Nos próximos dias a empresária Luisa Abram, dona da “ex-menor fábrica de chocolate do mundo”, estará no Acre para mais uma rodada de negociações. Ela irá visitar comunidades coletoras do cacau bravo em Xapuri e no Rio Purus. Há três anos Luisa Abram produz chocolates com 70% e 81% de cacau a partir de grãos provenientes do Acre com atributos de qualidade que que despertaram a atenção de chefs de São Paulo -um negócio que não para de crescer, daí o motivo de seu retorno às comunidades acreanas. “Para este ano a expectativa é que a gente compre uma tonelada de cacau do Acre, e consequentemente, vamos produzir cerca de uma tonelada de chocolate com ele. Ano passado, do Acre compramos 500 quilos”, contou com Luisa com exclusividade ao jornal OPINIÃO.
Em reportagens anteriores ela contou que a brincadeira começou quando ela estudava gastronomia na Anhembi Morumbi e ganhou do pai o livro Elements of Dessert, de Francisco Migoya, publicado pelo The Culinary Institute of America (CIA). Viciada em preparar sobremesas, ela confessa não ter executado nenhum doce das 544 páginas do livro. Parou no capítulo que ensina a fazer chocolate – do grão à barra.
Esse cacau é nativo, encontrado em várias regiões do Acre mas abundante nas florestas do rio Purus e na Resex Chico Mendes, em Xapuri. É também conhecido como cacau bravo. “São 600 famílias beneficiadas pelo nosso trabalho”, contabiliza a empresária, cujo pai, entusiasta de experiências na cozinha, estimulou Luisa na aventura.
Passaram a ler muito sobre o assunto até descobrir que havia cacau na Amazônia. Cinco meses depois, em agosto de 2014, lá estavam os dois, Luisa e o pai, André, numa comunidade ribeirinha do Acre, onde uma cooperativa colhe cacau selvagem – não cultivado pelo homem. Até o fim do ano, enquanto ia reunindo equipamentos para sua pequena fábrica, a garota aproveitou para experimentar parâmetros – testou o amargor ideal do chocolate, que é torrado a 130ºC e só leva cacau e açúcar cristal orgânico.
Hoje a fábrica de chocolate de Luisa Abram já não é a menor do mundo. Cresceu rapidamente: “hoje temos cerca de 40 pontos de venda, mas até o final deste ano serão cerca de 120 pontos de venda”, projeta ela. “Para este ano, estamos com expectativa de crescimento de 300% em relação aos clientes e pontos de venda do ano passado”, completou, lembrando que o mercado consumidor extrapolou as fronteiras brasileiras e alcançou os chocólatras e apreciadores além-mar. “Estamos exportando os chocolates feitos com o cacau do Acre para Estados Unidos, Inglaterra e Nova Zelandia”, relata.
Na Europa, barra de 60 gramas custa R$30
Tecnicamente bem feito, o chocolate de Luisa Abram cumpre os requisitos de um bom chocolate em características como aparência, aroma, textura e sabor. Seus dois tipos de barra (70% cacau com 30% açúcar, e 81% cacau com 19% açúcar) têm a superfície brilhante, homogênea, sem marcas e manchas. O chocolate quebra fácil, com o crac seco, sem estilhaçar. Tem umidade, não é ressecado. Começa a amolecer facilmente nos dedos, devido ao alto teor de manteiga de cacau, ponto positivo. Na boca, textura aveludada, nada arenosa, e sabor intenso, sem que o amargor prevaleça. O 81% é mais sedoso, porque tem mais manteiga de cacau.
Os cientistas confirmam a qualidade do produto e sua facilidade em chegar aos mercados mais exigentes. “Um alemão nos contou que uma barra de 60 granas custa o equivalente a R$30 na Europa”, relatou Edvan Lima, engenheiro florestal que possui vários estudos sobre o cacau nativo. “O cacau bravo tem potencial”, completou ele, que na Reserva Extrativista Chico Mendes identificou a existência de 8 pés em média por hectare. O trabalho dos pesquisadores juntos aos coletores é para melhorar a produção. Os estudos estão em andamento e mostram que há muito futuro nesse fruto.


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