Rio Branco
30°C
terça-feira, 23 de junho de 2026
15:35

Lugar da Amazônia onde gambás e onças vivem como melhores amigos intriga cientistas

Um vídeo curioso feito na floresta amazônica surpreendeu a comunidade científica: uma jaguatirica e um gambá foram vistos caminhando lado a lado, sem sinais de agressividade.

O registro foi feito por armadilhas fotográficas no Parque Nacional do Manu, no sudeste do Peru, e motivou a publicação de um estudo inédito sobre o comportamento incomum dos dois animais.

O flagrante na Amazônia

A cena vai contra o que se espera da relação entre predador e presa. A jaguatirica (Leopardus pardalis) é um felino carnívoro, e o gambá, teoricamente, seria parte de sua dieta.

No entanto, as imagens mostram os dois seguindo pela trilha da floresta de maneira amigável e voltando juntos pelo mesmo caminho minutos depois, ainda sem qualquer sinal de confronto.

O flagrante, que inicialmente parecia um caso isolado, levou os pesquisadores da Estação Biológica de Cocha Cashu a revisar outras gravações.

Eles descobriram pelo menos três registros semelhantes em diferentes pontos da Amazônia, todos mostrando jaguatiricas e gambás caminhando próximos, sem qualquer sinal de violência.

Isso reforçou a hipótese de que o comportamento pode ser mais comum do que se imaginava.

Como surgiu a amizade inusitada na Amazônia?

Para investigar o que estaria por trás dessa possível “amizade” entre espécies, os cientistas criaram um experimento baseado em cheiros. Eles espalharam pedaços de tecido com odor de jaguatirica, puma e um neutro.

O resultado chamou a atenção: os gambás se interessaram principalmente pelo cheiro da jaguatirica, se aproximando, cheirando e até se esfregando nos tecidos. Já o cheiro de puma foi praticamente ignorado.

Os dados sugerem que o cheiro da jaguatirica pode ter algum efeito atrativo para o gambá, interesse que pode estar relacionado a uma estratégia de convivência. A partir disso, os pesquisadores passaram a trabalhar com três hipóteses principais sobre a interação.

A primeira propõe proteção mútua: como o gambá do gênero Didelphis é resistente ao veneno de cobras, a jaguatirica poderia se beneficiar ficando por perto.

A segunda hipótese é de camuflagem olfativa: ao se esfregar no felino, o gambá adotaria seu cheiro, dificultando a detecção por outros predadores. Já a terceira sugere uma estratégia de caça da jaguatirica, que usaria o odor forte do gambá como isca para confundir presas.

Segundo Diego Astúa, pesquisador de gambás da Universidade de Pernambuco, o comportamento é ainda mais notável porque gambás são animais solitários que raramente interagem com outros indivíduos além de suas famílias ou parceiros de acasalamento.

“É provável que encontremos cada vez mais registros surpreendentes como este”, afirmou.

Já o pesquisador Fernando Camerlenghi, um dos autores do estudo, destacou que a descoberta só foi possível graças à tecnologia de vídeo noturno.

“Se fosse apenas uma foto, pareceria que a jaguatirica estava caçando o gambá. A ciência muitas vezes funciona assim: você busca uma coisa e acaba encontrando outra, que às vezes é ainda mais interessante do que aquilo que buscava”, comentou.

Embora essa associação entre jaguatirica e gambá seja inédita, fenômenos de cooperação entre espécies diferentes não são exatamente novos na ciência.

Um exemplo é o mutualismo de caça entre humanos e aves-guia, registrado na África e na Ásia. Nessas regiões, as aves conduzem pessoas até colmeias e depois se alimentam da cera deixada para trás.

Apesar das possíveis explicações, os autores do estudo ressaltam que ainda são necessários mais dados para entender a fundo o que está acontecendo. O que já se sabe é que essa interação, até então desconhecida, é um caso sem precedentes documentado pela ciência.

“Até onde sabemos, esse tipo de associação nunca foi registrado antes. Pode haver cooperação, benefício mútuo ou algo ainda não identificado. O que está claro é que esse comportamento abre novas possibilidades sobre como diferentes espécies se relacionam na floresta”, concluem os cientistas.

Fonte: NDMais