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quarta-feira, 23 de setembro de 2026
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Perícia conclui que Isabelle Caracristi se lançou de prédio; namorado continua investigado

A Perícia Forense do Ceará (Pefoce) concluiu que Isabelle Caracristi, de 22 anos, se lançou do rooftop do prédio onde morava, no bairro Aldeota, em Fortaleza. A conclusão foi apresentada nesta quarta-feira (23), durante uma coletiva conjunta da Polícia Civil e da perícia sobre a investigação da morte da estudante.

Segundo os peritos, os vestígios analisados indicam uma “precipitação voluntária”, termo técnico utilizado para descrever uma queda provocada pela própria vítima. A perícia descartou, com base nos elementos encontrados, a hipótese de que Isabelle tenha sido empurrada ou arremessada por outra pessoa.

A conclusão sobre a dinâmica da queda, porém, não encerra a investigação policial. O namorado da estudante, João Munhoz Neto, de 34 anos, permanece preso preventivamente e é investigado por possíveis crimes relacionados ao período anterior e posterior à morte.

Perícia aponta trajetória predominantemente vertical

Os cálculos realizados pela Pefoce indicam que Isabelle percorreu uma trajetória predominantemente vertical antes de atingir o solo. Segundo os peritos, a queda durou aproximadamente três segundos.

A análise do apartamento onde a estudante morava com João não encontrou sinais de arrombamento, desordem ou luta corporal. Também não foram identificadas no corpo lesões de defesa, sinais de esganadura ou marcas de agressões físicas anteriores à queda.

Na cortina de vidro do apartamento, foram encontradas impressões digitais atribuídas exclusivamente a João.

A perícia também examinou cerca de 700 arquivos de vídeo das câmeras de segurança do condomínio. Segundo os investigadores, os arquivos estavam íntegros e não apresentavam sinais de adulteração.

O local exato de onde Isabelle caiu, entretanto, não era coberto por câmeras. O rooftop e as escadas de emergência do edifício não possuíam equipamentos de videomonitoramento.

Isabelle permaneceu cerca de 1h28 no rooftop

A cronologia reconstruída pela investigação indica que Isabelle entrou sozinha no elevador às 19h12 e seguiu para o rooftop, localizado no 23º andar.

A estimativa da perícia é de que a morte tenha ocorrido por volta das 20h40. Dessa forma, a estudante teria permanecido aproximadamente uma hora e 28 minutos na cobertura antes da queda.

Durante esse intervalo, registros indicam que Isabelle continuou utilizando o celular e trocando mensagens. O conteúdo das conversas está sendo analisado pela Polícia Civil.

O aparelho estava no bolso da estudante quando ela caiu. O celular sofreu danos com o impacto, mas foi recolhido e encaminhado para perícia, com preservação da cadeia de custódia.

Exames não identificaram álcool ou drogas ilícitas

O exame necroscópico apontou politraumatismo como causa da morte.

De acordo com a Pefoce, a lesão que provocou a amputação da perna direita também ocorreu durante a queda, quando o corpo atingiu o gradil da estrutura.

Os exames toxicológicos e alcoólicos não detectaram álcool nem drogas ilícitas. Foi identificado apenas carisoprodol, um relaxante muscular que, segundo a família, já fazia parte do uso habitual da estudante.

A perícia também informou que Isabelle não estava grávida.

Por que o namorado continua preso?

A conclusão de que Isabelle se lançou do prédio não responde, segundo a Polícia Civil, a todas as questões que ainda estão sendo investigadas.

Os investigadores procuram esclarecer o que aconteceu antes de a estudante subir ao rooftop e se João teve alguma participação nos acontecimentos que antecederam a queda.

Depoimentos colhidos pela polícia mencionam um relacionamento que teria sido marcado por situações de controle, isolamento e possíveis episódios de violência psicológica. Essas informações ainda são objeto de investigação.

A polícia também apura questões relacionadas à vida financeira do casal, incluindo o uso de cartões pertencentes a Isabelle e possíveis divergências entre os dois.

Entre as hipóteses investigadas estão os crimes de violência psicológica contra a mulher e induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio, previsto no artigo 122 do Código Penal.

Polícia investiga condutas após a morte

Além das circunstâncias anteriores à queda, a Polícia Civil também investiga comportamentos atribuídos a João depois da morte de Isabelle.

Segundo os investigadores, ele teria retornado ao condomínio no dia seguinte para procurar o celular da estudante nas áreas externas próximas ao local da queda.

Testemunhas também teriam relatado à polícia que João orientou funcionários da portaria a impedir a entrada de familiares de Isabelle no prédio.

Outro ponto investigado é o que ocorreu dentro do apartamento depois da morte. Conforme a Polícia Civil, o imóvel teria sido limpo por uma pessoa contratada e posteriormente colocado à venda.

A polícia afirma ainda que João retirou seus pertences em malas, desativou redes sociais e deixou de fornecer pontos de contato aos investigadores.

O celular dele foi apreendido e está sendo periciado. Outros dispositivos eletrônicos também passam por análise.

Mãe diz que só descobriu a morte no dia seguinte

A mãe de Isabelle, Isorlanda Caracristi, afirmou que não foi informada sobre a morte da filha na noite da ocorrência.

Segundo o relato da família, como não conseguia entrar em contato com Isabelle, Isorlanda foi até o condomínio no dia seguinte e descobriu que a filha havia morrido.

A família também informou à polícia que Isabelle enviou uma mensagem para a mãe pouco antes de subir ao rooftop. Por volta das 19h, a jovem teria escrito: “mãe, te amo”.

O relato dos familiares sobre o relacionamento de Isabelle também integra as linhas de investigação adotadas pela Polícia Civil.

Sete pessoas já foram ouvidas

Até o momento, sete pessoas prestaram depoimento no inquérito, entre elas o próprio João.

A investigação é conduzida por uma força-tarefa que reúne equipes da 2ª Delegacia de Polícia Civil da Capital, da Delegacia de Defesa da Mulher e do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa.

Segundo a Polícia Civil, o trabalho é realizado sob perspectiva de gênero e envolve a análise de celulares, computadores, mensagens, outros dispositivos eletrônicos e imagens das câmeras de segurança.

Novos depoimentos ainda estão previstos. Ao todo, a Pefoce informou que 11 laudos periciais relacionados ao caso já foram concluídos.

A perícia, portanto, estabeleceu a dinâmica da queda como um lançamento voluntário, descartando a hipótese de que Isabelle tenha sido empurrada ou arremessada por outra pessoa. A investigação policial continua concentrada no que ocorreu antes da queda e na possibilidade de que fatores relacionados ao relacionamento tenham contribuído para a decisão da estudante.

O caso tramita sob segredo de Justiça.