A prática de partejar é uma técnica, secular, passada de geração em geração, dominada pelas parteiras tradicionais das florestas do Acre, que enfrentam o abandono do poder público e a total falta de políticas públicas. Há alguns anos, essas guardiãs da vida encaram dificuldades para manter viva a tradição milenar de realizar partos domiciliares.

Visando fortalecer o trabalho das parteiras tradicionais do Alto Juruá, o Instituto Mulheres da Amazônia (IMA) promoveu, em setembro, o Encontro de Parteiras Tradicionais da Floresta. O evento, financiado pela Lei Aldir Blanc, com apoio da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), foi realizado em parceria com a Associação de Parteiras Tradicionais de Marechal Thaumaturgo Maria Esperança.
“As parteiras são verdadeiras guardiãs da vida e da floresta, aparam a vida com as suas mãos. Em 2013, elas recebiam kits para realizar com segurança a prática de partejar, o que não ocorre mais. Elas prestam um serviço ao sistema de saúde, mas, estão invisibilizadas, não recebem por isso, e hoje elas têm consciência de sua fundamental importância e trabalho.”
Concita Maia, presidente do IMA
A sede da Associação Maria Esperança, que havia sido desativada, fica em Marechal Thaumaturgo. As parteiras estão organizadas em oito núcleos, ao longo dos rios do Alto Juruá. O encontro, que contou com a participação de 35 guardiãs, serviu como base para rearticulação do coletivo.
“Nesses últimos anos elas não recebem mais o kit que, ao longo do tempo se deteriorou. Obviamente, muitas coisas elas não possuem mais. Segundo o relato delas, muitas parteiras voltaram a utilizar a tala do buriti para cortar o umbigo das crianças, devido a ausência de bisturis e tesouras de parto”, alerta Concita.
A presidente da Associação de Parteiras, Nazaré Nogueira Maia, fez um desabafo. “Estamos entregues à própria sorte, ninguém reconhece o nosso trabalho”, disse.
Reavivando lutas

A ausência de políticas públicas e o retrocesso de conquistas, fez com que o movimento se desarticulasse, refletindo diretamente na Associação de Parteiras Tradicionais de Marechal Thaumaturgo – Maria Esperança, que perdeu, inclusive, a sede na área urbana da cidade.
A ida do IMA e o encontro estadual reavivou lutas, que foram transcritas em um documento construído pelo coletivo, no qual pontuam demandas. O relatório, discutido e aprovado em plenária, será entregue ao governo do Estado e à Prefeitura de Marechal Thaumaturgo.
“O prefeito Isaac Piyãko e o secretário municipal de Saúde compareceram ao encontro e se comprometeram em buscar contribuir para que o trabalho delas seja reconhecido e elas possam exercer esse ofício com mais segurança tanto para elas, quanto para as parturientes e às crianças”, destaca a presidente do IMA.
Entre as demandas apresentadas, as parteiras solicitam a vigência do decreto que institui a Bolsa Parteira, aprovado em 2013 na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), mas que nunca entrou em vigor. O benefício, à época, previa o pagamento de R$ 250 de auxílio. Passados 8 anos, as parteiras reivindicam a atualização do valor para R$ 600.
No documento, as guardiãs também pedem que o “kit parteira” volte a ser repassado pela Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre) e que o Estado doe canoas e motores para os oitos núcleos, que compõem a associação.
À Prefeitura de Marechal Thaumaturgo a solicitação é para que a sede da associação seja restituída, uma vez que o local acolhe as trabalhadoras da floresta e também serve de casa de acolhimento para as parturientes.
“Elas estão no coração da floresta, onde pulsa a vida e a esperança. Não à toa, o nome da associação é Maria Esperança. Todas elas têm esperança de dias melhores, de que serão reconhecidas e que dias melhores virão”, endossa Concita Maia.
Durante o Encontro Estadual, que chegou junto da Primavera, as parteiras realizaram nova eleição da Associação Maria Esperança, com ata aprovada em plenária, florescendo novamente sonhos, lutas e vidas.
Pandemia estimula partos domiciliares
Os partos domiciliares, que haviam sofrido um enfraquecimento ao longo dos anos, ganharam força durante a pandemia da Covid-19. Devido a fácil contaminação do vírus, muitas mães optaram por ter seus filhos em casa, com o auxílio das tradicionais parteiras.

“Aparar menino, até a paxiúba apara. Quero ver quando o parto é complicado, aí que se mede a importância do trabalho das parteiras”, comentou uma das participantes.
Além de conduzir o trabalho de nascimento das crianças, as parteiras são detentoras de conhecimentos milenares, como o tipo de planta ou erva específica para auxiliar a estancar uma hemorragia, por exemplo, para dores e outras finalidades.
As mãos que aparam a vida, também criam o ambiente mais favorável e seguro para mães e filhos, em gestações que apresentam risco, quando o bebê está na posição errada ou “atravessado”, como elas denominam, massagens, rezas e técnicas repassadas de geração em geração garantem, que no coração da Amazônia – onde o posto de saúde mais próximo fica há dias de navegação –, novos acreanos venham ao mundo com saúde.
Categorias

A prática de partejar requer muita técnica e experiência. As parteiras se dividem em três categorias: parteiras finas (as mais antigas no ofício e por isso mesmo mais sábias), parteiras e as acompanhantes de parteiras (aprendizes).
“É assim que essa técnica vai se tornando sustentável, passa de geração para geração. No coração da floresta, muitas mulheres começam a “pegar menino” com 10 anos de idade, uma delas contou que teve a primeira experiência pegando o filho da própria mãe, ou seja, seu irmão”, enfatiza Concita.
Ainda segundo Concita, as parteiras precisam de valorização dos governos e governantes, a partir da implementação de políticas públicas.
“O Estado deve reconhecer a importância desse segmento tão importante para a nossa sociedade e para a vida, e esse reconhecimento se dá por meio da remuneração e políticas públicas.
Concita Maia











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