IMA, Levante Feminista e Movimento de Mulheres Negras e feministas realizam ato em protesto aos feminicídios no Acre

Atividade foi promovida no local em que a vendedora Keyla Viviane foi assassinada pelo ex-marido

Deusiane, Ediana, Dulce, Adriana, Eduarda, Maria, Kátia, Dalaesse e Eloiza. Estes são os nomes das vítimas de feminicídio no Acre, somente em 2021. Apesar de jovem, o estado acreano lidera o ranking nacional de feminicídios há três anos consecutivos, aponta um estudo recente do Ministério Público (MPE).

Na manhã desta quinta-feira, 25, Dia Internacional da Não-Violência contra a Mulher, integrantes do Instituto Mulheres da Amazônia (IMA), do Levante Feminista Contra Feminicídio, da Associação de Mulheres Negras, do Sindicato de Empregadas Doméstica (Sindoméstico) e do movimento feminista realizam um protesto, em Rio Branco, contra o descaso dos governos e governantes com a vida das mulheres do Acre.

A manifestação marca o Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres (Foto: Maria Meirelles)

Atividade foi promovida no bairro Estação Experimental, local em que a vendedora Keyla Viviane, à época com 29 anos, foi assassinada pelo ex-marido (2016), enquanto trabalhava. Segundo o MPE, 60% dos crimes são praticados por maridos, namorados e ex das vítimas.

Além de bradarem frases de resistência, como o slogan da campanha nacional, “nem pensem em nos matar”, as manifestantes grafitaram girassóis e os nomes das vítimas de feminicídio em 2020 e 2021 no muro de uma quadra, local em que Keyla foi esfaqueada.

“Queremos transformar o nosso luto, o nosso sentimento de perda e impotência em luta, queremos nos fortalecer, estamos aqui lutando para que as estatísticas tenham nomes, pois as vítimas de feminicídio têm nome, história, família, têm filhos. Viemos aqui para homenagear as mulheres silenciadas pelo feminicídio”, destacou a presidente do Instituto de Mulheres da Amazônia, Concita Maia.

O manifesto também marca o início da campanha internacional “16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”. A atividade do dia 25 de novembro foi promovida em 20 estados brasileiros por meio do Levante Feminista Contra o Feminicídio, que neste tem girassóis como logomarca de enfrentamento ao machismo, sexismo, racismo, LGBTfobia, misoginia, xenofobia e todas as formas de preconceito e violência.

Parceria com o Ministério Público

O Levante Feminista entregou o ofício ao Ministério Público (Foto: Ana Paula Pojo)

No Acre e nos outros 19 estados em que o ato foi promovido, o Levante Feminista realizou a entrega do manifesto de um ofício aos Ministérios Públicos, pedindo apoio na fiscalização e proposição de políticas públicas de gênero que deem um basta à violência contra as mulheres.

Em Rio Branco, a presidente do IMA, Concita Maia, a presidente do Sindoméstica, Ana Maria Nascimento; as representantes da Associação de Mulheres Negras, Almerinda Cunha e Silvania Oliveira; a representante do Instituto Ecumênico Fé e Política, Rosali Scalabrin; a integrante do Movimento de Mulheres Camponesas, Tereza Cruz, representante da Rede MulherAções e Ouvidoria do Núcleo de Estados Afro-brasileiro e Indígenas (Neabi/Ufac), Cláudia Marques e a advogada Tatiana Karla Almeida foram recebidas pela procuradora-geral do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC), Kátia Rejane de Araújo Rodrigues, e pela procuradora de justiça e coordenadora do Centro de Atendimento à Vítima (CAV), Patrícia de Amorim Rego, e equipes.

Durante o encontro, além de protocolar os documentos oficiais, as mulheres manifestaram seus sentimentos diante da realidade perversa de feminicídios e violências, as quais as acreanas estão expostas.

O Levante Feminista Contra o Feminicídio realizou a entrega do ofício em 20 estados brasileiros (Foto: Ana Paula Pojo)

Ao entregar o ofício, a professora Cláudia Marques fez um recorte sobre as mulheres negras. “As mulheres negras são o alvo sistemático da violência, 75% das vítimas de feminicídio são mulheres negras, 95% das mulheres encarceradas são negras e isso não está descolado de uma série de outras violências”, alertou.

A Associação de Mulheres Negras também entregou à procuradora-geral um manifesto, solicitando, entre outras ações, a execução e fiscalização da Lei 10.639, que torna obrigatório o estudo da cultura e história afrobasileira nas escolas.

“Me comprometo pessoalmente com as pautas para dialogar, pois se trata de demandas que precisam estar nas nossas agendas de forma prioritária e podemos avançar bastante. As manifestações e pleitos aqui levantados serão acolhidos pelo Ministério Público e iremos fazer todo o esforço necessário”, afirmou a procuradora-geral, Kátia Rejane.

A presidente do IMA agradeceu a parceria. “Esse foi um momento muito fecundo de escuta, em que todas as instituições que compõem o Levante foram ouvidas. Mas, acima de tudo, um momento em que foi selado um compromisso de parceria com a atual gestão do Ministério Público”, destacou Concita Maia.

Feminicídio

Em 2020, o Acre registrou 12 feminicídios. Até outubro de 2021, oito mulheres perderam suas vidas para o machismo e a falta de políticas públicas, a maioria delas eram negras.

“Infelizmente, a maioria das vítimas de feminicídio são mulheres negras. E isso tem uma explicação: são as mulheres que vivem numa situação de vulnerabilidade social mais intensa, além de serem pobres, são mulheres e são negras, têm uma rede de proteção bem menor. E o racismo na nossa sociedade, infelizmente, ainda é muito forte, que aliado ao machismo e esse sentimento de que o homem é dono da mulher, mata”, denuncia Almerinda Cunha, coordenadora administrativa da Associação de Mulheres Negras.

Aos 70 anos, a liderança do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) Terezinha de Jesus Araújo segue lutando contra o feminicídio e os direitos das mulheres. “Eu perdi uma irmã para o feminicídio, ela foi assassinada pelo próprio filho. Nem mesmo os meus 70 anos de vida me fazem parar de lutar por justiça para todas as mulheres. É pelas nossas vidas que estou hoje aqui”, disse.