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sábado, 4 de julho de 2026
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O fiel escudeiro de dom Moacyr Grechi relata como era o bispo na intimidade

Assistente pessoal do bispo por 30 anos, Clóvis Malveira diz que parte de sua história foi enterrada junto com ele.

Durante as décadas em que viveu no Acre, dom Moacyr Grechi, colecionou não apenas uma legião de fieis, mas de amigos. Pessoas que o tinham não somente como orientador espiritual, conselheiro, mas referência de humanista, defensor de causas sociais que até então eram banalizadas, não foi à toa que ele ficou conhecido como “pai dos pobres”.

A trajetória de dom Moacyr como bispo da Diocese de Rio Branco se confunde com a formação de Rio Branco e de outros municípios, isso porque nas décadas de 70, 80 e 90, a capital do Acre recebeu grande número de pessoas advindas de seringais, colônias, áreas ribeirinhas, aldeias indígenas em busca de trabalho e moradia, período em que surgiram as invasões que deram origem a muitos bairros. Anos também de muitos conflitos na área rural e também urbana pela posse de terras. Nesse contexto, dom Moacyr não se conteve a fazer apenas o que regia a vida religiosa. Ele passou a ser o defensor dos mais humildes, dos que menos tinham, e naquele momento através do seu protagonismo, a igreja assumiu o papel que era do estado.

Clóvis Gomes Malveira, 64 anos, assistente pessoal do dom Moacyr por 30 anos, relata momentos importantes desse longo período em que conviveram juntos. Ele diz que se conheceram em 1977 quando era um jovem vendedor de livros católicos, que sempre ia oferecê-los no centro catequético da época, que hoje é a Livraria Dom Oscar Romero. Certa vez o bispo perguntou se ele tinha carteira de habilitação para dirigir e o convidou para trabalhar com ele, foi aí que começou uma longa relação de trabalho e de amizade. Clóvis se tornou mais que motorista, acompanhou dom Moacyr em todas as andanças pelo Acre, nos rios, seringais, aldeias, estiveram nos lugares mais distantes em visitas missionárias. Ele era uma espécie de assistente pessoal e fazia também a segurança do bipo por onde andavam.

Clóvis lembra com saudade a primeira viagem que fez com dom Moacyr na Toyota Bandeirantes que ele conseguiu adquirir para Diocese no final dos anos de 1970.

“Uma das histórias que mais me marcou foi um empate no Seringal União, quando os paulistas invadiram com a ajuda do governador da época, Vanderley Dantas, terras da união. Ali havia pessoas que moravam há mais de 30 anos. Certo dia chegou um grupo de pessoas na Casa do Bispo para buscar ajuda e ao relatar a crise, que estavam vivendo, sendo expulsos de suas casas, um dos presentes desafiou dom Moacyr a ir ao local e fazer a defesa das pessoas que realmente precisavam daquelas terras para sobrevir”, conta Clóvis.

Foi aí, segundo Clóvis, que dom Moacyr muito tocado com a dor daquelas pessoas, disse ao seu assistente: “eu já sei que o meu papel como bispo não é apenas rezar missas e sim orientar o povo dos seus direitos, as pessoas precisam saber que seus direitos têm que ser garantidos e preservados”, disse o bispo.

Não demorou e o bispo foi pessoalmente ao local do empate no Seringal União no Riozinho do Rola, lá se reuniu com fazendeiros e com os moradores, pode ver de perto a realidade vivenciada por aquelas pessoas que sofriam constantemente maus tratos e alguns já tinham até sido assassinatos por jagunços. Dom Moacyr passou então a fazer denúncias formais aos organismos internacionais de defesa dos direitos humanos sobre o que se passava no Acre. Nesse período ele se tornou líder da Comissão Pastoral da Terra – CPT, onde foi presidente por 19 anos.

Atentados

Ao tomar partido pelos mais humildes, dom Moacyr fez também muitos desafetos. Fazendeiros, latifundiários e os paulistas não o viam com bons olhos. Mesmo com as constantes ameaças sofridas, o corajoso bispo não se intimidou, sua luta por justiça social era uma missão e ele continuou do lado dos menos favorecidos. Clóvis relata que além de dirigir e ser assistente pessoal de dom Moacyr em suas andanças, fazia também a sua segurança. “Eu averiguava o local onde o bispo iria dormir, tomar banho e cheguei até a andar armado na época prevendo possíveis atentados que pudessem acontecer”.

“Era um período muito tenso, lembro de uma situação que aconteceu em Epitaciolândia, onde estávamos em uma reunião da igreja, de repente ouvimos vários tiros na rua, rapidamente escondi o bispo atrás de um sofá, com medo que os tiros o atingissem”, conta Clóvis.

O assistente de dom Moacyr conta outro episódio grave em que passaram em Brasileia. “Estávamos na casa das freiras, na hora do jantar, quando deram dois tiros no banheiro que ficava do lado de fora da casa. Por sorte, não era o bispo que estava lá naquele momento, era o irmão de uma das freiras que era parecido fisicamente com dom Moacyr, tenho certeza que os tiros eram pra ele. Naquela noite tivemos que sair de madrugada para assegurar que nada aconteceria com a gente, mas estávamos com medo”.

A partir daí, por medida de segurança eles passaram a não mais divulgar o horário correto de saída e de chegada do bispo nas agendas.

Dom Moacyr na intimidade

“O dom Moacyr que convivi por 30 anos era corajoso, destemido, brincalhão e muito humilde, atendia e ajudava muito os pobres, era tão bom que até o enganavam. Ele passava para todos que conviviam com ele, valores muito importantes e ensinamentos que carrego para a vida inteira, ele dizia que o importante na vida era ser justo, honesto e leal, e que devemos sempre valorizar o próximo. Eu, particularmente aprendi muito com dom Moacyr, e senti muito a morte dele, uma parte da minha história foi enterrada junto com ele. Ele não tolerava desonestidade, injustiça, corrupção”, conta Clóvis.

O assistente de dom Moacyr revela um fato curioso, que o bispo gostava de fumar charuto escondido e que era ele mesmo que comprava a seu pedido. Também conta que o religioso gostava de fazer confraternizações de final de ano na Casa do Bispo, eram encontros com pessoas que trabalhavam na Diocese e amigos mais próximos. “Éramos eu, a Maria Carvalho, conhecida como Maria do Bispo, a Luizinha, o Silvio Birolo, Nilson Mourão, Pacífico, Sílvio Martinello, Evaristo, Arquilau, sempre estava por lá o Chico Mendes, a Marina aparecia de vez em quando”.

Despedida

Um almoço organizado pelas irmãs Josefinas na Casa de Acolhida Souza Araújo, local em que todas as vezes que o bispo visitava quando vinha a Rio Branco, foi a última vez em que Clóvis e o amigo se encontraram no ano passado. O assessor de dom Moacyr por 30 anos conta que o encontro foi emocionante, que contaram muitas histórias de suas andanças pelo Acre e que ele teve a oportunidade de agradecer ao amigo de longa data por tudo que ele o ensinou.

“Eu perdi o grande patrão de toda a minha vida, só trabalhei com ele e me aposentei, e tive a honra de prestar serviço a uma pessoa que nunca me chamou a atenção, de tão grande que era nosso compromisso e responsabilidade um com o outro. Ele era minha referência, eu me sinto órfão com a sua partida”, finaliza Clóvis.