Direito à Cidade: mulheres em perigo constante

Por Jennifer Jucá

Quando iniciei o curso de direito, depois da aula eu não ia pra casa, pois como moro em um bairro periférico considerado perigoso, minha mãe não achava seguro que eu andasse por lá tarde da noite, afinal, por depende de transporte público, chegava além da meia noite, e na época não havia iluminação pública. Após a faculdade eu ia para a casa de uma tia com melhores condições econômicas que morava em um residencial, em um bairro menos perigoso. Pela manhã ia para a minha própria casa.

Ser mulher, e andar em local deserto tarde da noite é uma experiência difícil de descrever. Não houve um dia em que eu fiz o trajeto da parada de ônibus para a casa da minha tia de forma despreocupada. Eu sempre andei tensa, em estado de alerta, e andava rápido, quase correndo, só não corria por medo de chamar a atenção de alguém.

Meu companheiro de viagem era um pequeno canivete de pesca que ganhei, pois, caso o pior acontecesse, tentaria me defender. Torcia para que nunca precisasse usá-lo. A verdade é que meu maior medo era de ser estuprada, não me assustava tanto a possibilidade de ser assaltada, é claro que não seria bom, mas dos males seria o menor, afinal um bem subtraído, com muito esforço e dificuldade poderia ser recuperado, mas o trauma de sofrer violência sexual dura por toda a vida, isso se o estuprador me deixasse sair viva.

Lembro que tive que diminuir a frequência com que eu assistia o noticiário, pois, diante de casos de violência contra a mulher, geralmente com a mesma idade que eu, comecei a ter medo de sair de casa, mas felizmente consegui superar.

Sei que o medo do estupro, em regra, não assombra o dia-a-dia masculino. Falo isso porque meu irmão também conseguiu uma bolsa na mesma faculdade que eu, e desde então pude, depois da aula, ir para a casa. No caminho, ao lado dele, notava que não parecia temeroso, apenas escondia o celular para não ser assaltado, fora isso mais nada. Quando eu faltava, e ele vinha só, podia fazer o trajeto pelo nosso bairro. Algo que, sozinha, eu não tinha a permissão para fazer.