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Novos enlatados

Novos enlatados

O dicionário Houaiss da língua portuguesa define “enlatado” como ‘filme produzido em escala industrial, de conteúdo facilmente assimilável pelo grande público e pronto para veiculação, ger. fornecido aos lotes e a baixo custo esp. para emissoras de televisão; filme enlatado’. A definição do filme, figurada, pode ser comparada a um comestível de baixa qualidade e distribuído em grande escala. Faz-nos refletir sobre o quanto parte da indústria do cinema tornou-se pasteurizada, pronta para ser consumida e digerida. 

Por conta dos enlatados e até mesmo do conteúdo da TV aberta, as pessoas com o poder aquisitivo maior, migraram para as TVs a cabo (nos anos 90) e para as TVs via satélite (anos 2000). Esses “novos veículos” trataram logo de variar a sua programação em virtude de um público que já se supunha segmentado. Assim, os novos canais passaram a ter programação alternativa (e com horários de exibição também alternados) e as redes de filme, criadas já em função do novo público, trouxeram canais diferentes para cada gosto.

Contra os programas da TV aberta, inclusive filmes, surgiu o argumento de que a TV aberta “não prestava”. Em parte, o argumento é verdadeiro porque as emissoras: 1. repisavam as novelas (“carro-chefe” de algumas emissoras) cujo enredo era sempre o mesmo, só mudando as personagens; 2. Os filmes por ela veiculados eram os enlatados tradicionais, sem nenhuma diferença daqueles caracterizados pela definição dada acima. É fato também que os programas voltados para a grande massa traziam um formato padrão; assim, evocavam o mito da Cinderela, trazendo algum benefício àqueles que por algum tipo de “mico a pagar” ou que, por um esforço quase que sem limite, poderiam ser sempre beneficiados com aquilo que julgariam ser o maior e o melhor dos presentes que a vida poder-lhe-ia proporcionar. Essa prática ainda permanece com vigor nas TVs brasileiras.

Em uma via de mão dupla, essa “classe” de programas passou a estar não apenas na TV aberta, mas, também nas TVs a cabo. Os realitys estão aí incluídos e, como os antigos enlatados, são facilmente consumíveis, mas não como a mesmo caráter ideológico dos filmes cujo teor era quase que propositalmente alienante, mas para serem consumidos sem moderação ou sem a preocupação de que foram feitos por uma indústria pós-capitalista, com a intenção de estarem ali, expondo a intimidade das pessoas a um baixo custo de exposição e obtendo um alto índice de audiência.

O que esses novos programas expoem não é mais a ideologia do que deve se esconder para não se refletir (aspecto medievalesco), mas o que deve aparecer para se repetir.

As disputas dos realitys refletem, por um lado, o quanto vivemos em uma sociedade competitiva, por isso, o fator que mais sobressai neles é o psicológico (o quanto podemos ser um/individual em uma cultura indiferenciada por práticas e comportamentos). Numa equação com resultado improvável os minutos de fama repentinos equivaleriam a uma “eternidade finita”, congelada pela presença temporária da aura do aparecimento televisual.

Os famosos de Warhol, aqueles que segundo o artista norte-americano seriam célebres por ao menos 5 minutos no futuro (os ganhadores dos realitys?, os atores e músicos de ocasião?), são, talvez, os nossos novos super-heróis, passageiros, consumidos como os antigos enlatados.

Milton Chamarelli Filho é professor do curso de Jornalismo da UFAC

 

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