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domingo, 14 de junho de 2026
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Conflito agrário: jornal “El País” destaca bocacrense na lista de jagunços e pistoleiros

O bocacrense Cosme Capistano, ativista que há muito tempo milita na Comissão Pastoral da Terra, na luta pelo direito dos pequenos contra os latifundiários e grileiros, foi citado pelo jornal argentino “El País”, como um dos nomes mais perseguidos do Brasil no contexto do conflito agrário.

Há muito tempo que Capistano vem sendo alvo de perseguições e ameaças. Ele já teve o local de trabalho invadido e revirado, chamadas desconhecidas que o ameaçam de morte. Isso tudo porque ele decidiu viver a luta de quem só um pequeno pedaço de chão para cultivar, plantar, colher e sobreviver.

“El País” listou nomes de brasileiros que vivem sob o fantasma da ameaça de morte. Dentre eles está Cosme Capistano, que teve a história muito bem contada pelo periódico. Confira

A matéria
Algumas das noites de sono de Cosme Capistano da Silva são atravessadas por um pesadelo recorrente. “Estou correndo, é uma situação de conflito no campo. Tem muito tiro, muita gente armada gritando meu nome”, conta o agricultor de 56 anos, que aos nove já trabalhava em situação análoga à escravidão em seringais da Amazônia brasileira.

A cena de horror não brotou em seus sonhos do nada: seu nome foi achado em uma lista de pessoas marcadas para morrer por jagunços e pistoleiros da região de Boca do Acre, no sul do Estado do Amazonas. Estava ao lado de outros quatro nomes —ou CPFs, como falam os matadores—, entre eles o do advogado Fernando Ferreira da Rocha e o do líder camponês Manuel, dois de seus amigos. “Manuel foi assassinado com 15 tiros, em julho de 2019. Doutor Fernando com sete tiros, dentro da casa dele, neste ano. Meu nome agora é um dos primeiros da lista.”

Cosme é agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade que atua no interior do país para ajudar camponeses na luta pela terra. A região de Boca do Acre é marcada pela violência e conflitos agrários. A terra é disputada à bala por grandes fazendeiros, grileiros e madeireiros, e a vida de Cosme agora vale “10 hectares, ou 100.000 reais”, ele diz. Este é o preço que se paga a um matador “pela cabeça de uma liderança camponesa, um padre ou um integrante da Pastoral”.

Sentado na varanda de sua casa, uma construção de alvenaria e paredes sem reboco, ele desfruta de um raro momento de tranquilidade ao lado dos filhos, de 4 anos e 10 meses. No loteamento, fruto de uma ocupação de terra às margens da BR-317 (que liga Assis Brasil, na fronteira com o Peru, até Boca do Acre), ele observa os campos de soja e pastos que se estendem até perder de vista às margens da rodovia.

A cena bucólica contrasta com a dura realidade: continuar vivo apesar de ter a cabeça colocada a prêmio cobra um preço. “Isso [a lista] me preocupa, eu temo. Principalmente porque você percebe que sempre quando eles ameaçam, eles fazem, infelizmente”, diz.

Para garantir sua segurança, ele dorme em vários locais e cidades diferentes. “Só digo pra família para onde vou. Quando vou para as comunidades também não divulgo, só aviso as lideranças locais. Não tenho canto certo para ficar. Hoje estou aqui, outro dia estou em outro canto”, afirma.

Alexandre Cruz Noronha
Neste contexto, a autoria dos crimes e ameaças é difícil de ser descoberta. “A gente sabe, mas não temos como apontar os nomes. Mas são os fazendeiros e os madeireiros da região. Não tem outros. É esse povo, mas não posso dizer ‘é esse fulano”, explica Cosme.

A lista com o nome dos alvos da pistolagem chegou ao conhecimento da Pastoral em 2018, por meio de um ex-funcionário de fazenda que ouviu uma reunião entre jagunços e fazendeiros na qual se discutia quem seria morto. Perto de um curral em uma propriedade às margens da BR-317 também foi encontrado um bilhete com a mesma relação de pessoas mencionadas na conversa. “Com a morte do Manuel e do doutor Fernando, de quem eu era bem próximo, sobramos eu, o Paulo da Palotina [liderança comunitária] e o doutor Félix [advogado ligado às causas populares]”, diz Cosme.

As ameaças são uma constante em sua vida. A primeira da qual se recorda foi em 2009: “Ligaram para o meu telefone dizendo que eu ia morrer naquele ano”. Dois anos depois “ligaram para o escritório da Pastoral e disseram que eu e a Darlene, que é uma das coordenadoras, iríamos morrer”.

Os casos se empilham nas memórias de Cosme: “Em 2015 fui ameaçado pessoalmente pelo fazendeiro José Baiano, que foi até a sede da Pastoral com capangas armados. No mesmo ano um jagunço chamado Ivaldomiro disse que minha cabeça tinha que amanhecer numa vara… E por aí vai”.

Em 2012 o azar se transformou em sorte: “Fui para uma reunião em um ramal [trevo] aqui na estrada. E tinha uma caminhonete com quatro caras para me matar. Eu estava de moto com um amigo, e eles só conheciam o rosto deste rapaz que me acompanhava”, conta Cosme. Há um quilômetro da entrada do ramal a corrente da moto quebrou. “Como eu estava atrasado, segui a pé. Passei por eles [os pistoleiros], cumprimentei e vim embora. Eles todos armados, não me mataram porque não me reconheceram, só conheciam o rapaz e sabiam que chegaríamos de moto. Na hora eu também não sabia que eles estavam lá para me matar”.

A primeira vez frente a frente com jagunços armados ocorreu aos 17 anos, em um lote de terra nesta mesma BR-317. “Uns jagunços expulsaram as famílias e ficaram tomando conta do local, protegendo para que não chegasse ninguém”, lembra. O batismo de fogo de Cosme ocorreu ao lado de uma das figuras mais lendárias da luta em defesa da floresta e do pequeno agricultor. “O Chico Mendes [assassinado em 1988] veio de Rio Branco e trouxe uns 40 homens. O pessoal de Boca do Acre trouxe mais uns 60″, conta.

De um lado, quase uma centena de camponeses com facões e foices. Do outro, uma dezena de jagunços com armas de fogo. Se arquitetava o cenário para um banho de sangue. “Eles sacaram as armas. E aí o Mendes, sempre na frente liderando a turma com outros caras, disse para os jagunços que não valia a pena atirar, que eles tinham família, que ele sabia que ninguém estava ali por que queria, mas sim porque eles eram pagos para fazer aquilo”.

Apesar de todas as ameaças, Cosme não pensa em desistir da luta e abandonar Boca do Acre. “Pra mim ir embora é matar metade da minha vida também. Se eu for embora também estou morrendo. Minha terra, minha família e meus amigos… Sair daqui pra ir embora também é uma forma de me matar”, diz. “E no sonho eu sempre acordo antes de ser atingido”.

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