda é um momento emergencial e está se fazendo o que é possível. Escolas, pais, alunos estão tentando encontrar estratégias para que [o ensino] aconteça”, acrescenta.

No segundo ano da pandemia, 2021, a maioria dos professores afirmou que a escola onde atua ofereceu aulas e atividades aos alunos na modalidade híbrida (91%), combinando estratégias educacionais tanto remotas quanto presenciais. Dois quintos (39%) mencionaram que a escola onde lecionam tiveram aulas totalmente remotas, porcentagem superior à oferta de aulas integralmente presenciais (12%) no período pesquisado. 

Professores chegam à casa de estudante, que está para o mato caçando, em 2020, em Porto Acre. Fotos: Mardilson Gomes/SEE
Professores chegam à casa de estudante, que está para o mato caçando, em 2020, em Porto Acre. Fotos: Mardilson Gomes/SEE

“É preciso melhorar a conectividade das escolas na web”, diz professores 

A conectividade e a formação de professores ainda são entraves para a realização de atividades de ensino e de aprendizagem com o uso de tecnologias digitais, de acordo com a pesquisa.

“Os dados revelam proporção alta em realização de atividades com o apoio das tecnologias digitais. Em contrapartida, os docentes entendem que é necessário aprimorar a conectividade nas escolas e ampliar as estratégias de formação, para que possam adotar efetivamente ferramentas tecnológicas nos processos de ensino e de aprendizagem”, analisa Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.

Apoio à realização de atividades remotas   

Quanto ao apoio oferecido pela escola ou rede de ensino para a realização das atividades remotas, a maioria dos professores (60%) afirmou ter recebido acesso gratuito a aplicativos, plataformas e recursos educacionais. As proporções foram menores entre os professores de escolas municipais (49%) se comparadas àquelas dos que atuam em escolas estaduais (74%) e particulares (70%).

Os professores de escolas estaduais foram os que mais reportaram a oferta, pela rede de ensino, de chip de celular ou custeio do plano de dados e voz (18%) – nas municipais a porcentagem foi de 7%. Já 26% dos docentes afirmaram não ter recebido nenhum tipo de apoio, percentual que foi maior entre os professores que lecionam em escolas municipais (34%) e entre escolas rurais (36%).

Dispositivos utilizados

Na realização das atividades remotas ou híbridas, grande parte dos professores fez uso do telefone celular (93%) ou do computador portátil (84%). Três quartos (74%) afirmaram que o dispositivo era de seu uso exclusivo, enquanto 23% disseram que o compartilhavam com outras pessoas que viviam no mesmo domicílio, e 2% precisaram pedir equipamento emprestado, ou havia a necessidade de ir a outro lugar para acessá-lo.

Entre os professores de áreas rurais, 12% não contavam com computadores no domicílio e faziam uso exclusivo do telefone celular nas atividades educacionais remotas ou híbridas.

Em relação ao uso de Internet, 97% dos entrevistados valeram-se desse recurso na realização de atividades educacionais remotas ou híbridas, sendo que 94% disseram utilizar a rede em casa e 75%, na escola. Em menores proporções, foram citados centros públicos de acesso (9%).

No Acre, Educação prestou apoio irrestrito a professores e estudantes 

Em 2020, educadores de Porto Acre chegam à comunidade rural onde estão as escolas Santa Fé e Nossa Senhora Auxiliadora; esforço pela Educação
Em 2020, educadores de Porto Acre chegam à comunidade rural onde estão as escolas Santa Fé e Nossa Senhora Auxiliadora; esforço pela Educação

No Acre, a maioria dos professores das escolas da zona rural preparou, com o apoio total da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes (SEE), atividades impressas para suas turmas. Na ausência de internet nas escolas mais remotas, o material didático era impresso na gráfica da SEE e encaminhados aos docentes, que por sua vez, faziam o trabalho de entrega e avaliação nas comunidades rurais, periodicamente.  

Segundo explica a diretora do Núcleo da SEE em Porto Acre, Francileide de Souza, a missão de levar textos e exercícios aos estudantes das comunidades evitou que eles se dispersassem dos estudos e comprometesse o andamento dos trabalhos escolares, duramente afetados pelos efeitos da contaminação por Covid-19.

“Eles já estavam há algum tempo parados, sem estudar. E isso não poderia acontecer. A injeção de ânimo foi essencial”, diz a educadora. 

