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sexta-feira, 14 de agosto de 2026
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Como ler os dados sobre eficácia das vacinas contra a covid-19

A imunização para a covid-19 fica cada vez mais próxima à medida que vários laboratórios divulgam os resultados de eficácia de suas vacinas após testes em humanos. Desde meados de novembro, quatro candidatas tiveram índices apresentados à mídia. No entanto, nenhuma delas havia publicado, até sexta-feira (27), um estudo científico com os dados para análise de pares.

A aprovação das vacinas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) pode ocorrer antes da publicação dos resultados à comunidade científica. Mas no passado, para outras doenças, foi comum que a submissão à agência acontecesse paralelamente a publicização dos dados aos cientistas.

Quem já anunciou


INSTITUTO GAMALEYA

O Instituto de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia de Gamaleya, ligado ao Ministério da Saúde da Rússia, diz que sua vacina tem eficácia acima de 95% de eficácia após segunda dose;

PFIZER/BIONTECH

O produto desenvolvido pelo laboratório americano Pfizer em parceria com a empresa alemã de biotecnologia BioNTech apresentou uma taxa de eficácia de 95%; e para pessoas com mais de 65 anos, 94%;

MODERNA

A empresa americana, que é a maior aposta do governo dos EUA, diz que sua vacina tem uma eficácia de 94,5%;

OXFORD/ASTRAZENECA

A vacina produzida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca apresentou uma eficácia de 90% quando administrada em meia dose seguida de uma dose completa; em duas doses, a eficácia foi de 62%. Nenhuma das organizações explicou o motivo para a meia dose ser mais eficaz, dizendo que mais estudos precisam ser conduzidos.

Das quatro, os dados preliminares publicados pela Oxford/AstraZeneca já foram questionados por cientistas. O laboratório não apresentou o número de infectados por coronavírus para cada grupo estudado, apenas a quantidade total da pesquisa. Como parte dos participantes recebeu as duas doses e outra meia dose — por um erro de aplicação —, não é possível replicar o cálculo de eficácia, o que gera dúvidas quanto a confiabilidade dos dados.

Na quinta-feira (26), o presidente-executivo da AstraZeneca, Pascal Soriot, anunciou que a empresa fará um teste adicional para verificar a eficácia da vacina a partir da meia dosagem inicial.

Como é feito o cálculo de eficácia


Para calcular a taxa de eficácia, um imunizante precisa chegar à fase 3 dos testes clínicos com humanos, quando ele já é considerado seguro e podem ser conduzidos testes em dezenas de milhares de pessoas; no caso, de pessoas que atuam na linha de frente da doença, como enfermeiros e médicos, e tem mais chances de entrarem em contato com o vírus.

Nessa fase, voluntários que ainda não contraíram o vírus são divididos em dois grupos. Um recebe a vacina em questão, outro um placebo, sem efeito. A eficácia é obtida da comparação desses dois grupos. Quanto mais casos de infecção no grupo placebo em relação ao que recebeu a vacina, maior a eficácia. Assim, entende-se que o imunizante ajudou a evitar a contaminação do segundo grupo.

Mas esse cálculo só pode ser feito depois que há um número amostral suficiente para a comparação. Por isso, é estabelecido um número mínimo de pessoas que precisam contrair o vírus. Esse piso varia dependendo da vacina, mas a fórmula usada para o cálculo é a mesma. Por exemplo, numa situação em que 20% dos voluntários que receberam a vacina e 70% o placebo se infectaram, divide-se a porcentagem do primeiro pelo segundo. Então, faz-se um menos o valor resultante. No caso hipotético, a eficácia seria de 71,4%.

Quando se fala em porcentagem de eficácia, trata-se da capacidade de uma vacina prevenir uma enfermidade. Ou seja, se a vacina tem 95% de eficácia, significa que em 100 pessoas, 95 foram protegidas, e 5 podem adoecer. Tomar uma vacina de menor eficácia significa então que as chances de adoecer são maiores do que se imunizado por outra de maior eficácia.

Qual deve ser a eficácia mínima


Para a maior parte das doenças, o padrão de eficácia mínimo estabelecido pela Anvisa é de 70%. Só assim a agência brasileira aprova o uso de uma vacina na população.

Por causa da emergência imposta pela pandemia de covid-19, a Anvisa, a OMS (Organização Mundial da Saúde), a FDA (agência responsável pela regulação de medicamentos nos EUA) e outros órgãos mundo afora defenderam que uma vacina com 50% de eficácia já pudesse ser aprovada.

Para definir esse mínimo, as agências usaram como parâmetro a taxa de reprodução inicial do Sars-CoV-2, vírus que causa a covid-19. Essa taxa indica o número médio de pessoas que podem ser contaminadas por uma já infectada, se não houver nenhuma medida de controle de disseminação do vírus, como o distanciamento social. No caso do coronavírus, uma pessoa transmite para outras duas — alguns cálculos chegam a três pessoas. Assim, tendo uma vacina pelo menos 50% eficaz, em vez de duas pessoas, apenas uma seria infectada, já que a outra estaria imunizada.

Na teoria, a pandemia para de crescer e pode ser controlada. Mas como a população não será toda vacinada de uma vez, haverá um gargalo. Para isso, quanto maior a eficácia e maior a cobertura de vacinação em uma população, maiores as chances de se combater o vírus. O efeito da vacina também depende do sistema imunológico de cada pessoa, que pode responder melhor ou pior.

Nenhuma vacina confere proteção integral. Algumas das mais eficazes são a da poliomielite, que garante 99% depois das três doses da gotinha e a da tríplice viral (contra caxumba, rubéola e sarampo), com 97%. As vacinas da gripe giram em torno de 65%.

Mulher com máscara e luvas em um laboratório atrás de utensílios químicos como tubos de ensaio

nexojornal