O período de distanciamento social causado pela pandemia do novo coronavírus tem levado a um aumento na venda de livros em diversos países no mundo. Com as pessoas passando mais tempo em casa, a demanda por produtos culturais aumentou de forma geral.
No Reino Unido, a procura por livros cresceu cerca de 33% em relação ao mesmo período em 2019, e as vendas online tiveram um aumento de 400% na comparação com o ano passado.
A tendência também se fez presente na Espanha, um dos locais mais atingidos pela pandemia. De acordo com dados divulgados pela Libranda, uma das principais editoras e distribuidoras de livros do país, o crescimento mais expressivo se deu nos livros digitais: um aumento de 50% na demanda no mês de março, em comparação com 2019.
O cenário não é o mesmo no Brasil, no entanto. Segundo dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, houve uma queda de 4,09% no volume de vendas entre 29 de fevereiro e 24 de março se comparado com o mesmo período em 2019. De acordo com o sindicato, a queda é reflexo direto da pandemia, que fechou as portas do comércio ao redor do país.
O livro como serviço essencial
A procura por livros pode ter aumentado, mas livrarias tem sentido o impacto do fechamento do comércio durante quarentenas. De forma geral, a compra de livros tem sido feita por meio de canais digitais, o que tende a levar consumidores para sites de grandes redes e lojas.
Nos EUA, a Associação Americana de Livreiros tem arrecadado doações para prover auxílio financeiro para livrarias independentes e de pequeno porte. Até a manhã de 14 de abril, US$ 690 mil já tinham sido angariados.
Algumas pessoas argumentam que as livrarias deveriam ser consideradas serviços essenciais em meio à pandemia, o que as permitiria continuar a operar durante os períodos de quarentena.
Nesta terça-feira (14), livrarias italianas receberam autorização para voltar a funcionar, desde que limitem a entrada de clientes ao mesmo tempo.
No final de março, o ministro da economia da França, Bruno Le Maire, expressou o desejo de categorizar as livrarias como serviços essenciais, mas elas seguem fechadas no país. O presidente da França, Emmanuel Macron, em discurso feito no dia 16 de março, recomendou que a população aproveitasse o período de isolamento para ler e imbuir-se de arte e cultura.
“Agora, mais do que nunca, o acesso aos livros é essencial para nossa saúde mental coletiva”, afirmou o escritor Alex George em artigo publicado no jornal americana The Washington Post em 2 de abril. “Os leitores encontram esperança, alívio, entretenimento, informação, estímulos e escapismo dentro dos livros”, disse.
“Ler é fundamental. Nos abre o coração, a mente e nos permite um mergulho em um mundo que não é esse no qual vivemos agora”, afirmou ao jornal France 24 Alessandro Tarantola, dono de uma das principais livrarias de Veneza, na Itália.
Há quem rejeite essa noção. Stefano Calafiore, dono de uma livraria em Bérgamo, na Itália, usou o Facebook para rebater o argumento. “Se você não tem nada para ler, sinto muito. Você deveria ter ido à livraria antes”, disse, pedindo para que as pessoas fiquem em casa.
Annalisa Merelli, uma das editoras do site Quartz, afirmou que a ideia de que livrarias são serviços essenciais é “fofa”, mas que mostra um elitismo da classe intelectual, que acredita que livros e mantimentos estão no mesmo patamar de importância.

Mudança de hábito
O aumento na procura por livros digitais na Espanha está alinhado com uma tendência mundial de maior adesão aos e-books.
Em 2016, dados levantados pela empresa de consultoria austríaca Rüdiger Winschenbart apontaram que os livros digitais representavam 6,89% do mercado de livros do Brasil, um aumento de 2,62% em relação ao ano anterior.
A mesma pesquisa apontou que a Amazon, fabricante do dispositivo de leitura Kindle, dominava 55% do mercado brasileiro de livros digitais.
Na França, no mês de março, o site Babelio, maior plataforma de livros digitais do país, registrou 2,5 milhões de leitores, o maior número desde a sua criação, em 2007.
Mesmo com uma curva crescente na procura por livros digitais, muita gente ainda prefere o tradicional livro de papel. Em uma pesquisa de 2015, realizada pela empresa americana de pesquisa de mercado Pew Research Center, 63% dos americanos afirmaram que só conseguem ler livros de papel.
Em 2017, um artigo publicado pela associação britânica de comércio UKSG tentou entender por que os e-books não foram aderidos em maior escala. Segundo a entidade, a principal razão para uma rejeição aos livros digitais está no cansaço ocular relacionado ao uso prolongado de telas. O artigo levantou questionários feitos no Reino Unido, EUA, Eslovénia e Finlândia, apontando que quase 90% dos leitores de livros digitais usam o computador para a leitura.
Telas como a de computadores, tablets e celulares possuem uma alta emissão de luz azul, que causa cansaço nos olhos após um tempo prolongado de exposição. Por isso, não são recomendados para o uso em longos períodos.

As vantagens dos e-readers
E-readers, dispositivos feitos especialmente para a leitura de livros digitais, são uma solução para o cansaço dos olhos. Isso porque eles usam a tecnologia e-ink, um tipo de tela que imita o comportamento da tinta em um livro impresso.
As telas e-ink não emitem luz como as telas de smartphones e celulares. Há disponíveis e-readers iluminados, mas esses não emitem luz na direção do usuário – a iluminação fica rente à tela, servindo apenas como uma espécie de abajur para mostrar o conteúdo exibido.
O tamanho portátil, a capacidade de armazenar centenas de livros e a bateria que dura semanas são outras vantagens dos e-readers – além da facilidade de acesso aos textos durante períodos em que não se deve sair de casa, como as quarentenas. No Brasil, os principais modelos disponíveis são o Kindle, da Amazon, e o Lev, vendido pela Saraiva.


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