Como os agricultores do Juruá se organizaram para comprovar a qualidade diferenciada da farinha de mandioca produzia na região? De que forma a história e a cultura regional participam do processo de constituição de características particulares desse produto? Como essa certificação pode contribuir para valorizar o produto no mercado? Estas e outras questões estão presentes no livro “Indicação Geográfica da Farinha de Mandioca de Cruzeiro do Sul, Acre”, lançado pela Embrapa Acre e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), no dia 27 de setembro, durante a terceira edição do Festival da Farinha, em Cruzeiro do Sul.
A publicação reúne resultados de pesquisas desenvolvidas para apoiar agricultores familiares do Juruá na obtenção do selo de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência, conquistado pelo produto em 2017. Composta por oito capítulos produzidos por profissionais da Embrapa e instituições parceiras, a obra tem o objetivo de compartilhar informações sobre a produção de farinha de mandioca no Juruá e dar visibilidade à Indicação Geográfica como ferramenta de fortalecimento da cadeia produtiva da mandioca no Acre e como estratégia de desenvolvimento local. Além de contextos históricos e atuais do processo produtivo, os conteúdos destacam aspectos simbólicos da diferenciação desse produto e permitem vislumbrar o caráter intrínseco da Indicação Geográfica
“Por meio de estudos técnicos buscamos evidenciar desde a caracterização da cadeia da mandioca, melhorias no processo de produção, definição de padrões de identidade e características físicas e químicas que enfatizam a qualidade da farinha de Cruzeiro do Sul e sua vinculação com um “saber fazer” particular dos agricultores do Vale do Juruá, até a identificação do potencial da região produtora para a Indicação Geográfica. De modo complementar, a partir de abordagens midiáticas, agregamos informações sobre a percepção de produtores e gestores públicos do Juruá e consumidores de diferentes localidades, que confirmam a notoriedade e qualidade do produto, considerado por muitos como a “melhor farinha” do Brasil”, explica a pesquisadora da Embrapa Acre, Joana Souza, uma das editoras técnicas do livro.
A versão impressa do livro será distribuída gratuitamente a produtores rurais, gestores públicos e representantes de instituições parceiras em projetos envolvendo a cadeia produtiva da mandioca. O formato digital está disponível no site www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1086100/indicacao-geografica-da-farinha-de-mandioca-de-cruzeiro-do-sul-acre
Componente humano
Segundo a pesquisadora da Embrapa Acre, Virgínia Álvares, que coordenou parte dos estudos desenvolvidos e também participa da editoria da publicação, por contemplar tanto questões agronômicas da produção de mandioca como relacionadas à tecnologia de alimentos, vinculados a um viés histórico-cultural, o conhecimento disponibilizado ajuda a compreender a própria região do Juruá e a essência do processo de IG. Entre os aspectos mais relevantes da obra está o componente humano como principal elemento impulsionador da Indicação Geográfica. “Embora outros fatores sejam considerados, é o conhecimento tradicional dos agricultores, adquirido ao longo de mais de cem anos de tradição e traduzido no modo peculiar de fazer, que determina efetivamente a qualidade da farinha de Cruzeiro do Sul”, diz.
Para a analista do Sebrae, Murielly Nóbrega, editora da publicação e responsável pelas ações de apoio e manutenção da IG da farinha de Cruzeiro do Sul, o livro traduz esforços conjuntos de instituições e pessoas na execução de diferentes projetos e chega como um presente para produtores rurais, estudantes e profissionais da pesquisa e fomento à produção. “Além de uma gama de informações técnicas sobre a cadeia produtiva da mandioca, diferentes públicos poderão conhecer, com detalhe, o processo de obtenção e implementação da Indicação Geográfica do primeiro produto acreano a conquistar esse selo diferencial”.
Fonte de emprego e renda para mais de duas mil famílias rurais dos municípios de Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo, Porto Valter, Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul, a produção de farinha é a principal atividade econômica do Juruá. Em agosto de 2017, após mais de uma década do início do processo, a farinha de Cruzeiro do Sul (como o produto é conhecido), recebeu o selo de Indicação Geográfica, concedido pelo junto ao Instituto Nacional Propriedade Industrial (INPI, espécie de atestado oficial da sua qualidade diferenciada que funciona como estratégia de valorização do produto no mercado.


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