Construindo florestas com bambu

A oferta mundial de bambu vem principalmente da China, que possui cerca de 7 milhões de hectares floresta de bambu dos quais 30 % são florestas plantadas e são explorados apenas 1 milhão de hectares.
No mundo, os dados do INBAR, estimam 37 milhões de hectares as florestas de bambu, o equivalente a cerca de 4% da área total de florestas na Terra.

Na Ásia, o bambu é usado de forma intensiva e somente a China comercializa cerca de 1.500 tipos de produtos diferentes a base de bambu. Muitos destes produtos, são produzidos por pequenos produtores, em pequena escala e alguns para consumo próprio. Cerca de 7,75 milhões de pessoas são empregadas na cadeia produtiva do bambu, somente na China, num setor que movimenta cerca de US$ 19,5 bilhões por ano.

O Brasil é detentor de um grande número de gêneros e espécies de bambu. As espécies nativas são conhecidas geralmente por taquara, taboqui, taboca, bambu gigante, taboquinha, taquaruçú, taboca-açú ou bambu brabo, conforme a região de ocorrência. De acordo com a Lista de Espécies da Flora Brasileira existem 258 espécies de bambu no País, distribuídas em 35 gêneros e encontradas nos diferentes biomas brasileiros, em todo o território nacional.

Essa diversidade, correspondente a cerca de 20% do total dos bambus no mundo. Existem grandes áreas desses tipos de bambu na Floresta Amazônica (concentradas, principalmente no Estado do Acre), no parque da Foz do Iguaçú, na Mata Atlântica, na Ilha do Marajó, nas margens do Rio Guaiba e nas bordas de rios do Pantanal.

Nessas regiões ocorrem bambus pertencentes ao gênero Guadua – um dos mais importantes para uso em construções.

O Brasil, é um dos líderes mundiais na produção agropecuária, e também possui uma enorme vocação florestal. Essa aptidão já é explorada atualmente, quer com os plantios comerciais (principalmente de espécies exóticas), quer com o manejo florestal de uso múltiplo (com espécies nativas, principalmente na Amazônia). Porém há um caminho para a evolução nos dois sentidos, a partir do manejo consciente, valorizando a biodiversidade, considerando o potencial dos solos e o potencial econômico dos produtos madeireiros e não madeireiros, de forma a ampliar o capital natural para combater as mudanças climáticas e reduzir a pobreza, com ganhos sociais, culturais e ambientais significativos. A restauração florestal utilizando espécies nativas de bambu como um dos componentes dos arranjos é uma das formas de se construir florestas com alta capacidade de produção de carbono, alta biodiversidade e alto potencial econômico.

Conforme dados da Associação Brasileira de Produtores de Bambu (Aprobambu), existem cultivos de bambu no Maranhão (22 mil hectares) destinados à produção de biomassa para geração de energia para o setor industrial, principalmente cervejarias e cerâmicas e produção de polpa de papel. Na Paraíba e Pernambuco, os 15 mil hectares com a planta destinam-se à produção de celulose e papel para embalagens para cimento. Na Bahia, a Penha Papéis, possui 3.500 hectares para gerar vapor em caldeiras. No Mato Grosso a FS Bioenergia implantou em 2019 e 2020, 5.000 hectares para gerar vapor em caldeira, para produção de etanol de milho. São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás, Santa Catarina, Minas Gerais e Paraná investem em cultivos comerciais com foco na produção de painéis, broto, carvão para siderurgia e fitocosméticos.

O Brasil tem registrado mais de 7,5 milhões de propriedades rurais. Destas, 70% são menores de 50 hectares. Pequenas propriedades, no entorno das grandes cidades e uma percentagem significativa com baixo ou nenhum retorno econômico. Visando ocupar esse espaço verde com rendimentos nos quatro pilares: econômico, cultural, ambiental e social, novas experiências com plantios consorciados utilizando bambus nativos e exóticos já estão sendo acompanhadas e os resultados são muitos promissores. Em São Paulo, os plantios consorciados em Itatiba, Pardinho, Botucatu e Tatuí, tem se mostrado promissores e incluem as espécies Baru, Jatobá, Aroeira Pimenteira, Copaíba, Angico vermelho e Macaúba como parte do componente florestal, abrindo a possibilidade de uso econômico para as áreas recuperadas. Seja na produção de óleos e farinhas funcionais e/ou na produção de mel consorciado. Sem contar com a possibilidade de prestação de serviços ambientais desta floresta na geração de créditos de carbono, ao lado de centros poluidores.

