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Nego Bau para além de memes e likes: um alerta

A morte do Renan Souza, o “Nego Bau”, nesse último sábado, gerou inúmeros memes, tweets e postagens emotivas em redes sociais.

O Bau era inofensivo e inteligente. Tinha uma super memória (consumida ao longo do tempo pela droga) e era sempre muito engraçado – um molecão de 40 anos.

Mas, na vida real, Nego Bau, infelizmente, foi só mais um dos tantos personagem dessa tragédia cotidiana com a qual temos que conviver.

A brutal desigualdade social braseira produz iguais a ele diariamente. A ausência de políticas públicas efetivas de saúde mental e enfrentamento à drogadição, no Brasil e aqui no Acre, condena-os a um fim lento, sofrido e certeiro, como vimos no sábado.

Nas ruas de nossas cidades, centenas de pessoas passam pelos mesmos sofrimentos que ele passou ao longo de sua juventude e curta vida adulta.

Todas elas submetidas à extrema pobreza, à fome, ao descaso e à violência. Quase sempre anestesiadas pelo único refúgio possível, as drogas.

Perambulam invisíveis na maior parte do tempo e são absolutamente incômodas quando se fazem perceber por quem pode lhes dar algum trocado para saciar a fome e o vício que sequestrou suas vidas.

Desde 2017, ainda no governo Temer, a RAPS – rede de atenção psicossocial, que integra todas as políticas de assistência à saúde mental, vulnerabilidade e uso de drogas, vem sofrendo desfinanciamento, como consequência do intencional sucateamento do SUS – Sistema Único de Saúde, e do SUAS – Sistema Único de Assistência social.

A situação, porém, ficou ainda mais difícil após a aprovação da Emenda Constitucional 95 que estabeleceu o famigerado Teto de Gastos, determinando o congelamento de investimentos em saúde, educação e assistência social por 20 anos.

A repercussão da partida precoce do Bau e a aparente comoção que ela provocou deveriam gerar indignação social e ser o estopim de um importante debate sobre o que fazer.

Não se pode é seguir achando engraçado e transformando em memes, para caçar likes, o que o sofrimento de pessoas como ele denuncia sobre os desequilíbrios e a violência de uma sociedade desigual como a nossa.

A graça inocente de Bau era sua forma de chamar a atenção.

E nós, em resposta, seguiremos aguardando que morram para lhes dedicar notas e postagens que massageiam nossos egos?

Ali há gritos ensurdecedores de socorro.

* André Kamai é Sociólogo

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