
No segundo semestre de 2024, a população de Boca do Acre enfrentou níveis de poluição de até 113 µg/m³, valor 653% acima do limite estabelecido pela OMS. No dia a dia, moradores relatam que tiveram que usar máscaras e crianças ficaram duas semanas sem aulas.
No auge da temporada das queimadas, entre junho e dezembro de 2024, bairros como Conjunto Antônio Jorge, Conjunto João Pedro, Rabo da Cobra e Shan foram os mais impactados pela poluição da fumaça da Amazônia, especificamente entre as populações em situação de vulnerabilidade social.
Juntas, esses quatro bairros registraram os piores índices de poluição na Amazônia causados pelas partículas tóxicas da fumaça, cientificamente chamadas de material particulado fino (PM2.5), no segundo semestre do ano passado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para evitar doenças respiratórias, a exposição diária ao PM2.5 não deve ultrapassar 15 µg/m³. No entanto, nessas áreas de Boca do Acre, a concentração de fumaça atingiu uma média de 113 µg/m³ em setembro do ano passado, valor 653% acima do considerado seguro.
De 1º de julho a 31 de dezembro de 2024, a concentração média de poluição nas comunidades urbanas de Boca do Acre foi de 40,2 µg/m³, índice 168% acima do limite recomendado pela OMS.
O pico de fumaça nessas regiões de Boca do Acre foi no mês de setembro — mesmo período de alta na Amazônia, conforme o levantamento. No entanto, julho, agosto e outubro também registraram índices acima do limite considerado seguro pela OMS.
Moradores ouvidos pela reportagem relatam que toda a cidade enfrenta precariedade na infraestrutura, com ruas sem asfalto e falta de saneamento. Na parte urbana, 40% dos domicílios estão sujeitos a risco de inundação, conforme levantamento do Instituto Água e Saneamento, entidade que cobra mais acesso ao esgotamento sanitário no Brasil. Esses problemas são ainda mais evidentes nas quatro favelas e comunidades onde a concentração de fumaça foi mais alta.
‘Difícil viver com tanta fumaça’
Moradora do conjunto Antônio Jorge, umas das regiões mais afetadas pelo material particulado, a estudante de biologia Nayane Andrade de Souza não guarda boas lembranças de setembro de 2024, época em que a região estava tomada por fumaça.
“Foi uma situação muito ruim, agoniante”, contou. Ela lembra que o problema foi tão grave que a população local precisou recorrer ao uso de máscaras nos meses da temporada de queimadas, como nos tempos da pandemia de Covid-19.
“Para quem tinha sua rotina de caminhar à tarde foi difícil. Passear com as crianças era impossível. Para não inalar fumaça, saímos de máscara e, mesmo assim, era impossível não ser atingido. Tivemos falta de ar, olhos lacrimejando, tosse. A população teve que passar por isso”, lembra.
Nielly Vieira Mota, cabeleireira e moradora do mesmo bairro de Nayane, relatou à reportagem que a situação ficou insustentável em diversos momentos. “Foi muito ruim, principalmente pra quem sofre com falta de ar”, afirma. Ela lembra de ter sentido ardência nos olhos e dor de cabeça nos dias com maior intensidade de fumaça.
A cabeleireira é mãe de uma menina e afirma que as aulas foram canceladas por um mês, entre setembro e outubro de 2024, devido às condições atmosféricas. “As aulas passaram a ser online porque estava insuportável. Mesmo dentro de casa era difícil viver com tanta fumaça”.
A realidade nas quatros regiões de Boca do Acre foi ainda mais desconfortável para aqueles que não tinham acesso a ar-condicionado, relembra Nielly: “Quem tinha ar-condicionado podia se proteger um pouco, mas eu não tinha. Era em frente ao ventilador mesmo, mas o vento piorava a falta de ar”. Ela precisou interromper o trabalho em setembro porque não tinha condições de receber os clientes.
Impactos à saúde
O dentista José Carlos Lopes, que à época atendia pacientes na Unidade Básica de Saúde (UBS) Francisca Amélia, zona oeste de Boca do Acre, lembra de ter ouvido relatos de pessoas com problemas respiratórios. Atualmente, ele é o diretor do hospital estadual Dona Maria Geni, localizado na região.
“Na atenção básica, percebi, como cirurgião dentista, um aumento significativo dos atendimentos de doenças respiratórias, principalmente entre crianças e idosos. As aulas foram paralisadas, as atividades físicas ficaram de lado, começamos a sentir os efeitos do clima até no ambiente de trabalho, pois o ar-condicionado piorava tudo”, lembra Lopes.
Ele conta que, à época, principalmente em setembro, a fumaça deixava a cidade com pouca visibilidade. Devido ao calor, as pessoas precisavam de ambientes refrigerados, o que se somava ao problema.
“Sentimos bastante ardência nos olhos, problemas de rinite e outros respiratórios. Fora o desafio de viver em um ambiente insalubre, com pouca visibilidade e clima extremamente seco”, completa Lopes.


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