Três meses após confirmar a primeira morte pela covid-19 em território nacional, o Brasil contabilizou, ontem, 45.241 óbitos pela doença, mais de 10% do total mundial, ainda que o país concentre menos de 3% da população mundial. O Brasil também bateu, Nesta terça-feira (16/6), mais um recorde: 34.918 casos confirmados de segunda para terça, totalizando 923.189 brasileiros infectados. Mesmo diante dos explosivos registros diários de mortes e casos da doença, a negação da pandemia por parte do governo federal continua, juntamente com a falta de unidade entre os entes federativos.
Em números absolutos, o Brasil só fica atrás dos Estados Unidos em vidas perdidas para o novo coronavírus, com 116.788 mortes. Mas ao considerar o número por 100 mil habitantes, 14 países passam na frente do acumulado brasileiro. Enquanto a mortalidade nacional é de 21,5 perdas, no Reino Unido, por exemplo, são quase três vezes mais (62,9). Dentro do grupo de nações mais afetadas pela doença, a Itália tem índice de 56,88, seguida pelos Estados Unidos (35,49), Equador (23) e Canadá (22,2). Os dados fazem parte do levantamento da Universidade Johns Hopkins.
Apesar da comparação mostrar que o enredo nacional não se enquadra no pior cenário, para especialistas, isso não quer dizer que a condução brasileira seja considerada um “bom exemplo”. “Há países que reagiram de maneira mais adequada e os (países) que não tiveram boa capacidade de organizar recursos para formar uma boa resposta. Neste último, se enquadra o Brasil”, afirma o médico sanitarista e professor da FGV Adriano Massuda. Ele justifica que, apesar de ter um Sistema de Saúde Único (SUS) com integração da rede pública e suplementar, além de tradição de programas que obtiveram sucesso em deter outras epidemias, as autoridades não souberam aproveitar as vantagens no combate à covid.
“Um doente que não toma as medidas necessárias, não trata os sintomas com responsabilidade, tende a agravar o quadro clínico. E foi isso que aconteceu no caso do governo federal ao tentar minimizar a gravidade e perpetuar um discurso de negação”, aponta Massuda.
O sanitarista pondera, no entanto, que houve sucesso em determinadas respostas, como nas ações de estados e municípios para conter a transmissão. A ampliação de leitos de UTI, com acréscimo de mais de 7 mil leitos adultos no período da pandemia, foi outra medida necessária para conseguir tratar os casos graves e conter o aumento desenfreado de óbitos.
Para se ter uma ideia, um mês após a confirmação da primeira morte, em 16 de março, o Brasil registrava 1.933 perdas pela covid. O número cresceu mais de oito vezes no decorrer de mais de 30 dias, chegando a 15.633 óbitos; e, agora, bateu a marca das 45 mil vidas perdidas pela doença, triplicando as fatalidades. O salto também é percebido por semana epidemiológica. Enquanto na 13ª semana houve acréscimo de 96 mortes, na 16ª, as atualizações já ultrapassavam a casa dos mil; e na 23ª, somou o número recorde de 7.096 óbitos em sete dias. Justamente na semana de número 24, quando o governo federal tirou do ar o site do Ministério da Saúde com o acumulado de casos da pandemia e anunciou que iria mudar a modelagem da plataforma, ocorreu a primeira queda, registrando mais 6.790 vidas perdidas.


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