No Mato grosso, a ONG Floresta Virgem, iniciou o plantio integrando com espécies nativas da base da cultura dos índios Kamaiurá, consorciando bambu com Jatobá, Pequi e inserindo nativas regionais como Aroeira Pimenteira e Baru. A área referente ao plantio de bambu em Mato Grosso do Sul ainda é pequena, porque até momento foram feitos apenas alguns experimentos com a floresta plantada. No estado, a espécie nativa é a Guadua chacoensis, considerada uma das melhores comercialmente entre as mais de 1,3 mil espécies.

Outras experiências vêm sendo feitas no Tocantins e Goiás, utilizando a Integração Pecuária e Floresta, com mogno africano, bambu gigante e braquiária. O bambu foi implantado num pasto de braquiária antigo, já com uma floresta de mogno africano com 6 anos. A pastagem foi isolada por 2 anos e o gado foi liberado para pastoreio. A sombra do bambuzal, a braquiária com o ingresso dos resíduos anuais do bambu, 25% do total da touceira vai ao solo, contribuindo para as condições do solo, segurando mais umidade e melhorando o bem-estar aos bovinos, em função da sombra acolhedora.

No Acre, duas iniciativas recentes se destacam: a primeira em Cruzeiro do Sul que visa construir uma pequena floresta energética para uma indústria de cerâmica, utilizando bambu nativo e exótico em solos muito pobres, com os resultados, pode-se ter um caminho para recuperação e manejo de áreas degradadas nesta região. Em Rio Branco, um plantio altamente diverso, que inclui mais de 10 espécies de bambu nativos e exóticos consorciados com mais de 10 espécies florestais, mostram que em 3 anos de manejo intenso é possível transformar pastagens degradadas em áreas biodiversas, com altos estoques de carbono, intensos serviços ambientais e com potencial econômico enorme.

O plantio consorciado de bambus e outras espécies de florestais nativas pode gerar emprego e renda no meio rural, recuperar o solo e aumentar a disponibilidade de água, aumentar os estoques de carbono, além de fornecer produtos como colmos, madeira, frutos, brotos, óleos, essências, castanhas e outros, diminuindo a pressão do desmatamento e da extração das florestas nativas destinadas à conservação e preservação. Ressaltando-se ainda que a atividade de reflorestamento é crucial para a consolidação de políticas públicas do Brasil, como os compromissos de combate às mudanças climáticas no âmbito do Acordo de Paris, o cumprimento do Código Florestal (lei federal 12.651 de 2012), no que se refere aos Planos de recuperação ambiental, a Política Nacional do Bambu e a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa.

Caminhar para o desenvolvimento sustentável, considerando os objetivos globais de desenvolvimento vinculados a estratégias locais de gestão territorial se tornou imperativo neste novo século XXI. O desafio é construir uma economia inovadora com baixas emissões, que concilie as exigências para a agricultura e pecuária sustentáveis, segurança alimentar, e o uso sustentável dos recursos biológicos renováveis para fins industriais, assegurando ao mesmo tempo a biodiversidade e conservação ambiental.

Este novo campo da economia, que ao mesmo tempo é antigo e se baseia em conhecimentos dos povos tradicionais, se preocupa em consumo consciente e em equilíbrio do meio ambiente, nada mais é do que é a bioeconomia, ou economia verde, ou economia sustentável. O objetivo da bioeconomia é ser uma economia focada na utilização de recursos de base biológica, recicláveis e renováveis, ou seja, que tenha um caminho efetivo da sustentabilidade. Construir florestas com bambu é praticar de forma eficiente a Bioeconomia a partir do conhecimento local no manejo de paisagens degradadas gerando lucros com ativos ambientais que contribuem para o equilíbrio climático local e do planeta. Vamos plantar florestas com bambu!!!!

Escrito por Guilherme Korte (Aprobambu), Emanuel Amaral (Aprobambu), Gustavo Araújo (Aprobambu) e Aldemar Maciel (Sebrae/AC)