Neste sentido, a Pesquisa TIC Educação 2021 – Covid-19 corrobora com o que diz a educadora acreana, de que uso de materiais impressos foi a principal estratégia adotada pelos professores para a comunicação e envio de atividades para os alunos. 

O uso de materiais impressos foi a principal estratégia adotada pelos professores em todo o país para a comunicação e envio de atividades para os alunos. Entre os docentes de escolas públicas, destacaram-se os materiais didáticos e as atividades disponíveis nos sites dos governos, das prefeituras ou das secretarias de educação, recurso adotado por 80% dos professores das instituições estaduais e 62% das municipais.

Paralelo a isso, aqui no Acre, o Serviço Público de Comunicação, vinculado à Secretaria de Comunicação do governo do Estado do Acre, ofereceu rádio aulas para os estudantes da zona rural sem acesso à internet.    

Plataformas de aulas síncronas e que exigem maior capacidade de banda foram mais citadas por professores de escolas estaduais (82%) e particulares (91%) do que por escolas municipais (54%).

Além do envio e da recepção de atividades, os professores também fizeram uso de estratégias para tirar dúvidas dos estudantes. Novamente destacaram-se as atividades impressas, mencionadas por 93% dos docentes, e também o uso de aplicativos de mensagem instantânea (91%) e do telefone (83%).

Em 2020, José Inácio de Souza, um dos estudantes da sétima série do ensino fundamental, com o pai, Senivaldo de Souza, posa para a foto com uma educadora trajada de Batgirl
Em 2020, José Inácio de Souza, um dos estudantes da sétima série do ensino fundamental, com o pai, Senivaldo de Souza, posa para a foto com uma educadora trajada de Batgirl

Pais encontraram dificuldades para orientar filhos

Assim como em 2020, quando a pesquisa foi realizada com gestores escolares, na atual edição, uma proporção alta de professores (94%) também apontou dificuldades dos pais ou responsáveis em orientar e apoiar os alunos nas tarefas escolares como o principal desafio para a continuidade da realização de atividades pedagógicas durante a pandemia. A falta de dispositivos e acesso à Internet nos domicílios dos alunos foi mencionada por 86% dos docentes.

“No levantamento realizado em 2020 com gestores escolares, uma proporção similar desses educadores destacou o problema da falta de dispositivos e de conectividade. Embora tenham sido implementadas políticas públicas de apoio aos estudantes e professores, o que podemos observar é que no segundo ano de pandemia dificuldades semelhantes continuaram a ser identificadas, agora pelos professores”, avalia Barbosa.

O aumento da carga de trabalho dos professores (85%), a perda ou dificuldade de contato dos alunos com a escola ou com os professores (83%) e as dificuldades no atendimento a alunos com deficiência (76%) foram também citados por grande parte dos docentes.

A defasagem na aprendizagem dos alunos figura, também, entre os desafios enfrentados por professores de todos os estratos, inclusive das escolas particulares. A grande maioria (93%) apontou o problema durante a coleta de dados. Entre as medidas para apoiar os estudantes, a maior parte dos entrevistados mencionou a combinação de aulas de recuperação presenciais e remotas com o uso de tecnologias digitais (58%), com porcentagem menor entre os que lecionam em escolas municipais. Outro recurso muito citado foi o agrupamento de alunos por nível de aprendizagem (55%). No total, 19% dos professores não destacaram nenhuma atividade.

“A pesquisa TIC Educação é de grande importância para compreendermos a efetiva adoção das tecnologias digitais nos sistemas de ensino. A disponibilização da pesquisa reafirma o compromisso do Comitê Gestor da Internet no Brasil para com a sociedade e a produção de dados robustos e atualizados sobre o avanço da Internet no Brasil”, conclui José Gontijo, coordenador do CGI.br.

A pesquisa

Foram entrevistados presencialmente 11,4 mil estudantes, 1,9 mil professores, cerca de 1 mil coordenadores pedagógicos e 1 mil diretores de escolas urbanas. Foram entrevistados por telefone 1,4 mil diretores ou responsáveis por escolas rurais. A pesquisa foi feita com escolas públicas e privadas urbanas do 5º ao 9º ano do ensino fundamental e 2º ano do ensino médio e escolas públicas e privadas rurais de qualquer modalidade de ensino. Não participaram escolas federais.